Introdução: A Relação entre Obesidade e Câncer
Neste episódio da TV Bariátrica, o Dr. Juliano Cançado, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, e o Dr. Felipe Rossi, diretor da sociedade, recebem o Dr. Álvaro Ferraz, cirurgião bariátrico de Pernambuco e coordenador do serviço de cirurgia bariátrica da Universidade Federal de Pernambuco, para discutir um tema de extrema gravidade e ainda pouco debatido: a relação entre obesidade e câncer. Enquanto a maioria das discussões sobre a obesidade se concentra nos efeitos cardiovasculares e renais, a associação com o câncer é frequentemente negligenciada. O Dr. Álvaro Ferraz é reconhecido como uma das maiores autoridades do Brasil no assunto, e sua participação traz dados alarmantes, mecanismos biológicos e orientações práticas para profissionais de saúde e para a população em geral.
Apresentação do Dr. Álvaro Ferraz
O Dr. Felipe Rossi apresenta o convidado, destacando sua trajetória: cirurgião bariátrico em Recife, membro da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do serviço de cirurgia bariátrica. Ele é apontado como talvez a pessoa que mais entende da relação entre obesidade, câncer e cirurgia bariátrica no Brasil. O Dr. Álvaro inicia sua fala lembrando que já são 13 tipos de câncer com comprovação científica de relação direta com a obesidade. Ele agradece o convite e ressalta que o tema é atual e preocupante, pois assistimos à associação de duas grandes pandemias: a obesidade e o câncer, que estão intimamente interligadas não apenas na incidência, mas também no crescimento acelerado dessa incidência.
O Aumento dos Casos e os Dados da OMS
O Dr. Álvaro Ferraz cita um dado recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) que é extremamente preocupante: os tumores relacionados à obesidade aumentaram 12 vezes nas últimas décadas. A obesidade está tomando um rumo crescente em todo o mundo, trazendo consigo diversas comorbidades, e o câncer é uma das mais graves. Ele reforça que a relação entre obesidade e câncer está fortemente estabelecida para 13 tipos, e essa incidência tem aumentado de maneira preocupante em todas as regiões do mundo. O público do programa é diversificado, incluindo a população geral e profissionais de saúde, e o Dr. Álvaro se propõe a explicar essa relação de forma objetiva para ambos.
Dificuldades no Diagnóstico e no Tratamento do Paciente com Obesidade
O Dr. Álvaro explica que o grande problema da obesidade em relação ao câncer é que ela interfere em todas as etapas da doença. No diagnóstico, o paciente obeso enfrenta dificuldades: muitas vezes não consegue entrar em uma tomografia, e o ultrassom é mais difícil de ser realizado com precisão. Isso leva a um diagnóstico tardio, e os casos de câncer nesses pacientes geralmente são avançados quando identificados. No tratamento, a obesidade também impõe barreiras. Cirurgias em pacientes obesos são tecnicamente mais difíceis e apresentam mais complicações. As taxas de complicações de quimioterapia são muito maiores do que em pacientes não obesos, e a radioterapia pode ser inviável porque o paciente não consegue entrar no equipamento. Portanto, a obesidade não só aumenta a incidência, mas compromete todas as fases do tratamento oncológico.
Mecanismos Biológicos: Inflamação Crônica e Hormônios
O Dr. Álvaro detalha os três principais mecanismos pelos quais a obesidade aumenta a incidência de câncer. O primeiro é a inflamação crônica, que aumenta a produção de citocinas e hormônios pró-inflamatórios. O segundo é a resistência à insulina, que eleva os níveis de insulina e de fatores de crescimento, estimulando tumores relacionados à insulina. O terceiro são as alterações hormonais, principalmente o aumento do estrógeno em pacientes obesos, que está associado a tumores como o de mama e o de endométrio. Além disso, ele menciona descobertas mais recentes, como as alterações na microbiota intestinal, que podem favorecer a proliferação de bactérias associadas ao câncer, e a produção ou supressão de algumas proteínas que participam da fisiopatologia da doença. Todo esse conjunto de alterações aumenta a capacidade de carcinogênese no organismo.
Os 13 Tipos de Câncer Relacionados à Obesidade
O Dr. Álvaro Ferraz lista os 13 tipos de câncer com comprovação científica de relação com a obesidade:
- Trato gastrointestinal: esôfago, estômago, fígado, pâncreas, vesícula biliar e colorretal.
- Outros órgãos: mama, endométrio, útero e tireoide.
- Outros tipos: meningioma, mieloma múltiplo e rim.
Ele destaca que os seis tumores gastrointestinais estão entre os mais agressivos, os adenocarcinomas, que têm maior dificuldade de tratamento com quimioterapia e radioterapia, e apenas a cirurgia e a prevenção podem trazer resultados mais efetivos. O Dr. Felipe Rossi chama a atenção para o câncer de mama, lembrando que a obesidade dobra o risco desse tumor, especialmente na pós-menopausa, e que a relação entre obesidade e câncer de mama é pouco abordada em campanhas como o Outubro Rosa.
Redução de Risco: Por que a Obesidade Ainda é Pouco Abordada?
O Dr. Felipe Rossi questiona por que a relação entre obesidade e câncer é tão pouco divulgada pela mídia e pelas sociedades médicas. O Dr. Álvaro concorda que se fala muito pouco e relata uma conversa com um amigo oncologista que disse: "Poxa vida, a gente solta fogos quando consegue uma redução de 1 a 2% na sobrevida ou no tratamento do câncer com algum quimioterápico. Vocês têm uma arma que reduz em cerca de 30% a incidência de câncer e ninguém explora isso". Além disso, ele traz um dado espantoso: no mundo todo, apenas 10 a 15% dos pacientes obesos fazem algum tipo de tratamento efetivo; 85% não são tratados. A obesidade é a maior pandemia mundial e traz consigo não só diabetes e hipertensão, mas também o câncer.
Perda de Peso Sustentável e Impacto na Prevenção
O Dr. Álvaro enfatiza que não é apenas emagrecer, mas emagrecer bem e por muito tempo. Dois pilares são fundamentais na prevenção do câncer: a quantidade de peso perdido e a duração dessa perda. O processo de carcinogênese pode durar décadas, e a perda de peso só mostra reflexos na redução do câncer após cerca de 5 anos. A perda de peso precisa ser superior a 20% do peso inicial para ter efeito duradouro, e quando passa de 30%, os resultados são melhores. É aqui que reside a grande diferença da cirurgia bariátrica em relação aos análogos de GLP-1. Enquanto as medicações proporcionam perda de 15 a 20% e metade dos usuários deixa de usá-las após um ano, a cirurgia oferece uma perda mais expressiva e duradoura, essencial para a prevenção.
Cirurgia Bariátrica vs. Medicações (Análogos de GLP-1)
O Dr. Álvaro compara a cirurgia bariátrica com as novas medicações. Ele reconhece que há muita publicidade mostrando que os análogos de GLP-1 são eficientes no câncer, mas eles proporcionam uma perda de peso de 15 a 20%, e metade dos usuários deixa de usá-los após um ano. Essa interrupção e a retomada interferem na formação do câncer. Para prevenir o câncer, é necessário um dado duradouro, com mais de 5 anos, e uma perda de peso mais expressiva, acima de 20% e de preferência em torno de 30%, algo que a cirurgia bariátrica oferece. O Dr. Juliano Cançado reforça que a cirurgia tem inúmeros mecanismos fisiológicos que levam a uma perda de peso mais consistente e a uma proteção muito maior contra o desenvolvimento de neoplasias.
Redução de Recidiva e Benefícios no Câncer de Mama
O Dr. Juliano pergunta se uma pessoa que já teve câncer e hoje tem obesidade, ao buscar tratamento, tem menor chance de recidiva. O Dr. Álvaro responde que sim, muito menor. A redução de peso diminui a recidiva e melhora o tratamento. Ele relata que tem recebido pacientes com câncer de mama encaminhados por oncologistas durante o tratamento, pois a perda de peso melhora a tolerância à quimioterapia e reduz os efeitos colaterais. Além disso, mesmo em pacientes com predisposição genética ao câncer de mama, um estudo americano de cerca de 18 anos mostrou que a cirurgia bariátrica beneficiou de duas a três vezes mais na redução do risco. Portanto, a redução de peso sustentável dá resultados tanto na incidência quanto no tratamento, mesmo com fator genético associado.
Estigmas da Obesidade e da Cirurgia Bariátrica
O Dr. Felipe Rossi pergunta por que há tanta dificuldade em informar a população sobre essa relação. O Dr. Álvaro aponta duas grandes barreiras. A primeira é o estigma da obesidade: apesar de a OMS e as sociedades médicas afirmarem que é uma doença crônica e grave, a maioria das pessoas, incluindo médicos, ainda a considera um problema comportamental, achando que a pessoa é obesa porque quer. A segunda é o estigma da cirurgia bariátrica: há um preconceito impressionante, apesar de a cirurgia ser segura e efetiva, com índice de complicações e mortalidade tão baixos quanto os de uma cirurgia de vesícula. Ele ressalta que a cirurgia trata não só a obesidade, mas também as comorbidades e o risco de câncer. O Brasil tem hoje 23% de obesidade, e a estimativa é que esse número suba para 30% até 2030.
Impacto na Saúde Pública e Custo-Efetividade
O Dr. Álvaro destaca que tratar o paciente obeso reduz o risco de ele utilizar inúmeros outros recursos que geram gasto no SUS. Ele cita um trabalho de doutorado da Universidade de São Paulo que demonstrou que a cirurgia é custo-efetiva no sistema público, reduzindo em até 85% a polifarmácia. Isso significa que o paciente deixa de usar insulina, remédios para pressão e deixa de ir para a UTI, gerando economia significativa. Ele compara com o custo de uma nova molécula para câncer de pâncreas, que é impraticável, e afirma: "É melhor evitar do que tentar tratar". O Dr. Felipe Rossi complementa que a cirurgia é protetora, pois previne diversas doenças, incluindo o câncer.
Abordagem Multidisciplinar e Estilo de Vida
O Dr. Álvaro reconhece que as novas medicações, apesar de não terem o mesmo resultado da cirurgia, têm um papel importante na conscientização. Antes, apenas 10 a 15% dos pacientes obesos no mundo recebiam tratamento efetivo; com as novas drogas, esse número subiu para cerca de 20%. Ele reforça que o tratamento da obesidade deve ser oferecido em todas as etapas: dieta, exercício, medicações e cirurgia. Não se pode banir a cirurgia por conta de um tratamento que não será efetivo para um certo grau da população. O Dr. Juliano Cançado acrescenta que a medicação veio como mais uma arma no arsenal contra a obesidade, encaixando-se naqueles casos de pacientes que procuravam o consultório querendo operar, mas não tinham indicação, ou que operaram e tiveram reganho de peso. A mudança de estilo de vida, com exercício físico regular e alimentação saudável, também impacta o resultado. É um conjunto de ações que leva ao sucesso terapêutico.
Considerações Finais e Recado aos Profissionais de Saúde
O Dr. Álvaro Ferraz deixa uma mensagem final. A relação entre obesidade e câncer é muito preocupante, pois são dois problemas de saúde pública com crescimentos muito grandes nas últimas décadas. O dado de que os tumores relacionados à obesidade têm aumentado significativamente acende um sinal de alerta. A principal medida preventiva é tratar a obesidade. Ao tratá-la, diminui-se a incidência desses cânceres e melhora-se a qualidade de vida, com redução significativa dos tumores. Ele destaca que os seis tumores gastrointestinais são os mais agressivos, adenocarcinomas com maior dificuldade de tratamento quimioterápico e radioterápico, e apenas a cirurgia e a prevenção podem trazer resultados mais efetivos. O grande recado é se aproximar do gestor público e do oncologista, pois junto com o cirurgião e o endocrinologista, podem mudar esse cenário. "A gente sabe a dor do paciente, da família que passa por um caso de câncer. E se a gente souber que a gente pode prevenir essa dor, olha o tamanho do benefício que você vai levar para aquela família". O Dr. Juliano agradece a participação do Dr. Álvaro e do Dr. Felipe, e convida a audiência a seguir a TV Bariátrica e os canais da sociedade. Ele finaliza pedindo aos jornalistas que divulguem essas informações.