Introdução: O Cuidado com Quem Ensina como Ponto de Partida para a Aprendizagem
O podcast “Entre uma coisa e outra” recebeu Irene Reis, educadora e CEO do Reinventando a Educação, para uma conversa profunda sobre a necessidade de cuidar de quem ensina. Com mestrado em Ciências da Educação, MBA em gestão escolar e especialização em neurociência e comportamento, Irene desenvolve pesquisa de doutorado em saúde mental e atua na formação de educadores e líderes, aproximando educação escolar, educação corporativa e desenvolvimento humano.
A conversa começou com uma provocação fundamental: quando pensamos em educação, quase sempre pensamos no aluno. O que deixamos de enxergar quando colocamos o educador no papel de quem precisa dar conta de tudo e estar sempre bem? Irene respondeu que é preciso pensar em quem tem contato maior com o aluno: o professor. Como humanos, aprendemos por neurônios espelho, copiando comportamentos uns dos outros. Se queremos falar de aprendizagem, precisamos começar pelo lugar certo: o cuidado com quem ensina. É o professor que passa a maior parte do tempo com a criança, especialmente em uma sociedade que valoriza a educação em tempo integral, muitas vezes usando a escola como um depósito de alunos para que as famílias possam trabalhar.
O Impacto do Professor na Vida Adulta e a Falha em Reconhecê-lo
Quito trouxe uma reflexão baseada no livro “Potencial Oculto”, de Adam Grant: o professor que uma pessoa tem aos 5 anos pode influenciar seu salário aos 30 ou 40 anos. Bons professores desenvolvem habilidades como colaboração e persistência, que repercutem na vida profissional. Irene foi categórica: os adultos não reconhecem esse impacto, sejam educadores ou não. Ela atua na formação de gestores tanto no campo corporativo quanto no escolar e percebe que ambos estão colapsados.
Irene critica a falácia de que a escola prepara para o mundo do trabalho. Ela deveria preparar a criança e o jovem para modificar o mundo do trabalho que está colapsando as pessoas. As empresas recebem funcionários sem inteligência emocional, relacional, interpessoal ou intrapessoal, e precisam formar isso internamente. Isso é uma falha da escola. A questão é ainda mais radical: os primeiros 1000 dias da criança são cruciais. Em países como Finlândia e Dinamarca, os pais têm direito a um ano de licença bancada pelo Estado. No Brasil, a licença paternidade é de apenas cinco dias, e a maternidade, de quatro a seis meses, muito distante dos primeiros 1000 dias.
A Desvalorização dos Pedagogos e a Formação dos Primeiros Anos
Irene aponta uma inversão perversa: os professores mais bem pagos são os especialistas do ensino médio, enquanto os pedagogos que dão aula para crianças de 5 a 8 anos recebem os piores salários. É justamente nesse período que se imprimem nas camadas mais profundas do cérebro o que é ser humano, qual é o pertencimento, a família, o acolhimento e a segurança. Crianças com pouca idade mostrando ansiedade é um sintoma disso. A escola, com o professor pedagogo, não tem mais a oportunidade de fazer uma roda ou um momento lúdico, pois os pais questionam: “Eu trouxe a criança aqui para ficar brincando?”.
O Desemparedamento da Educação: Crianças que Precisam de Ar Livre
Irene defende um movimento de desemparedamento da educação. Crianças de famílias com maior poder aquisitivo moram em apartamentos por segurança e ficam emparedadas entre muros e paredes; na escola, permanecem horas em sala de aula. É preciso tirar essas crianças para ver coisas, lugares, aprender história, geografia e matemática em campo. A matemática está em tudo, mas só se vê se a criança sair da sala de aula.
O pedagogo é descuidado e desvalorizado dentro da escola. Os professores polivalentes estão com as crianças um período inteiro, das 7 às 11, sem pausa, sem tempo para ir ao banheiro sem os alunos, cuidando deles inclusive no intervalo. Será que eles estão mentalmente bem? Se não estão, e a criança copia o comportamento desse adulto por neurônios espelho, como essa criança chegará em casa? As perguntas que os pais fazem na matrícula são equivocadas: ranking do Enem, aprovação em universidades públicas, programas para estudar fora. As perguntas corretas seriam: quanto ganha o professor nessa escola? Onde ele almoça? Qual é o horário da pedagoga polivalente e quanto de pausa ela tem? Esse adulto é a pessoa mais importante na vida do filho na ausência dos pais e precisa estar bem.
A Conexão pelo Olhar e o Abandono Invisível
Irene alerta que tudo o que acontece na creche ou escola fica impresso na criança, mesmo que ela não tenha linguagem para contar. O abandono no momento do choro, muitas vezes não por maldade da professora, mas porque ela estava exausta, fica registrado como abandono. A criança cresce com comportamentos que os pais não entendem, apesar de todo o amor que deram. E os próprios pais chegam em casa colapsados pelo trabalho, sem estar suficientemente entregues para olhar nos olhos do filho.
Ela faz uma crítica social contundente: as pessoas perderam a prática de olhar nos olhos. No elevador, olham-se os sapatos dos outros. Irene usa sandálias escandalosas justamente porque todos sabem a cor dos seus sapatos, mas ninguém sabe que seus olhos são verdes. A criança cresce com a informação de que a conexão pelo olhar é perigosa e que a presença do outro precisa ser evitada.
A Violência das Crianças e a Doença da “Conteudite Aguda”
Quito questionou se as crianças não estão ficando violentas por falta de ferramentas de relacionamento, já que o outro é invisível. Irene respondeu que a escola não é uma célula impermeável; tudo o que acontece dentro dela já está acontecendo fora. A escola padece de uma doença terrível: a conteudite aguda. Em nome do conteúdo, negligencia-se o desenvolvimento humano. A frase do sociólogo Neil Postman é citada: “A criança é a mensagem viva que enviamos a um mundo que não veremos”. Que mensagem estamos enviando para que crianças usem sua inteligência digital para criar deep fakes e expor colegas, em vez de lutar contra a fome ou buscar água no Nordeste?
Irene confessa que, ao assistir à série “Adolescência”, passou grande parte dos episódios querendo que o menino fosse inocente, em um negacionismo profundo, mesmo sendo educadora. É preciso acolher a situação para entender a origem da violência. Quem faz violência pode estar em sofrimento profundo. O bullying tem dois lados: quem o pratica e quem o sofre.
Clientelismo na Escola Privada e Perseguição na Escola Pública
Irene traça um paralelo entre os dois contextos. Na escola pública, há uma perseguição aos professores, vistos como doutrinadores que não podem tocar em temas tabus. Na escola privada, impera o clientelismo: o cliente sempre tem razão. Se o professor quer estabelecer limites, o pai usa a “carteirada” de que está pagando para condenar o professor que faz o que o próprio pai não consegue fazer por ausência. Ela não julga a ausência, entendendo a lógica do capitalismo que exige jornadas exaustivas, mas se a escola vai fazer a parte que vai além do conteúdo, ela precisa ser apoiada.
O problema acaba aparecendo na empresa, onde são necessários comitês de diversidade, de etnia e raça, LGBTQI+, de neurodivergentes, porque na escola isso não foi solucionado. Quando se leva crianças para acampar, viajar, quando se tira a criança do contexto em que um adulto enfia conteúdo sem protagonismo, é que se conhece a essência da criança e se percebem características que precisam ser cuidadas, não reprimidas ou punidas. Um adulto racista deve responder criminalmente, mas uma criança racista precisa de uma medida pedagógica, pois está copiando algo de algum adulto ou de outras crianças.
A Influência dos Pares e o Poder do Pertencimento
Irene cita o psiquiatra Dr. Luís Eduardo Xavier, que em uma palestra perguntou quem mais influencia uma criança ou adolescente. Todos responderam “os pais”, mas a resposta correta é: os pares. Por isso é crucial saber com quem o filho anda e o que ele ouve no ambiente digital. O ditado “diga-me com quem andas que eu te direi quem és” é uma verdade pétrea. A neurociência comprova que somos a média das cinco pessoas com quem convivemos. Isso não é neuromito. O pertencimento é uma necessidade de sobrevivência da espécie; para pertencer a um grupo, a pessoa pode fazer coisas muito feias. Pesquisas com primatas mostram que, entre comer e se aconchegar, o primata prefere o afeto e o pertencimento.
Reinventar a Educação com Coragem e União dos Gestores
Diante de uma minoria barulhenta de famílias que faz o gestor desistir de projetos inovadores, Irene aconselha: primeiro, dar um abraço nesse gestor, que está em sofrimento. Depois, explicar que ele está adiando um problema: com medo de perder o cliente, está perdendo a mão de uma educação de fato. Ele deve chamar os pais para conversar, mas se eles não vêm por falta de tempo, é preciso entender que não é maldade. O gestor precisa de reserva financeira, pois vai perder matrícula. A saída é a união em associação de gestores escolares: pactuar que todas as escolas da região terão acampamento, saída pedagógica, atividade física. Assim, a família não terá para onde correr.
A Importância do Sono, da Autonomia e do Exemplo
Irene revela que descobriu aos 30 anos a importância de cuidar do sono, da alimentação e da atividade física para desacelerar seu cérebro neuroatípico. Muitas crianças diagnosticadas e medicadas por hiperatividade têm, na verdade, excesso de tela e dormem menos do que deveriam. O período da manhã é mais agitado e violento nas escolas; o da tarde, mais tranquilo, porque as crianças dormiram mais. É preciso ensinar às crianças sobre a importância do sono e das habilidades para a vida, como autoconhecimento e gestão das emoções.
Sobre a autonomia, Irene critica os projetos político-pedagógicos que dizem “damos autonomia”. Autonomia não se dá, não se decreta; constrói-se nas pequenas escolhas do dia a dia. Uma criança com o corpo contido, horário definido por outros, que não escolheu nem o lanche, não constrói autonomia. Quando chega ao mercado de trabalho, não sabe fazer escolhas. Por pertencimento, pode dizer “sim” a comportamentos de risco. A escola precisa ensinar essas questões, desde que a família, no mínimo, não atrapalhe.
Irene indica seu livro “Como ser um educador: reinventando a educação de A a Z”, mostrando que educador não é só quem está em sala de aula, mas todo aquele que se sente responsável pelo florescimento de alguém. O livro traz exercícios práticos e reflexões. Quito encerra com um conselho: seja pai e mãe de verdade, não amigo nem autoritário, busque referência em quem entende de educação, estude, peça ajuda. “O que você faz, eles escutam, eles aprendem e eles imitam.”