Introdução: O Tratamento da Obesidade no SUS
Neste episódio da TV Bariátrica, o Dr. Juliano Canavales, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), e o Dr. Fábio Almeida, vice-presidente e presidente eleito para o biênio 2027-2028, recebem a Dra. Fabiana Franca, cirurgiã bariátrica e diretora de um hospital público do servidor municipal em São Paulo, e o Dr. Ébert, cirurgião bariátrico, ex-secretário de saúde do estado de Alagoas e coordenador de um serviço de alta oferta que atende exclusivamente pelo SUS. O tema central é o tratamento da obesidade no Brasil, em especial no Sistema Único de Saúde (SUS), abordando os desafios, as falhas na atenção ao paciente e as possíveis soluções, com destaque para a criação dos Centros de Tratamento da Obesidade (CTOs) e o papel fundamental da sociedade médica nesse processo.
O Gargalo da Fila em São Paulo
A Dra. Fabiana Franca compartilha sua realidade à frente de um hospital público municipal em São Paulo, que atende exclusivamente servidores da prefeitura. Ela relata que, antes de assumir a gestão, já percebia como cirurgiã bariátrica as enormes dificuldades de acesso enfrentadas pelos pacientes. O caminho é longo e cheio de obstáculos: o paciente precisa ser identificado na atenção primária (Unidade Básica de Saúde), conseguir uma vaga em um ambulatório de especialidade para consultar com um endocrinologista, passar por um tratamento clínico que muitas vezes não tem sucesso ou perde a continuidade, e então entrar em uma fila de espera regulada pelo sistema de regulação (CROSS) do estado. Somente após todas essas etapas é que ele chega a um centro especializado, um hospital de referência. O grande problema, segundo ela, é a falta de uma linha de cuidado que conecte todos esses serviços, fazendo com que o paciente espere anos. Estudos realizados com hospitais de São Paulo mostram que essa jornada pode levar de 2 a 5 anos.
A Realidade dos Hospitais Públicos e a Gestão da Fila
Com 600.000 vidas sob sua gestão, a Dra. Fabiana conta que o hospital, estruturado com 200 leitos, realiza 40.000 consultas por mês. Diante de uma fila de 450 servidores aguardando cirurgia bariátrica, ela implementou um protocolo institucional para identificar e priorizar os pacientes mais graves, semelhante ao sistema de pontuação utilizado para transplantes. São 13 itens que pontuam a gravidade do paciente, considerando condições como diabetes descompensado, gordura no fígado evoluindo para cirrose, e histórico de câncer. Pacientes classificados como 'sinal vermelho' (muito graves) são convocados em até 6 meses; 'amarelo' em até 1 ano; e 'verde' seguem a ordem cronológica. Além disso, ela percebeu que precisava atuar também no acesso, criando grupos de acolhimento com endocrinologista, nutricionista e enfermeira navegadora, para que o paciente, ao final do grupo, já tenha seu fluxo definido: tratamento clínico, medicamentoso ou encaminhamento direto para a cirurgia, caso sua pontuação de gravidade indique prioridade.
O Sucesso da Gestão e do CTO em Alagoas
O Dr. Ébert, com sua experiência como ex-secretário de saúde de Alagoas, traz uma perspectiva diferente. Ele ressalta que o SUS é um sistema bem organizado e que existe recurso para viabilizar novos programas, citando como exemplo a política nacional de atenção às urgências (SAMU). A complexidade do paciente com obesidade exige uma abordagem multiprofissional e integração regional, desafios que o SUS já está habituado a enfrentar. Em Alagoas, ele implantou um serviço com cofinanciamento que viabiliza a sustentabilidade dos procedimentos, especialmente por laparoscopia, dentro de uma linha de cuidado completa, incluindo o preparo pré-operatório e a pré-habilitação de pacientes superobesos. O serviço realiza cerca de 1.000 procedimentos por ano, atendendo exclusivamente pelo SUS, e tem se mostrado um case de sucesso, com resultados que retroalimentam a equipe e a qualidade de vida dos pacientes.
A Desproporção entre Oferta e Demanda
O Dr. Ébert apresenta dados alarmantes sobre a desproporção entre a oferta de cirurgias e a demanda. Em São Paulo, há 60.000 usuários com obesidade grave (IMC acima de 40) apenas no município, enquanto a média de oferta nacional é de apenas 7.000 a 8.000 cirurgias por ano. Em Alagoas, são 6.000 pacientes na capital e 30.000 no estado inteiro, para um serviço que realiza cerca de 1.000 procedimentos anuais. Ele reforça que o tratamento mais eficaz e duradouro para a obesidade grave é a cirurgia bariátrica, mas a fila de espera é um grande gargalo. Em alguns serviços, a média de espera é de 740 dias, mais de 2 anos. Para agilizar o processo, o serviço em Alagoas desenvolveu uma metodologia que consegue fechar um protocolo completo em cerca de três semanas, com triagem inicial, coleta de exames, consultas com nutricionista, psicólogo, endoscopia e avaliação clínica/cirúrgica, reduzindo drasticamente o tempo de espera.
O Papel da SBCBM na Qualificação do SUS
O Dr. Juliano Canavales questiona como a SBCBM pode atuar para dinamizar a situação e por que a sociedade enxergou essa carência, propondo uma parceria com o Ministério da Saúde. O Dr. Fábio Almeida responde que o olhar para o paciente do SUS é uma obrigação técnica de qualquer médico, e que a sociedade, detentora da expertise no tratamento da obesidade, tem o papel de ajudar a construir modelos que se aproximem do ideal para cada realidade regional. Ele cita iniciativas da SBCBM, como o primeiro Fórum Brasileiro de Tratamento e Prevenção da Obesidade, realizado em conjunto com o Conselho Federal de Medicina e o Ministério da Saúde, e reuniões com o CONASS (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) e CONASEMS (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde). A sociedade tem trabalhado para mostrar à população e aos gestores que a obesidade é uma doença crônica e que políticas públicas contínuas são necessárias, não apenas ações isoladas de uma gestão. O objetivo é transferir o conhecimento e a competência da sociedade para a iniciativa pública, ajudando a estruturar uma linha de cuidado eficiente em todo o país.
O Modelo de CTOs: Primário, Secundário e Terciário
Os convidados discutem a necessidade de criar níveis de Centros de Tratamento da Obesidade (CTOs) para organizar a rede de assistência. A proposta é inspirada no modelo do SAMU e na hierarquização do SUS:
- CTO Primário: Seria o ponto de entrada, uma ligação entre a atenção básica e o centro de tratamento. Seria uma sala dedicada, com equipamentos adaptados (poltrona, maca, balança de 300 kg), para realizar o tratamento clínico e a contra-referência para os demais níveis. O Dr. Ébert ressalta que São Paulo já possui 90 centros especializados que poderiam ser adaptados.
- CTO Secundário: Seria responsável por realizar cirurgias em pacientes de média complexidade clínico-metabólica, com maior volume de procedimentos. O objetivo é desafogar os centros terciários.
- CTO Terciário: Seriam os centros de altíssima complexidade, como os hospitais universitários, com equipes especializadas para realizar cirurgias revisionais e atender pacientes superobesos ou com condições muito graves. O Dr. Ébert alerta que esses centros, embora tenham alta tecnologia e expertise, têm baixo volume de atendimentos, o que não resolve o problema de escala.
A ideia é que, dentro de cada CTO terciário, exista uma política que habilite CTOs secundários e primários, criando uma rede hierarquizada por complexidade. O Dr. Ébert cita o exemplo da província de Ontário, no Canadá, que possui 14 centros de tratamento da obesidade para 11 milhões de habitantes. No Brasil, ele estima que seria necessário pelo menos um centro para cada milhão de habitantes. Hoje, existem 70 hospitais habilitados, muitos com baixo volume ou desativados, e a sociedade precisa trabalhar para emancipar esses centros e criar a política nacional que defina o fluxo assistencial.
Como Implantar CTOs Primários, Secundários e Terciários
O Dr. Fábio Almeida pergunta ao Dr. Ébert o que ele diria a um sócio que, atuando como gestor, deseja implantar um CTO. O Dr. Ébert responde que a SBCBM tem a responsabilidade de criar as condições para que o sócio possa ter essa iniciativa local. Ele explica que o Brasil já sabe montar políticas nacionais de alcance territorial, como fez na oncologia (CACONs e NACONs) e no SAMU. Na obesidade, porém, não existe uma política nacional, apenas uma linha de cuidado inserida na política de doenças crônicas não transmissíveis. Ele revela que 22% do orçamento dessa política já é destinado a doenças relacionadas à obesidade, o que representa cerca de 15 bilhões de reais por ano. Estudos internacionais mostram que o impacto da obesidade no Brasil é de 84 bilhões de reais ao ano, considerando a retirada da produtividade e aposentadorias precoces.
A Necessidade de uma Política Nacional e a Ordenação da Demanda
Para o Dr. Ébert, é urgente a criação de uma política nacional que estimule a implantação de CTOs em capitais, com níveis diferentes de resolutividade. Ele ressalta que a implantação deve ser acompanhada de um fluxo assistencial definido e de uma rede hierarquizada por complexidade. Caso contrário, o CTO se torna apenas um funil, um gargalo. Ele explica que, ao ordenar a demanda, o recurso aparece. E quem entende de ordenação e de tratamento da obesidade são as sociedades médicas, como a SBCBM e a ABESO. O papel da sociedade é trabalhar essa ideia de implantar a política, definir os recursos previstos para a estruturação, capacitar as equipes (através de suas certificações) e atuar como um grande aliado do SUS. Ele finaliza sua fala destacando que a receptividade no Ministério da Saúde foi espetacular e que é preciso dar continuidade a esse processo.
Considerações Finais e Esperança para os Pacientes
Para a Dra. Fabiana, a obesidade é o maior desafio da gestão pública do país atualmente. Ela acredita que a sociedade, ao lado dos parlamentares e do Ministério da Saúde, precisa construir políticas de saúde pública contínuas para enfrentar essa epidemia que terá um impacto enorme nos próximos anos. Ela se sente honrada em participar desse movimento e reforça a necessidade de fortalecer a atenção primária e estabelecer os CTOs, tratando a obesidade com todas as ferramentas disponíveis.
O Dr. Ébert faz um apelo à continuidade da bandeira da SBCBM, focando na priorização do paciente grave. Ele explica que, a partir do grave, ordena-se todo o sistema, pois são os que mais precisam e sofrem. Ele lembra que esses pacientes são invisíveis na sociedade, muitas vezes isolados socialmente, e que o CISVAN (Sistema Nacional de Vigilância Alimentar e Nutricional) fornece os dados e contatos (inclusive WhatsApp) para que seja feita uma busca ativa. Ele afirma que a obesidade grave é, talvez, a doença crônica mais negligenciada no SUS e que é preciso reverter essa situação.
O Dr. Fábio Almeida, em suas considerações finais, destaca que a ideia cultivada pelo Dr. Juliano Canavales e pela diretoria eleita terá continuidade, pois há muitas pessoas comprometidas dentro da sociedade. Ele agradece a participação dos convidados e acredita que quem assistiu ao podcast, especialmente os sócios e os pacientes do SUS, ficará feliz em saber que terão assistência com o grande guarda-chuva de segurança da sociedade. O Dr. Juliano encerra o episódio agradecendo a todos e convidando a audiência a seguir a TV Bariátrica e os canais da sociedade.