Nadar no Caos: Controle Mental em Ambientes Hostis com Eric Nakumo

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Neste episódio do podcast, os apresentadores João Pedro Morais e Bruno Beter recebem um convidado especial: Eric Nakumo, advogado, pai de dois filhos e atleta de resistência em águas abertas. Eric é conhecido por levar disciplina e resistência ao extremo dentro e fora da água. Ele completou travessias icônicas como o Leme ao Pontal (36 km), integrou a primeira equipe a dar a volta na Ilha Grande em revezamento (76 km em 2003), tornou-se o 39º brasileiro a concluir o Canal da Mancha (com o tempo de 10h23) e, em 2025, completou sozinho a travessia da Ilha Grande em 33 horas ininterruptas.

A conversa mergulha fundo no universo das ultra travessias aquáticas, explorando não apenas os feitos físicos, mas principalmente os aspectos mentais, emocionais e estratégicos que envolvem estar em um ambiente hostil por mais de um dia seguido. Eric compartilha lições valiosas sobre preparação, disciplina, gestão do medo e a importância do apoio familiar — lições que transcendem o esporte e se aplicam à vida profissional e pessoal de qualquer pessoa que busca superar seus próprios limites.

A travessia da Ilha Grande: 76 km e 33 horas de nado solo

Eric explica os detalhes dessa modalidade extrema. A volta na Ilha Grande, regulada pela Big Island Swimming Association (BISA), é um dos desafios mais longos do Brasil, com 76 km de extensão. Até 2024, apenas duas pessoas haviam concluído essa travessia de forma homologada — Eric é uma delas.

Diferente do que muitos imaginam, essas travessias são chamadas de "nados sem assistência". O nadador conta com uma embarcação de apoio ao lado para segurança, para validar o percurso e para fornecer alimentação e hidratação. No entanto, o nadador não pode tocar no barco em nenhum momento. Também não pode usar qualquer roupa que ofereça flutuabilidade ou auxílio térmico — apenas sunga, touca e óculos. A famosa “graxa branca” (mistura de vaselina, lanolina e zinco) é permitida, pois serve apenas para proteção contra assaduras e sol, sem oferecer vantagem competitiva.

Eric destaca que a alimentação durante essas 33 horas é estratégica. Enquanto em travessias mais curtas ele opta apenas por líquidos e géis, na Ilha Grande sua equipe incluiu alimentos sólidos de vez em quando, não apenas por necessidade fisiológica, mas como um alívio mental. “A parte sólida às vezes vem como um alívio mental”, explica.

O treinamento: simulando o extremo antes da prova

Uma das perguntas mais frequentes é: como treinar para nadar 33 ou 76 km? Eric esclarece que não se faz um treino inteiro igual à travessia. Em vez disso, o treinamento é dividido ao longo da semana para acumular a metragem total, e alguns treinos específicos são desenhados para simular as piores condições possíveis.

O exemplo mais marcante foi o treino para o Canal da Mancha: uma sessão de 12 horas ininterruptas em uma represa, das 8 da noite às 8 da manhã, com apenas um farol de carro apontado para a água para orientação. Eric nadou a noite inteira sem música, sem distrações, apenas com sua mente e seu corpo. Essa experiência, embora mais longa do que o próprio Canal da Mancha (que durou 10h23), preparou seu psicológico para enfrentar o escuro, o cansaço extremo e o isolamento. Seu treinador usa uma metáfora poderosa: a travessia é como um trem fantasma. Na primeira vez, você se assusta com tudo. Na segunda, já sabe o que esperar e não se assusta da mesma forma. O treinamento serve para simular esses “sustos” antecipadamente.

Eric também menciona a importância de preparar o corpo para as condições adversas. No Canal da Mancha, a água fica entre 14°C e 18°C — ele nadou a 17°C. Uma temperatura que não paralisa, mas incomoda o tempo todo. Para suportar o frio, o atleta precisa ter uma reserva de gordura corporal, o que significa engordar enquanto treina pesado. “Eu achava que essa ia ser a melhor parte, porque sempre gostei de comer, mas era difícil”, admite.

O maior inimigo não é o cansaço: é a mente

Eric revela um ponto surpreendente: em sua primeira tentativa de dar a volta na Ilha Grande (abril de 2024), ele teve que parar com mais de 20 horas de nado devido a uma lesão muscular no intercostal. Mesmo assim, seu mental estava forte. Ele sempre confiou que seu maior trunfo era a força psicológica. A natação, para ele, sempre foi um refúgio — o único lugar onde conseguia esvaziar a cabeça e focar apenas no movimento.

Esse excesso de confiança foi sua armadilha. Para a segunda tentativa (dezembro de 2024), ele pensou: “Meu mental já está preparado. Só preciso focar no físico.” Ele chegou fisicamente muito bem, mas o mental ruiu já com 12 horas de prova — menos da metade do trajeto. “O corpo bem forte respondendo, mas a cabeça dizendo que não ia, não ia, não ia.” Eric brinca que ficou tão chato que até o “anjinho” e o “diabinho” no ombro se uniram para pedir que ele desistisse.

Essa experiência o fez perceber que preparação mental não é algo que se adquire uma vez e se mantém para sempre. Ele havia parado com a terapia e relaxado os treinos mentais por acreditar que já estava pronto. Foi um erro. A lição é clara: em ambientes hostis — seja na água, no trabalho ou na vida —, a mente precisa ser treinada continuamente, com a mesma disciplina que o corpo.

Para não desistir, Eric e sua equipe usaram todas as técnicas possíveis: quebrar o objetivo final em microobjetivos (chegar até a próxima ponta da ilha), estipular recompensas a cada 500 braçadas (um alongamento, um gole de líquido) e usar a comunicação da equipe para manter o foco. Ele também teve o apoio da esposa no barco, que representava seu “alicerce emocional”, e de seus treinadores — um mais fofo e motivador, outro mais duro, dando broncas na hora certa.

Medo de tubarão, água-viva e o imprevisível

Uma curiosidade inevitável: quem nada por 33 horas no mar aberto não tem medo de tubarões? Eric admite que sim, tem medo. Mas aprendeu a lidar com isso de forma racional. Ele ressalta que, estatisticamente, ataques de tubarão durante travessias homologadas são extremamente raros. Mesmo em regiões conhecidas por tubarões, como a travessia da Catalina (Califórnia), não há nenhum ataque registrado.

No entanto, há outros perigos reais, como as águas-vivas gigantes do Canal da Mancha. “São um espetáculo, lindas, mas se encostar, queima como uma armadura de segundo grau.” Não há como treinar para isso — o susto é garantido, e o nadador precisa seguir em frente.

A maior dificuldade técnica, segundo Eric, é a correnteza. No Canal da Mancha, a parte mais difícil é o final, quando o nadador chega perto da costa francesa e enfrenta uma corrente que pode fazê-lo “bordar a margem” por horas, sem conseguir avançar. Por isso, a gestão de energia é crucial: se o nadador gasta tudo no começo, não terá força para a reta final.

Paternidade, disciplina e o ensinamento sobre desistir

Eric é pai de dois filhos: João (9 anos) e Lorena (6). Ele compartilha uma história profundamente humana sobre o impacto de seus desafios na família. Antes do Canal da Mancha, seu filho mais velho, então com 6 anos, pedia que ele prometesse que terminaria a travessia. Até que um dia o menino perguntou: “Dá para conversar com quem vai pro céu?” Eric percebeu que, na cabeça da criança, não terminar a travessia significava morrer afogado.

Foi aí que ele fez questão de ensinar uma lição essencial: desistir também é uma opção. Ele renovou a promessa com o filho, mas acrescentou: se for necessário, vou desistir, porque o mais importante é estar vivo. E, de fato, quando Eric teve sua primeira tentativa frustrada na Ilha Grande (por lesão), ele colocou em prática o que havia prometido: desistiu para preservar sua saúde. O filho viu isso e aprendeu que desistir não é fracasso, mas sim uma decisão estratégica.

Na segunda tentativa (bem-sucedida), algo inesperado aconteceu: a organização permitiu que as crianças subissem no barco de apoio nos momentos finais. Eric, já exausto mentalmente e pensando em desistir novamente, sentiu um misto de ânimo e pressão. Pensou: “Ensinei que desistir é opção, agora tenho que ensinar a persistir mesmo quando os cenários estão adversos.” Essa tensão o ajudou a seguir até o fim.

O ensinamento que Eric espera passar aos filhos não é sobre o feito em si, mas sobre a disciplina do processo. Eles o veem treinando diariamente, o veem cansado, mas o veem indo. Veem que os horários são respeitados. E veem que mesmo nas situações mais extremas, há uma escolha consciente entre persistir ou desistir — e ambas podem ser atos de coragem.

O pós-travessia: corpo e mente em recuperação

As consequências físicas de 33 horas no mar salgado são impressionantes. Eric relata que sua língua ficou com uma camada de pele morta, dura, sem sensibilidade. Ele perdeu completamente o paladar. A primeira noite foi horrível: até engolir saliva doía, e o nariz sangrava. A água morna, ao descer pela língua, ardia. Nos dias seguintes, sua língua começou a descascar.

Além disso, seu corpo absorveu muita água salgada, ficou totalmente inchado. O inchaço levou dias para descer, concentrando-se nas canelas. O que mais o assustou foi a recuperação da coordenação motora fina: 10 a 15 dias após a travessia, ao tentar nadar novamente, seu corpo tremia — rosto, braços, pernas. Ele levou cerca de um mês para voltar a treinar normalmente, já em janeiro.

O momento da chegada, no entanto, foi de pura emoção. Ao pisar na areia, Eric chorou muito. “Passar tanto tempo na água, com aquela sensação de gravidade zero, eu tinha agonia de ficar flutuando. Eu queria fincar meu pé no chão.” Esfregar as mãos na areia foi a primeira coisa que fez.

Advocacia, natação e a simbiose entre carreira e esporte

Eric é advogado e concilia a profissão com treinos diários e a família. Ele descreve essa rotina como uma “batalha diferente a cada dia”. Não há um segredo mágico: há planejamento, priorização e muito apoio da esposa. Ele tem dois horários fixos de treino por dia — se não consegue um, tenta o outro. Ele prioriza a natação em detrimento de outros tipos de preparação física, simplesmente por falta de tempo.

Mas ele vai além: para Eric, advocacia e natação são uma simbiose. Ele precisa de ambos para funcionar. O esporte lhe deu uma noção diferente de como agir quando tudo parece perdido. Ele aprendeu que, no trabalho e na vida, você pode se preparar da melhor forma possível, mas sempre haverá imprevistos — como correntezas, águas-vivas ou uma testemunha que muda o depoimento. A chave é não ficar se lamentando pelo final, nem fixar-se apenas no grande objetivo distante. É preciso “viver o momento, centrar as forças em cada passo”.

Eric também observa que, no mundo profissional, saber que alguém completou o Canal da Mancha ou uma travessia de 76 km comunica imediatamente disciplina, resiliência, capacidade de suportar pressão e foco em metas de longo prazo. Não à toa, artigos internacionais mostram que head hunters valorizam currículos que incluem desafios extremos — um atleta de resistência traz consigo uma cultura de disciplina que é ativamente procurada.

O próximo desafio e como acompanhar Eric

Mesmo após tamanha exaustão, Eric já tem um novo projeto: uma travessia inédita em revezamento entre a Ilha Grande e a Ilhabela, chamada “Entre Ilhas”. O percurso terá cerca de 120 km (ou mais) e levará aproximadamente dois dias de nado contínuo. Dessa vez, será em equipe, o que muda a dinâmica, mas o nível de exigência segue altíssimo.

Eric compartilha sua jornada e dicas em seu perfil do Instagram: @eric.nakumo (o link está na descrição do vídeo). Lá, ele fala sobre experiências, treinos e os bastidores das travessias — sempre na perspectiva de um atleta amador que transformou o esporte em sua terapia e em sua escola de vida.

A conversa termina com os apresentadores agradecendo a Eric pela aula de superação, disciplina e inteligência emocional. Fica a mensagem final: se você quer enfrentar ambientes hostis — dentro ou fora da água —, comece preparando sua mente com a mesma disciplina que prepara seu corpo. E nunca subestime o poder de desistir estrategicamente para viver e lutar outro dia.