História dos Cuidados Paliativos - Ricardo Tavares

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O ViMocast apresentou um episódio histórico com o Dr. Ricardo Tavares de Carvalho, uma das figuras centrais na construção dos cuidados paliativos no Brasil. Com 40 anos de trajetória dentro do complexo Hospital das Clínicas (HCFMUSP), Ricardo compartilhou como sua inquietação na cardiologia e na UTI o levou a desbravar uma área que, há duas décadas, era cercada de desinformação e preconceito.

Conduzido por Ron Benny e Suelen, o podcast revelou detalhes inéditos sobre a criação das primeiras comissões, a fundamentação da residência médica e a luta para provar que o cuidado paliativo é, além de humano, uma estratégia de gestão eficiente.

Da Cardiologia de Ponta ao Despertar para o Cuidar

Formado pela USP em 1984, Ricardo Tavares consolidou sua carreira no InCor, vivenciando o auge dos transplantes e suportes mecânicos na década de 90. No entanto, o convívio com a morte "mal assistida" nas UTIs gerou um esgotamento que o levou a um período sabático. O reencontro com o propósito veio através da bioética, onde ouviu falar pela primeira vez sobre cuidados paliativos.

Ao perceber que o paliativismo oferecia a técnica que faltava para lidar com a terminalidade, Ricardo mergulhou nos estudos e participou da fundação da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), sendo o associado número 23. Ele relembrou os tempos em que os congressos tinham apenas 200 pessoas e o medo de que a prática fosse confundida com algo ilegal era uma realidade constante.

A Batalha Institucional no Hospital das Clínicas

Um dos pontos altos do episódio foi o relato da implementação do cuidado paliativo no HC. Ricardo descreveu as resistências de um hospital voltado para a cura e a tecnologia. Para vencer o ceticismo da diretoria, ele utilizou sua bagagem clínica e dados estatísticos.

  • O Impacto dos Dados: Ricardo realizou um levantamento mostrando que 90% dos pacientes terminais colhiam exames inúteis no dia da morte e que 70% ainda recebiam medicações irrelevantes como estatinas.
  • A Prova da Eficiência: Ao calcular que a falta de uma linha de cuidado paliativo custava cerca de R$ 30 milhões por ano ao hospital, ele finalmente obteve o "sim" da diretoria para criar a primeira comissão oficial em 2008 e o serviço estruturado em 2011.

Pioneirismo no Ensino: Instituto Paliar e Residência Médica

Ricardo Tavares também é o fundador do Instituto Paliar, criado em 2009 para suprir a demanda reprimida por formação especializada. Ele relatou o desafio de montar a primeira residência médica e multiprofissional em cuidados paliativos do HC, que começou em 2013 e 2014, respectivamente. "Eu apertava o sapato para estourar, depois via se dava para comprar outro", brincou, referindo-se à sua coragem de iniciar projetos antes mesmo de ter toda a estrutura garantida.

Hoje, ele celebra a inclusão da disciplina na graduação da Faculdade de Medicina da USP e o aumento do tempo de residência para dois anos, consolidando a área como uma especialidade robusta e necessária.

Futuro e Tecnologia: Pesquisa e Inteligência Artificial

Sempre inquieto, Ricardo revelou que o cuidado paliativo brasileiro está entrando em um novo capítulo: o da pesquisa de alto fomento. Recentemente, ele aprovou dois projetos inovadores junto à FAPESP e à Secretaria da Saúde, totalizando R$ 10 milhões em investimentos. O foco será a transformação digital, utilizando aprendizado de máquina e inteligência artificial para criar modelos preditivos e melhorar a assistência em larga escala.

Autocuidado e Espiritualidade

Apesar de sua base clínica sólida, Ricardo destacou que sua sustentação emocional vem de práticas de espiritualidade e autoconhecimento. Ele revelou que dedica suas noites ao estudo de mantras sagrados, gestão do físico-mental e até simbolismos do tarô, buscando um equilíbrio que o permita continuar lidando com o sofrimento humano sem perder a própria integridade.

Mensagem para os Novos Profissionais

Sua trajetória é um convite à persistência. Para Ricardo, a convicção de que o cuidado paliativo é o caminho certo para um sistema de saúde sobrecarregado e uma população que envelhece é o que o mantém firme. "Não tem como desver o que você já viu", concluiu, reforçando que o paliativismo é a medicina do futuro, unindo técnica artesanal e tecnologia de ponta.


Conecte-se com o Dr. Ricardo Tavares: Acompanhe seus projetos e pesquisas no LinkedIn ou no Instagram @dr.ricardopaliativo. Para cursos de especialização, conheça o Instituto Paliar.