Introdução: A Arte de Curar Além da Técnica
No podcast da Skill Mentor, os médicos Thiago Midl e Diego receberam um convidado especial: Giba Rizo, que se autodenomina Diretor de Felicidade. Com uma trajetória única que vai do mercado financeiro ao voluntariado hospitalar como palhaço, Giba compartilhou sua visão sobre a importância da humanização e da alegria na formação e na prática médica. Este artigo explora os principais ensinamentos dessa conversa inspiradora, baseada exclusivamente na transcrição do episódio.
A Origem de Uma Jornada: Os Primeiros Passos no Voluntariado
Aos 14 anos, Giba Rizo iniciou sua trajetória no trabalho social, atuando como voluntário em um projeto que utilizava piscinas para acalmar crianças com síndrome de Down. Essa experiência, que lhe rendeu o título de "voluntário do ano", foi o primeiro contato com a sensação de que "olhar para o outro" fazia sentido. Mais tarde, ao acompanhar sua mãe em consultas médicas para tratar um problema no joelho, Giba percebeu o tratamento ríspido e julgador que muitos profissionais dispensavam a ela. Essas vivências plantaram a semente de uma futura transformação.
A Virada de Chave: Do Estresse ao Autoconhecimento
Aos 23 ou 24 anos, Giba vivia uma crise. Após sete anos sem férias, trabalhando até 17 horas por dia no mercado financeiro, ele sofreu um forte estresse. O estopim foi uma visita à sogra no hospital. Ao chegar, teve um princípio de ataque cardíaco, desmaiou e, ao acordar, ouviu uma enfermeira dizer: "Isso é frescura, manda embora porque a gente tem coisa para fazer".
O Encontro com o Anjo da Guarda
Um médico que passava pelo local entrou no ambulatório, interviu e acolheu Giba, dizendo que ele não tinha nada grave, mas que precisava procurar ajuda psicológica. Esse gesto de empatia e cuidado o marcou profundamente. Giba recebeu 15 dias de atestado e, ao retornar ao trabalho, foi demitido pelo diretor, que disse: "Hoje você não serve mais, você está podre".
O Nascimento do Palhaço Osório: Uma Nova Linguagem
Em meio à crise, uma cunhada o incentivou a fazer um curso de palhaço na Vila Madalena. Giba relutou, alegando não ter graça, mas aceitou a ajuda financeira para custear metade do curso. Ao sair da primeira aula, olhou para o céu estrelado e teve uma epifania: "É isso que eu quero pro resto da minha vida". Nasceu ali o Palhaço Osório, sua persona artística.
A Preparação e a Pesquisa no Hospital das Clínicas
Giba estudou intensamente: fez cursos no Brasil e no exterior (Argentina, Paraguai), formou-se ator, estudou filosofia por conta própria e tornou-se fundador da Associação Amigos do Nariz Vermelho. Para entender a rotina hospitalar, ele passou quatro meses andando pelo complexo do Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo como palhaço, sentando no pronto-socorro e anotando comportamentos – desde a forma como médicos chamavam os pacientes até o atendimento na recepção.
Essa imersão resultou na criação do projeto "Sorriso Enquanto Espera", que completou 21 anos. O foco inicial era idosos e colaboradores, não apenas crianças. Giba negociou um contrato de três meses (recusando os seis meses oferecidos) e, em menos de 45 dias, a diretoria do HC o chamou de volta, surpresa com a aceitação positiva dos médicos, que passaram a receber os pacientes mais leves e até rindo.
A Percepção do Palhaço: O que Falta na Relação Humana?
Com sua vivência, Giba observa que, embora as relações tenham melhorado, ainda falta empatia genuína – uma empatia que ele chama de saudável, que não significa viver a dor do outro, mas sim entender sua história.
Exemplo de Falta de Conexão
Giba citou o caso de uma parente obesa que procurou um médico. A resposta foi seca: "Vai emagrecer que eu opero. Se não emagrecer, vai continuar com essa dor". Ela emagreceu, operou o joelho, mas voltou a engordar. Giba questiona: por que ela engordou? Qual a razão? Que tipo de trabalho ela tem? Ele sugere que, em vez de perguntas automáticas ("de 0 a 10, qual a dor?"), o médico deveria investigar o contexto de vida do paciente.
O Olhar do Palhaço Osório vs. Giba
Giba explica que, como Osório, ele consegue enxergar além. O palhaço não nega a doença, mas oferece uma possibilidade de respirar outro ar. Em uma cena emocionante, Giba encontrou uma senhora que ria de longe enquanto ele fazia mágica; ela havia acabado de perder o marido. Ele não tentou explicar, apenas disse: "Não tem explicação, tem coisa que é pra gente sentir só". O palhaço permite o paradoxo: rir e chorar no mesmo instante.
A Terapia do Riso: Presença que Transforma
Giba acredita que a presença do palhaço por si só é transformadora, mesmo sem verbalizar nada. Ele narrou uma história impactante: no pronto-socorro, desceu a escadaria e viu um rapaz de 25 anos, forte, tatuado, coberto de sangue, xingando a mãe. Ao ouvir a palavra "palhaçada", Giba se apresentou. O rapaz, desafiador, tirou o lençol mostrando a perna aberta e disse: "Costura aí". Giba respondeu com humor: "Claro, só um momento. Se eu desmaiar, você me ajuda". Abriu a mala, mostrou agulhas de tricô e fez o rapaz rir. O paciente se acalmou, ofereceu uma banana a Giba, que a partiu ao meio e brindou: "Brinde à vida". O rapaz se emocionou. Em segundos, a conexão humana foi restaurada.
O Equilíbrio Emocional do Profissional de Saúde
Um dos pontos mais delicados abordados foi como o médico lida com suas próprias emoções – a cobrança por estar sempre disponível, sempre bem, sempre produtivo. Giba, que já viveu a síndrome do pânico, compartilhou ferramentas práticas para evitar o burnout.
A Variação de 1%
Após a perda de um paciente, Giba sugere perguntar: "O que eu poderia fazer 1% melhor naquela situação específica?" Isso alivia a pressão de ter que resolver tudo perfeitamente e foca no que estava sob controle.
Desligamento Saudável
Giba enfatiza a importância de se desconectar após o trabalho: conversar com alguém, praticar exercícios, comer uma coxinha, tomar uma tubaína. Ele não vive a dor do outro, mas a compartilha momentaneamente. Se está gripado, não vai ao hospital – não acha justo consigo mesmo. Sua filosofia é: o primeiro que fala é o primeiro que escuta. Portanto, é preciso se cuidar para cuidar do outro.
A Fragilidade como Força
Giba emocionou-se ao lembrar do médico que cuidou de seu pai no leito de morte. O profissional disse: "Não consigo assinar o óbito, ele era muito meu amigo", e saiu com os olhos cheios de lágrimas. Para Giba, esse é um exemplo mágico de que mostrar fragilidade está tudo bem. Não sentir não é o problema; o problema é o que se faz com o que se sente.
Transformando Limões em Limonada: Conselhos Práticos
Giba aconselha os profissionais e estudantes de medicina a, antes de tudo, parar e respirar. Em seus workshops, as pessoas esquecem como é respirar de verdade. Ele sugere:
- Reconectar-se ao propósito: Verifique se a medicina ainda desperta a "borboletinha na barriga". Se não, faça uma reflexão sem punição ou autoflagelo.
- Olhe para a criança que você foi: Pergunte a ela se o adulto que você se tornou a deixaria orgulhosa.
- Cuide de si mesmo com o mesmo carinho que dedica aos pacientes: Respeite seus limites, emocione-se quando necessário, mas busque equilíbrio.
Giba conclui: "Somente aquele que diz que está pronto, infelizmente vai ter que recomeçar". Estamos sempre em eterna construção.
Conclusão: A Medicina como Encontro de Almas
A trajetória de Giba Rizo – do voluntariado aos 14 anos, passando pelo mercado financeiro, a síndrome do pânico, a demissão e o curso de palhaço – ilustra que a humanização na saúde não é um conceito abstrato, mas uma prática diária de escuta, presença e respeito à história do outro. O Palhaço Osório, com seu nariz vermelho, ensina que é possível sim ser feliz no trabalho e que a alegria não anula a dor – convive com ela. Para os médicos e futuros médicos, a mensagem final é clara: curem além da técnica, permitam-se ser humanos, e lembrem-se de que, antes de tocar uma alma, é preciso estar em contato com a própria.
Giba deixa seus contatos (Instagram @gibarrisoooficial, Facebook e LinkedIn Giba Rizo) para palestras e treinamentos, sempre com o objetivo de trazer reflexões para uma vida mais leve e feliz.