O ViMocast apresentou um episódio memorável com o Dr. Samir Salman, médico e idealizador do Hospital Premier, uma das instituições pioneiras e mais respeitadas em cuidados paliativos no Brasil. Com uma narrativa carregada de humanidade e coerência ética, Samir compartilhou os bastidores de uma trajetória que transformou a gestão hospitalar em um ato de amor e resistência.
Conduzido por Ron Benny e Suelen, o podcast explorou desde a decepção inicial de Samir com a medicina tecnicista até a criação de um ecossistema de cuidado que se tornou referência nacional e internacional.
A Reconciliação com a Medicina: Do Tecido ao Cuidado
Samir Salman relatou que, logo após se formar em 1989, entrou em uma profunda depressão ao se deparar com a desigualdade social e a desumanização no atendimento público. Esse choque o afastou da prática médica por anos, levando-o ao setor empresarial. No entanto, o "chamado" do cuidado retornou em 2001, culminando na fundação do Hospital Premier em 2004.
O divisor de águas foi uma palestra do Prof. Marco Túlio de Assis Figueiredo, que o apresentou aos conceitos de cuidados paliativos. A partir dali, Samir uniu forças com referências como Dra. Maria Goretti Maciel para criar um hospital que não fosse um "depósito de pessoas", mas uma casa de acolhimento multidimensional.
A Gestão Humanizada: "O Protagonista é o Paciente"
Como gestor, Samir Salman desafiou a lógica do gerencialismo excessivo. Para ele, uma instituição de saúde só é legítima se cuidar de todo o seu ecossistema — do médico à auxiliar de limpeza.
- Medicina Artesanal: Ele defende o atendimento longitudinal e personalizado, onde o médico tem tempo para o "olho no olho" e para desobedecer métricas de produtividade que ignoram o sofrimento humano.
- Transparência e Ética: Samir ressaltou a importância de indicadores públicos (como taxas de infecção) e criticou a voracidade pelo lucro na saúde suplementar, afirmando que o serviço deve ser viável e sustentável, mas nunca focado apenas no acúmulo financeiro.
- Cultura Institucional: No Premier, todos os funcionários eram treinados em cuidados paliativos, e atividades como biografia de pacientes e rodas de filosofia faziam parte do cotidiano, integrando a equipe em torno de um propósito comum.
A Epopeia da Pandemia: 105 Dias de Confinamento
Um dos relatos mais emocionantes do episódio foi sobre a pandemia de COVID-19. Ao ver o risco de abandono dos pacientes e de contágio das famílias dos colaboradores, Samir tomou uma decisão drástica: fechou o hospital e convidou a equipe a morar na instituição de forma voluntária. Quase 100 profissionais, incluindo o próprio Samir, ficaram confinados por 105 dias.
Nesse período, as barreiras hierárquicas foram derrubadas: médicos e diretores ajudavam na higienização dos quartos e no serviço de café. "Fizemos isso por fé, não por cálculo financeiro", afirmou Samir, destacando que essa atitude salvou vidas e fortaleceu os laços humanos de forma definitiva.
Legado e Parcerias Internacionais: Instituto Premier e Kelka
Com o amadurecimento do modelo, nasceu o Instituto Premier, que se tornou satélite do programa Kelka (Quality of End-of-Life Care for All), desenvolvido pelo St. Christopher's Hospice de Londres. A parceria visa levar o treinamento de alta qualidade para o setor público brasileiro, capacitando facilitadores em todo o país para refletirem sobre a morte e a assistência digna.
Samir também organiza o Encontro Brasileiro de Serviços de Cuidados Paliativos, que busca dar visibilidade e prestígio aos profissionais que atuam na ponta, muitas vezes invisibilizados pelas grandes gestões.
Lição de Vida: Cuidar como se fosse sua própria mãe
Samir compartilhou a experiência pessoal de cuidar de sua mãe em seu próprio hospital. Ele ouviu dela uma frase que norteia sua prática: "Vocês vão me matar quantas vezes para eu morrer?". Esse questionamento visceral reforçou sua luta contra a obstinação terapêutica e a importância de respeitar o processo natural da finitude.
Sua mensagem final para quem deseja empreender na área de saúde é clara: não venha pelo lucro pelo lucro. "Trate a pessoa como você trataria seu pai ou sua mãe. Se o ato de cuidado não for incondicional, é melhor não fazer cuidados paliativos."
Conheça o trabalho do Instituto Premier: Acesse o site oficial para informações sobre cursos, parcerias e os próximos encontros de serviços de cuidados paliativos.