O Futuro dos Cuidados Paliativos no Brasil e no Mundo: Uma Conversa com Douglas Crispim
O ViMocast apresentou um episódio de peso com o Dr. Douglas Crispim, médico geriatra e paliativista que se tornou uma das vozes mais influentes na implementação de redes de cuidado no Brasil e no exterior. Com passagens pela presidência da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) e atualmente ocupando uma cadeira no conselho diretor da Worldwide Hospice Palliative Care Alliance (WHPCA), Crispim compartilhou sua visão estratégica sobre a "ciência da implementação" e o futuro da especialidade.
Conduzido por Ron Benny e Suelen, o podcast explorou a trajetória pessoal de Douglas, os bastidores da criação do grupo Asas Health e do IBCS (Instituto Brasileiro de Comunicação em Saúde), e as perspectivas globais discutidas em fóruns da Organização Mundial da Saúde (OMS).
A Trajetória: Da Distanásia à Ciência da Implementação
Mineiro de origem simples, Douglas Crispim iniciou sua carreira médica em ambientes de alta criticidade, como UTIs e pronto-socorros, onde confessou ter praticado o que hoje reconhece como distanásia. O ponto de virada ocorreu durante sua residência de geriatria, ao perceber que tratamentos invasivos nem sempre resultavam em qualidade de vida para pacientes crônicos.
Uma experiência de estágio em Portugal revelou a ele o poder de um sistema de cuidado em rede, onde o prontuário acompanhava o paciente entre o hospital, o ambulatório e o domicílio. Ao retornar ao Brasil e notar a falta de acesso estruturado aos cuidados paliativos, Douglas decidiu que seu propósito seria criar modelos sustentáveis de atendimento que fossem além do "papel e da certificação".
Asas Health e IBCS: Inovação e Comunicação
Com uma década de existência, o grupo Asas Health já implementou 16 projetos de cuidados paliativos em diversas regiões do Brasil, muitos deles na saúde suplementar. Douglas enfatizou que a implementação é uma ciência dolorosa que exige adaptação cultural: "Não adianta chegar com um modelo pronto; é preciso respeitar se o atendimento é em Salvador ou no interior do Rio Grande do Sul".
Paralelamente, a insatisfação com a comunicação ineficaz nos hospitais — que ele define não como falta de protocolos, mas como falta de treinamento prático — o levou a fundar o IBCS. O programa CDS (Comunicação de Notícias Difíceis) foca no treinamento de habilidades interpessoais, utilizando simulações e roleplay para humanizar o contato entre profissionais, pacientes e familiares.
O Brasil no Palco Mundial (OMS e WHPCA)
Douglas Crispim é o primeiro brasileiro a integrar a diretoria da WHPCA, o parceiro oficial da OMS para cuidados paliativos. Ele relatou sua experiência recente em reuniões executivas na Suíça e destacou que o Brasil tem muito a ensinar ao mundo, especialmente sobre a integração de cuidados em sistemas públicos de saúde como o SUS.
Entre as pautas globais que Douglas lidera, estão:
- Educação Multilíngue: Tornar o conhecimento em cuidados paliativos acessível em português, espanhol e francês, quebrando a barreira do inglês.
- Políticas Públicas: Otimismo com a recente Política Nacional de Cuidados Paliativos no Brasil, que promete diminuir a heterogeneidade do acesso no país.
- Publicação de Dados: O alerta de que o Brasil precisa publicar mais suas evidências científicas para que as inovações locais sirvam de modelo para a humanidade.
Paliativo de Verdade vs. "Paliativo de Gaveta"
O médico fez uma distinção crítica sobre o futuro da área. Para ele, os próximos anos serão marcados pela diferenciação entre o "paliativo de verdade" (estruturado, com indicadores e taxa de penetração real) e o "paliativo de gaveta" (serviços contratados apenas para obter selos de acreditação, mas que atendem poucos pacientes e não participam das decisões terapêuticas centrais).
Lições de Vida e Autocuidado
Ao ser questionado sobre como lida com a carga de trabalho e o sofrimento, Douglas foi honesto ao admitir que já sacrificou muito tempo pessoal e chegou a adoecer. Hoje, ele defende que o autocuidado deve ser uma disciplina na agenda, envolvendo sono, dieta e momentos de lazer com a família. "Quem trata mal o colega hierarquicamente abaixo, possivelmente está fingindo empatia com o paciente", provocou, reforçando que a ética do cuidado começa nas relações interpessoais da própria equipe.
Recomendações e Onde Encontrá-lo
Para quem busca propósito e ferramentas de gestão, Douglas recomendou as seguintes leituras:
- "Descubra o seu Porquê", de Simon Sinek (para alinhar a prática ao propósito).
- "Agilidade Emocional", de Susan David (fundamental para lidar com conflitos e emoções no ambiente de trabalho).
Douglas Crispim atende e compartilha conhecimento através do LinkedIn e do Instagram @crispin_cp, além de liderar as frentes do IBCS e Asas Health.
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