O ViMocast teve a honra de receber a Prof. Dra. Maria Helena Franco, uma das maiores referências mundiais no estudo do luto e dos cuidados paliativos. Psicóloga com pós-doutorado pela Universidade de Londres e fundadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto (LELU) da PUC-SP, a professora compartilhou insights valiosos sobre a sistematização do cuidado emocional e a importância do rigor técnico para lidar com perdas.
Conduzido por Ron Benny e Suelen, o episódio explorou a biografia da professora, os desafios éticos da profissão e a necessidade urgente de combater a "banalização" do luto na sociedade contemporânea.
A Trajetória: 50 Anos de Inquietação e Ciência
Maria Helena celebrou recentemente 50 anos como docente na PUC-SP. Sua jornada começou na década de 90, quando a literatura sobre luto no Brasil era escassa. Motivada pela Teoria do Apego de John Bowlby, ela buscou em Londres o embasamento para seu doutorado e pós-doutorado, onde trabalhou com pioneiros como Irene Higginson no Cicely Saunders International.
Ao retornar, fundou o LELU para transformar o conhecimento acadêmico em ação social. Para ela, o estudo do luto nunca foi sobre "ser boazinha", mas sobre entender o processo psicológico de perda em seu contexto total, unindo ciência e humanidade.
O Risco da Banalização e o Fenômeno do "Pali-fofo"
Um dos pontos mais críticos da conversa foi a preocupação da professora com a superficialidade no tratamento do luto, intensificada após a pandemia de COVID-19. Maria Helena alertou para o risco de transformar um processo complexo em algo banal.
- A "Dica" vs. O Atendimento: A professora foi enfática: "Não me peça dicas". Para ela, trabalhar com luto exige sentar-se à frente de alguém com técnica e ética, não com conselhos genéricos que se daria em um café.
- O Cuidado "Pali-fofo": Ela critica a postura de profissionais que tentam suavizar a terminalidade com palavras doces e falta de clareza. O cuidado paliativo real exige "ralar muito", estudar e ter coragem para enfrentar a hostilidade e a dor sem mentiras reconfortantes como "vai ficar tudo bem".
A Psicologia na Diretoria Científica da ANCP
Maria Helena foi a primeira psicóloga a ocupar uma diretoria científica na Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP). Esse marco pioneiro simboliza a conquista de espaço da psicologia em decisões antes restritas à medicina. Ela ressaltou que a atuação do psicólogo deve ser baseada em competências claras e consensos internacionais, como os estabelecidos para a América Latina, fugindo do mero "bom senso" individual.
O Luto ao Longo da Doença: O Caso do Caseiro
Para ilustrar a profundidade de seu trabalho, a professora compartilhou o caso de um caseiro de sítio com câncer de pulmão. O sofrimento dele não era apenas a morte iminente, mas a perda da identidade profissional e o medo de que sua família perdesse a moradia e o emprego após sua partida.
A intervenção de Maria Helena focou na "sociedade" entre o paciente (que tinha a experiência técnica) e sua esposa (que tinha o fôlego e as pernas para andar pelo sítio). Ao incentivá-lo a ensinar a esposa e a vender pequenas peças de artesanato feitas com pregadores de roupa, a professora ajudou o casal a construir um "depois" possível. Esse "luto em vida" exemplifica como os cuidados paliativos devem atuar desde o diagnóstico, ressignificando as perdas funcionais e sociais.
Autocuidado: A Obrigação Ética do "Não"
Com a maturidade de quem já enfrentou o burnout e a sobrecarga, a professora defende que o autocuidado é uma obrigação ética. Ela ressaltou a importância de saber dizer "não" a convites, mesmo os interessantes, para preservar a qualidade de sua entrega e sua vida pessoal. "O seu tempo deve ser definido por você; se sábado é o dia da sua avó, o 'não' para qualquer outro convite torna-se fácil e seguro", ensinou.
Dica de Cinema e Inspiração
Como referência cultural, Maria Helena citou o filme "Cinema Paradiso", que retrata a relação mestre-aprendiz e a volta às raízes diante da morte, mostrando como as memórias e os ensinamentos permanecem vivos após o luto.
A mensagem final da professora para os novos profissionais é direta: Estude com critério. Escolha instituições com histórico sólido, participe de grupos éticos e não se contente com a superficialidade. "Deixe sua marca no mundo, mas faça isso com o sobrenome da especialização e do estudo sério."
Para acompanhar a Prof. Dra. Maria Helena Franco: Siga @mhelenapfranco no Instagram para informações sobre novos cursos e reflexões sobre psicologia do luto.