Um Café Pela Ordem | com Dra. Priscila Modesto

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Introdução e a Essência das Prerrogativas na Advocacia Criminal

Neste episódio do podcast "Um Café Pela Ordem", o apresentador e advogado Alexandre De Sá Domingues recebe a Dra. Priscila Modesto, uma advogada criminalista apaixonada e com forte atuação no Tribunal do Júri, especialmente no interior do estado de São Paulo. Além de sua vasta experiência prática, Priscila possui pós-graduação em Direito Penal, Processo Penal e Perícia Criminal, e atua como conselheira seccional da OAB São Paulo. O programa inicia explorando a origem do nome do podcast, "Pela Ordem", que é uma alusão direta a uma das mais importantes prerrogativas da advocacia. Priscila enfatiza que as prerrogativas já "nascem" com o advogado. Para atuar de forma justa e contundente em plenários e audiências, o profissional não deve apenas conhecer os direitos de seus clientes, mas dominar profundamente os seus próprios direitos e garantias profissionais para assegurar o respeito à ampla defesa e ao devido processo legal.

Um Café com História: Casos que Marcam uma Carreira

No quadro "Um Café com História", o apresentador pede que a convidada compartilhe momentos marcantes que consolidaram a sua vocação. Priscila relata duas experiências de extrema complexidade. A primeira ocorreu no Tribunal do Júri de uma cidade pequena no interior, onde o seu cliente já estava preso provisoriamente há três anos sob forte condenação prévia da comunidade local. Trabalhando de forma aguerrida e extremamente técnica, e utilizando a sensibilidade necessária para conectar os fatos com a realidade dos jurados, ela conseguiu a absolvição do réu em um cenário de completa ausência de provas cabais. Ela ressalta que o jurado julga muito através do "sentir", e o advogado deve saber expor as teses de forma que ressoem com a vivência daquelas pessoas.

O segundo caso marcante foi uma revisão criminal. Uma mulher havia sido condenada à absurda pena de 106 anos de prisão por crimes sexuais e já estava encarcerada na penitenciária de Tremembé há seis anos. Contrariando o senso comum de que a revisão criminal é um instrumento ineficaz, Priscila debruçou-se sobre a integralidade do processo e demonstrou que as provas não haviam sido devidamente examinadas. O resultado foi a absolvição completa da mulher após seis anos de um erro judiciário brutal. Alexandre complementa pontuando que o papel do advogado criminalista é justamente contestar a narrativa da denúncia, pois "o papel aceita tudo", e cabe à defesa exigir o lastro probatório mínimo para qualquer acusação.

A Importância da Preparação Multidisciplinar e a Superação da Timidez

Um diferencial na trajetória da Dra. Priscila é a sua busca incessante por conhecimentos fora da curva tradicional do Direito. Ela estudou perícia criminal e análise comportamental humana. Segundo ela, no Tribunal do Júri, a prova técnica pura e simples não ganha o caso se não for bem traduzida. Os jurados não possuem formação jurídica ou médica; portanto, não adianta ler um laudo complexo sobre balística ou arranhaduras de projéteis. O advogado precisa utilizar o seu conhecimento de perícia aliado à oratória para transformar informações densas em narrativas compreensíveis, respondendo à pergunta central que o jurado quer saber: atirou ou não atirou?

Curiosamente, Priscila revela que sua escolha pela área criminal e pela oratória nasceu da necessidade de superar uma timidez extrema. No início de sua vida profissional, ela trabalhou no Departamento de Estradas de Rodagem (DER), lidando com imissões na posse. Ela era obrigada a conduzir reuniões tensas com dezenas de homens que frequentemente gritavam. Para conseguir se impor, ela buscou cursos de oratória, acabou se apaixonando pela comunicação e decidiu aplicar essa habilidade no Direito Criminal, ambiente que a atraía profundamente. Desde que pisou em um plenário do júri pela primeira vez, nunca mais o abandonou.

Lidando com a Pressão do Tribunal do Júri

O Tribunal do Júri é descrito pela convidada como um ambiente invariavelmente hostil, pois trata de crimes contra a vida e julga as mazelas humanas. Como lidar com essa pressão gigantesca? Priscila tem como lema a premissa de que "no Tribunal do Júri não há vencedores". A sua forma de suportar o peso da profissão é através do exercício profundo da empatia pelo ser humano sentado no banco dos réus. A sociedade tende a rotular o acusado rapidamente como um sociopata ou psicopata, ignorando as camadas de sua história de vida e as circunstâncias que o levaram até ali. Ela enxerga aquele indivíduo como alguém que "ontem estava pagando uma conta na lotérica" e que teve a vida atravessada por uma tragédia. Além disso, ela defende a comunicação cordial e respeitosa com o juiz e com o promotor, lembrando que não são inimigos, mas atores de um mesmo sistema de justiça.

Mitos e Verdades da Advocacia Criminal

No tradicional quadro "Mitos ou Verdades", Priscila Modesto trouxe visões muito diretas e transparentes sobre dogmas da profissão:

  • Emoção versus Técnica no Júri: É uma "verdade mística". A emoção e a técnica precisam andar juntas. Declamar poesia sem base técnica é inútil, mas ter a técnica sem conseguir emocionar e conectar-se ao jurado também leva ao fracasso.
  • O advogado contribui para a impunidade: Mito absoluto. O advogado criminalista é indispensável à administração da justiça, defendendo os direitos e garantias do cidadão, e não o crime que lhe é imputado.
  • O criminalista sofre preconceito: Verdade. A população e até mesmo colegas de outras áreas muitas vezes confundem o advogado com o cliente, associando a figura do defensor ao crime organizado. Contudo, assim como um médico, o advogado criminalista não escolhe quem deve receber a sua assistência técnica.
  • É preciso muito preparo psicológico: Verdade incontestável. Sem inteligência emocional, é impossível sobreviver na área. É um ambiente que exige franqueza com o cliente, não permitindo a "venda de ilusões" ou promessas irreais de soltura.
  • Beleza física influencia os jurados: Mito. Segundo Priscila, um rosto bonito não substitui o conteúdo e a preparação. O jurado quer respostas técnicas e consistentes, e o instrumento do advogado é o seu conhecimento profundo dos autos.
  • É impossível ter sucesso hoje sem redes sociais: Mito. Embora as redes sociais sejam ferramentas modernas importantes, o cliente que está preso não contrata advogados pelo Instagram. O reconhecimento real vem da excelência da atuação e dos resultados entregues nas trincheiras jurídicas.

Respostas Rápidas, Oratória Forense e Atuação Profissional

Durante o bloco de respostas rápidas, Priscila revela que o caso mais inesquecível de sua vida foi um homicídio onde o filho da acusada precisou viver por dois anos escondido em uma mala embaixo da cama. Ela aponta a Dra. Patrícia Vanzolini como a sua maior referência feminina na advocacia e sugere que todo tribuno precisa ter um bom livro de Medicina Legal na estante. Seu lema de vida é: "Não existe verdade absoluta". Uma postura firme de Priscila é a de que ela não recusa casos baseada na natureza do crime (como crimes sexuais); ela se define como advogada das "mazelas e do sangue", defendendo os direitos dispostos no Código Penal independentemente de quem seja a pessoa. Sobre a dinâmica forense, ela afirma que é mais difícil atuar no interior do que na capital e gostaria de abolir imediatamente o layout das salas de audiência onde o Ministério Público senta-se ao lado do juiz, quebrando a paridade de armas. Por fim, entre técnica e improviso, ela escolhe a capacidade de improviso, pois a plenitude de defesa exige que o advogado se adapte a qualquer reviravolta no plenário.

Respondendo aos críticos que consideram a oratória uma forma de manipular os jurados, Priscila é enfática: persuasão não é sinônimo de engano. A oratória não serve para criar fraudes, mas sim para criar conexão humana e garantir que informações jurídicas e fáticas complexas cheguem com clareza aos jurados. Ela oferece dicas preciosas para quem deseja melhorar: grave a sua própria voz no WhatsApp e acostume-se com ela; faça vídeos para analisar a sua linguagem corporal e o uso das mãos; leia em voz alta três páginas de um livro todos os dias respeitando pontuações; e sempre mantenha contato visual, que é a janela da alma, sem constranger o ouvinte. Quanto ao tratamento no júri, embora a técnica de chamar o jurado pelo nome possa ser útil em contextos específicos para gerar empatia, ela prefere tratá-los de forma solene como "Excelências", reconhecendo-os como os verdadeiros juízes da causa.

A Liderança Institucional e a Dica de Ouro

A trajetória de Priscila na OAB começou de forma humilde nas comissões de base, integrando a comissão de Oratória Forense. Seu trabalho diligente a levou à vice-presidência da subseção de Diadema e, atualmente, ela compõe o Conselho Estadual da OAB-SP. Ela enxerga o trabalho institucional como um sacerdócio voluntário, cujo pilar é "dar de si antes de pensar em si", e encoraja todos os advogados a participarem das comissões da Ordem para sentirem o poder e a importância da integração classista.

Encerrando o programa, no "Momento de Ouro", a Dra. Priscila deixa uma recomendação cultural moderna: a minissérie da Netflix chamada "Adolescência". Ela sugere a obra não apenas pela temática de crimes contra a vida, mas principalmente por explorar de forma crua o impacto de uma acusação grave sobre a família do acusado — uma família muitas vezes estruturada e pacífica que, do dia para a noite, é arrastada para o centro de uma tragédia judicial. Com muita gratidão e reconhecimento mútuo, a entrevista se encerra provando que técnica jurídica, empatia e comunicação são os alicerces indestrutíveis da grande advocacia criminal.