#12 / Educação inclusiva - Onde a lógica e a empatia são complementares

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Em um episódio intenso do podcast “Entre uma coisa e outra”, Carolina Videira, mestre em neurociência e fundadora da Turma do Jiló, mergulha no tema da educação inclusiva, neurociência aplicada à sala de aula e formação de jovens voluntários. O cerne da conversa é a ideia de que a inclusão não é um benefício para alguns poucos, mas um direito estrutural para todos, que precisa ser construído com intencionalidade, base científica e muito olhar individualizado.

A jornada da neurociência para a educação inclusiva

Carolina apresenta sua trajetória como fisioterapeuta, mestre em neurociência comportamental e mãe de João, uma criança com múltiplas deficiências que a escola afirmava “não conseguiria aprender”. A partir dessa experiência, ela percebeu um choque profundo entre a visão institucional e o que a neurociência dizia: todos os cérebros são capazes de aprender, mas em ritmos e formas diferentes. Essa percepção a levou a deixar a carreira corporativa e fundar a Turma do Jiló, uma organização sem fins lucrativos que já impactou mais de cinco milhões de alunos, professores e famílias no Brasil.

A Turma do Jiló surge como uma ponte entre ciência e prática pedagógica, buscando desmistificar a inclusão e mostrar que não existem “alunos de inclusão”, mas sim uma escola que precisa ser inclusiva para todos. Ela defende que, em um mundo com quase 8 bilhões de pessoas, existem 8 bilhões de formas de aprender, e que a individualização da aprendizagem é a base para garantir que cada estudante permaneça no ambiente escolar, se desenvolva ao máximo de sua autonomia e esteja preparado para a vida adulta.

Individualização, não rotulagem

Um dos pontos centrais da conversa é o perigo dos rótulos: “aluno difícil”, “aluno tímido”, “aluno que não dá problema”. A anfitriã do podcast reforça que um olhar individualizado permite que a escola perceba mudanças sutis no comportamento, nas relações sociais ou no desempenho e, assim, acolha, oriente e acompanhe o estudante de forma mais humana. Sem esse olhar, a escola simplesmente trata a criança como um número e perde a oportunidade de exercer sua função mais importante: educar com sentido e pertencimento.

A adolescência e a juventude são destacadas como períodos sensíveis do desenvolvimento cerebral, que, segundo a ciência, se estendem até por volta dos 30 anos. A forma como a escola enxerga esse grupo – frequentemente rotulado como “rebeldes” ou “imaturas” – impacta diretamente a construção de cidadãos responsáveis, conscientes e inclusivos. A neurociência serve, então, como um guia para que educadores compreendam que o comportamento adolescente é uma consequência de um cérebro em construção, e não apenas má vontade ou falta de disciplina.

Neurociência na sala de aula: formação docente

Carolina critica a ideia de que basta conhecer metodologias ativas ou o desenho universal da aprendizagem para ser um professor inclusivo. A inclusão, na visão da Turma do Jiló, começa com um diagnóstico sobre o perfil dos professores, o contexto da escola e as necessidades reais da comunidade educacional. A partir daí, a formação combina o estudo de como o cérebro aprende com o autoconhecimento do professor: como suas emoções, seus preconceitos e sua própria forma de funcionar impactam o jeito de ensinar.

Segundo ela, a inclusão só é efetiva quando o professor se entende, administra melhor suas emoções e consegue transmitir o conhecimento sem julgar. A escola pode ser “inovadora” por dentro, mas, se não houver reflexão sobre o olhar do educador, continuará reproduzindo desigualdades e excluindo aqueles que não se encaixam no molde padrão. A intencionalidade aparece como um dos pilares: a escola precisa decidir, de forma clara e continuada, que quer ser inclusiva, e traduzir essa decisão em estratégias concretas de formação, gestão e cultura escolar.

Inclusão, diversidade e resultados reais

O programa traz uma visão estratégica: a diversidade não é apenas uma questão de bondade, mas de inteligência organizacional. Assim como empresas que valorizam equipes diversas registram mais inovação, criatividade e melhores resultados, escolas que abraçam a diversidade como potência conseguem reduzir a evasão, aumentar a retenção de alunos e melhorar indicadores como o NPS (índice de satisfação). A inclusão, portanto, é um investimento, não um gasto, e gera impacto tanto social quanto acadêmico.

A Turma do Jiló trabalha com escolas de diferentes perfis, mostrando que tanto uma escola tradicional quanto uma escola inovadora podem ser inclusivas. O que muda é a intencionalidade, as estratégias de formação e a capacidade de olhar para cada estudante como um indivíduo único. A convidada ressalta que não basta dizer “nossa escola já é inclusiva”; é preciso perguntar, de forma recorrente, o que está sendo feito para promover inclusão, diversidade e equidade, e como isso se traduz em práticas cotidianas.

Voluntariado jovem como formação humana

Outro eixo forte do episódio é o voluntariado jovem, projeto da Turma do Jiló que nasceu em 2018 e se tornou, em alguns lugares, parte do currículo escolar. A premissa é simples, mas profunda: a empatia não é um traço natural com que nascemos, e sim uma habilidade que precisa ser ensinada. A partir dos 10 ou 11 anos, quando muitos alunos estão no Fundamental II, o projeto leva temas socioambientais para dentro da escola, convidando os jovens a estudar, analisar criticamente e depois colocar em prática ações reais de impacto.

Os estudantes escolhem, por trimestre, um tema que querem aprofundar: pobreza, racismo, direitos animais, clima, moradia, educação financeira, entre outros. Eles recebem subsídios teóricos, debatem com especialistas e, em seguida, saem em campo para vivenciar essas realidades de forma prática, sempre com apoio de organizações da sociedade civil. A proposta é evitar o “turismo da pobreza”, o sensacionalismo ou o assistencialismo rapidão; o objetivo é ensinar o jovem a ajudar quem vive o problema a “pescar”, não apenas a receber um peixe.

Cases de impacto: da pobreza à economia circular

Um dos exemplos impressionantes citados é de um grupo de jovens que estudou pobreza em um complexo de favelas em São Paulo (referido como Complexo 9 de Julho). Ao visitar a comunidade, eles identificaram que muitas pessoas precisavam de educação financeira básica para sair da pobreza. Juntos com seus pais, os alunos desenvolveram um curso de educação financeira voltado para pessoas semianalfabetas e criaram um aplicativo para apoiar esse aprendizado. A vivência transformou a forma como os jovens enxergavam a pobreza, mostrando que o problema não é apenas material, mas também de oportunidade, informação e acesso.

Outro caso citado é de uma escola que realizava a campanha do agasalho de forma tradicional: alunos traziam casacos e eles eram simplesmente doados. A partir do voluntariado jovem, os estudantes entenderam que apenas doar não resolvia a raiz do problema. Passaram, então, a fazer uma curadoria dos itens recebidos, organizaram um brechó social e revenderam peças em bom estado. Com o dinheiro arrecadado, compraram agasalhos novos para quem realmente não tinha, além de encaminhar retalhos para organizações que trabalham com economia circular, ou seja, reutilizando materiais para criar novos produtos. Assim, o voluntariado deixou de ser apenas ajuda pontual e se tornou uma experiência de empreendedorismo social, pensamento crítico e responsabilidade ambiental.

Viagens de impacto e propósito educacional

O programa discute também o papel das viagens escolares. A convidada reflete sobre a diferença entre simplesmente turismo e viagens de impacto, que têm um propósito claro de aprendizado, envolvimento social e ambiental. Ela aponta que viagens de impacto muitas vezes custam mais, porque envolvem profissionais especializados, organizações da sociedade civil transparentes e logística mais complexa, mas esse “custo maior” é, na verdade, um investimento na formação cidadã do aluno.

As famílias, por sua vez, aparecem como aliadas importantes nesse processo. Carolina comenta que, em muitos casos, são os pais que começam a questionar a escola sobre o propósito das viagens, pedindo mais significado e menos “turismão”. A escola, então, pode responder com propostas que combinem lazer, estudo e experiência prática, permitindo que jovens vivenciem realidades diferentes de suas próprias bolhas, de forma segura e orientada. A imersão em outro contexto social, aliada à reflexão em sala de aula, fortalece a empatia e amplia a visão de mundo dos estudantes.

Empatia e neurociência: desmistificando neuromitos

Um ponto central para a convidada é desconstruir o mito de que “todos nascem empáticos”. A neurociência mostra que a empatia é uma habilidade que precisa ser desenvolvida ao longo da vida, com exemplos, práticas, feedback e oportunidades de se colocar no lugar do outro. A Turma do Jiló trabalha tanto a empatia cognitiva (entender o que o outro sente) quanto a empatia emocional, sempre destacando que não se trata de ter uma “receita de bolo” para resolver todos os problemas, mas de escutar, perceber e respeitar a experiência do outro sem julgamento.

Os projetos de voluntariado, a educação financeira, os estudos sobre racismo, pautas LGBT e mudanças climáticas servem como “laboratórios de empatia”. Em vez de moralizar ou polarizar, a proposta é que os jovens aprendam os temas de forma crítica, com base em dados, e que incorporem, aos poucos, uma postura mais reflexiva, mais humana e mais consciente. A empatia, assim, deixa de ser apenas uma qualidade subjetiva e passa a ser uma competência educacional, com resultados mensuráveis em termos de convivência, aprendizado e escolhas de vida.

Histórias pessoais que formam a Carola de hoje

No final da conversa, a anfitriã pede que Carolina converse com a própria versão jovem, aquela que entrou em fisioterapia, fez mestrado e começou a caminhada profissional. A mensagem que ela daria a si mesma é simples, mas poderosa: “Calma” e “Você não está sozinha”. A ansiedade e a pressa que marcaram boa parte da sua trajetória poderiam ter sido suavizadas com um pouco mais de paciência, apoio e confiança nas redes humanas. Segundo ela, muitas pessoas tentam fazer tudo sozinhas, sem se apoiar em grupos, e acabam pagando um preço alto em sofrimento e burnout.

Carolina também compartilha duas histórias marcantes da infância e da vida adulta que ajudaram a formar quem ela é hoje. A primeira é a lembrança de um pai justamente rígido, mas profundo: ao ter seu primeiro emprego, teve a mesada cortada, e o pai explicou que muitas pessoas sustentavam famílias inteiras com o mesmo valor que ela ganhava de salário. A segunda é de uma professora de MBA que, ao perceber sua dificuldade em lidar com matemática financeira, ofereceu, de forma espontânea, aulas de apoio antes do início da aula principal. Ambas as histórias mostram o impacto de figuras que ensinam trabalho, respeito, perseverança e, principalmente, a possibilidade de ser inclusivo mesmo quando alguém se sente excluído.

Considerações finais: olhar para o presente com intencionalidade

O episódio termina com um convite para que escolas, famílias e professores olhem com mais intencionalidade para o que estão construindo. A educação inclusiva, na visão trazida pela convidada, é um processo contínuo, que exige humildade, estudo e prontidão para mudar. A neurociência não é um “milagre tecnológico”, mas uma lente que ajuda a entender o que acontece no cérebro de alunos e professores, permitindo que a escola crie um ambiente mais saudável, mais justo e mais humano.

Em síntese, a educação inclusiva é tanto um exercício de lógica (como organizar o ensino, a formação, as avaliações) quanto um exercício de empatia (como enxergar o outro, escutar suas dores, respeitar suas diferenças). Quando esses dois lados se conectam, a escola se torna um espaço em que todos têm real chances de aprender, crescer e se transformar – e não apenas aqueles que se encaixam no padrão. Ao final da conversa, fica claro que a inclusão não é um tema opcional, fruto de boa vontade passageira, mas uma escolha consciente, científica e moral, que precisa estar no centro da prática educacional de qualquer país que queira formar cidadãos mais capacitados e mais humanos.