Introdução: Um Bate-Papo com Duas Lendas dos Podcasts Literários
No mais recente episódio do podcast do Página 31, a apresentadora Júlia Calixto recebeu dois convidados muito especiais no estúdio Yorcast, na Avenida Paulista: os autores AJ Oliveira e Thiago Lee. Júlia expressou sua felicidade em conversar com duas figuras que ela considera 'lendas dos podcasts' no meio literário. Thiago Lee foi o primeiro autor que ela entrevistou em seu projeto 'Página 31: Entrevistas com Autores que Já Li', quando ela tinha apenas 12 anos. Ele é autor de 'O Mistério do Carneiro de Ouro', 'Homem Vazio', 'Heck para Liberdade' e vários contos, além de ser um dos fundadores do podcast Curta Ficção, que já ultrapassou 200.000 downloads. AJ Oliveira também escreveu vários contos, é editor, participa de antologias e podcasts, e é fundador do podcast 12 Trabalhos do Escritor. Juntos, os dois escreveram o livro 'Fiado Só no Inferno', foco central da conversa.
O Pós-Bienal: Cansaço, Gripe e a Logística do Autor Independente
A conversa começou com os convidados compartilhando suas experiências pós-Bienal do Livro. Ambos relataram estar doentes, com AJ Oliveira mencionando dor nas costas e o desafio logístico de ser autor independente, que envolve ter 'meia tonelada de livro' em casa. Thiago Lee, que mora em um apartamento pequeno na ponta de São Paulo, também enfrenta esse problema. AJ Oliveira foi à Bienal por seis dias, enquanto Thiago foi três, e ambos conciliavam o evento com trabalhos como CLT e cursos. Eles descreveram a rotina exaustiva como um 'Dia da Marmota', acordando de madrugada para pegar ônibus lotado e ir para a Bienal. Eles também mencionaram o fenômeno da 'gripe da Bienal', causada pelo contato com muita gente e pela alimentação precária no evento.
O lançamento do livro 'Fiado Só no Inferno', realizado em um bar no Bixiga, foi um sucesso. O local lotou, precisaram buscar cadeiras extras, e a fila de autógrafos foi a mais longa que Thiago já autografou. AJ Oliveira chegou em casa às 6 da manhã do dia seguinte, após o lançamento, e ainda foi para a Bienal no mesmo dia.
Sinopse de 'Fiado Só no Inferno': Uma Troca de Lugares e Magias
O livro conta a história de dois protagonistas, cada um escrito por um dos autores. Luizinho (escrito por Thiago Lee) é um sanfoneiro que mora em um povoado no sertão nordestino, em uma encruzilhada entre estados. Sua família é dona de um bar chamado 'Seis Marias', um refúgio para criaturas sobrenaturais terem seus encontros e diversão sem que coisas ruins aconteçam. Luizinho é essencial para o bar, pois sua música é necessária para manter a harmonia, e ele é o caçula de sete irmãos, tendo seis irmãs mais velhas, todas chamadas Maria. A família o mantém preso, pois sem ele tudo desanda. Rian (escrito por AJ Oliveira) tem um bar com sua mãe, Jô, e é descrito como uma espécie de detetive sobrenatural da quebrada, um 'Constantine misturado com MacGyver' ou um 'supernatural de baixa renda'. Ele resolve problemas de um casal de namorados através de 'gambiarras mágicas'. Uma ameaça do passado, um demônio, retorna, e Rian promete protegê-los. A trama central começa quando os dois personagens trocam de lugar, como no filme 'Se Eu Fosse Você'. A graça está em misturar esses dois personagens de regiões diferentes para que eles descubram que têm mais semelhanças do que divergências, e que precisam da experiência de estar fora de seu ambiente para resolver seus arcos pessoais.
A Magia da História: Música e Gambiarra
Cada personagem possui um tipo de magia distinta, o que é um ponto crucial da trama. A magia de Luizinho é baseada na música. Cada música que ele toca tem um efeito sinestésico, traduzindo o significado da canção para uma ação mágica concreta. Eles planejam até lançar uma playlist no Spotify com as músicas do livro. Já a magia de Rian é a gambiarra. Ele transforma ditos populares e sincretismos em magia material. Por exemplo, para fazer uma poção da morte, ele não compra ingredientes caros, mas bate manga com leite na frente de uma idosa, pois o efeito mágico folclórico daquilo cria a poção. Se ele faz uma runa numa vassoura e a coloca atrás da porta, ninguém o visita, nem testemunhas de Jeová. Os autores explicam que projetaram as magias para serem propositalmente diferentes e incompatíveis, criando uma armadilha de roteiro: Luizinho não pode resolver os problemas de Rian com música, e Rian não pode resolver os problemas de Luizinho com gambiarra.
A Relação Entre a Magia e os Ambientes
Os autores explicam que a forma como cada núcleo lida com a magia reflete seus ambientes. Em São Paulo, a metrópole, a abordagem é expulsar o que é diferente e ameaçador. Já em Cruzeiro das Almas, o povoado do sertão, a abordagem é acolher o sobrenatural. O bar 'Seis Marias' é um refúgio para criaturas folclóricas. Portanto, quando Luizinho vai para a cidade grande e precisa resolver um problema com um demônio que está matando pessoas, a abordagem de 'acolher' não funciona. Da mesma forma, quando Rian vai para o sertão e tenta fazer um banimento para expulsar uma criatura, isso não resolve nada e ainda afasta a clientela. A questão central é como eles vão resolver os problemas um do outro sem ter as ferramentas necessárias para isso.
Como os Autores se Conheceram: Pós-Eventos e Comunidade
AJ Oliveira e Thiago Lee se conheceram através do meio literário, inicialmente por seus podcasts (Curta Ficção e 12 Trabalhos do Escritor). Eles já se conheciam 'sem se conhecer' pelas redes sociais e por uma amiga em comum, a Jana. O primeiro encontro pessoal foi em um evento, possivelmente a Bienal de 2016, e a amizade se consolidou nos pós-eventos literários. Eles formaram uma comunidade de 'pós-evento', onde as pessoas iam para lançamentos e depois se reuniam em bares para continuar a conversa. AJ Oliveira acredita que essa vibe de amizade e de 'gente fazendo merda depois de encher o caneco' está refletida no livro, que tem partes que parecem uma 'fofoca' contada em um bar.
A Gênese do Livro: Discussões sobre Representatividade e Escrita
A ideia de escrever o livro juntos surgiu por volta de 2020, durante a pandemia, em meio a discussões no Twitter sobre apropriação cultural e own voices (escrever sobre suas próprias experiências). Havia um debate sobre quem poderia escrever sobre o quê e sobre quais regiões. Eles decidiram, como resposta, escrever um livro em que um autor do Sudeste escreveria sobre o Nordeste, e um autor nordestino escreveria sobre a periferia de São Paulo. Eles reconhecem que o Twitter, com sua lógica algorítmica, trouxe o pior das pessoas, tornando as discussões agressivas e não produtivas. A resposta deles foi escrever com respeito e pesquisa, entendendo que o escritor é fruto do seu tempo e que não precisa se sentir superior ao ambiente que retrata.
Eles citam como exemplo Ferréz (com 'Capão Pecado') e Caco Barcellos (com 'Rota 66'), dois autores de classes sociais diferentes que escreveram sobre a periferia em um mesmo período. Ambos são obras incríveis porque nenhum dos autores se colocou como superior ao ambiente que abordavam. Eles também trouxeram pessoas dessas regiões para trabalhar no livro (leitura crítica, diagramação, capa), o que faz parte desse respeito.
O Projeto e o Edital PROAC
O livro 'Fiado Só no Inferno' foi um projeto contemplado no edital PROAC (Programa de Ação Cultural) do governo do estado de São Paulo, com apoio da Lei Aldir Blanc. Isso permitiu que eles investissem em um trabalho de alta qualidade, contratando profissionais como a ilustradora Joana Fraga (capa e ilustrações) e Miriam Leerner (diagramação e projeto gráfico). Eles conseguiram reunir um time de leitura crítica de vários estados (Pernambuco, Rio de Janeiro, Bahia), incluindo pessoas nordestinas e de periferias, para garantir que a obra fosse feita da melhor maneira possível. AJ Oliveira enfatiza que nenhum livro é feito sozinho e que é preciso ter respeito pelo objeto que se trabalha.
O Desafio de Escrever a Quatro Mãos
Júlia perguntou como é o processo de escrever um livro em duas pessoas. Thiago Lee descreveu como um desafio que exige coordenar as diferenças criativas. No entanto, a parte criativa foi 'até bem suave', com eles alinhando ideias e construindo a 'lore' organicamente, em um processo de 'ping-pong'. O mais complexo foi conciliar as questões da vida adulta e do capitalismo. Em um momento, um estava desempregado e o outro não, ou um estava de férias e o outro cheio de trabalho, o que afetava o tempo de escrita. O livro começou a ser escrito em 2020 e saiu em 2026, então eles tiveram que reescrever muitas coisas que já não refletiam o que pensavam 5 anos depois.
A concepção original do livro era lançar dois contos separados, um do Luizinho e um do Rian, para depois juntá-los em um livro. No entanto, com a aprovação no PROAC, eles tiveram que mudar completamente a estrutura, pois não teriam as 150 páginas de apresentação dos personagens que os contos forneceriam. Eles tiveram que aprender a apresentar e desenvolver ao mesmo tempo. Para dar certo, eles começaram a fazer reuniões semanais para garantir que o livro tivesse o efeito de 'um jogando a bola para o outro': em um capítulo, um levantava uma pergunta e jogava a bola para o outro responder e fazer uma nova pergunta, criando um diálogo constante entre os pontos de vista.
Os Desafios Pessoais e Profissionais
AJ Oliveira e Thiago Lee enfrentaram muitos desafios pessoais durante os 5 anos de escrita: pandemia, crises, demissões, um divórcio, términos de relacionamento, problemas de trabalho e família, e a perda de entes queridos. Eles comparam a situação a um 'adulto disfuncional' que desconta seus problemas no trabalho. Mas, ao trabalhar em duas pessoas, às vezes um quer descontar no trabalho, mas o outro não tem tempo ou está com a cabeça em outro lugar. A parte mais difícil foi lidar com as próprias frustrações sem culpabilizar o outro. Eles admitem que houve momentos de 'tapão na cara', mas que o alinhamento criativo foi praticamente zero de conflito, o que fez o projeto funcionar.
Os Personagens e a Vida Real: Um Espelho dos Autores
Júlia perguntou o quanto dos autores está nos personagens. Thiago Lee acredita que é impossível não colocar algo de si em todos os personagens que se cria. Ele aceita isso e procura dosar as coisas, sabendo que seus personagens sempre terão conflitos familiares, que fazem parte de seus próprios conflitos. Ele busca criar personagens que sejam reais e com os quais as pessoas possam se identificar. AJ Oliveira, por outro lado, tinha uma promessa pessoal de não ter um primeiro romance cujo protagonista se parecesse com ele, achando isso 'cringe'. Ele afirma que Rian não parece nada com ele. No entanto, ele criou a personagem Mazé, a matriarca do Seis Marias, como o 'ápice de sua rigidez cognitiva', e uma idosa com raiva que age como ele agiria em uma situação de 'female rage'. Ele acha interessante reler o livro e lembrar exatamente o momento em que escreveu cada trecho, em vez de sentir culpa por não escrever mais daquela forma.
O Crossover de Mitos e Lendas na Fantasia Urbana
Júlia observou que o livro mistura muitas lendas e mitos, e perguntou como foi fazer esse crossover. AJ Oliveira explica que, ao trabalhar com fantasia urbana, o crossover é com o mundo real. Ele buscou inspiração em características de São Paulo, como o 'velho do saco' e a lenda da seringa com doenças na poltrona do cinema, para criar um 'detetive espiritual da quebrada', inspirado no anime Yu Yu Hakusho. A ideia era trazer a estética da 'quebrada' de São Paulo para o gênero. Já Thiago Lee, que cresceu em Aracaju e visitava o interior de Sergipe, trouxe lendas como o Labisone (uma variação regional do lobisomem, com focinho de porco, que aparece para assustar quem sai à noite), a Pisadeira (que senta no peito de quem come muito antes de dormir) e o Fogo Corredor (fenômeno luminoso em mangues). Ele destaca a importância de não estereotipar as criaturas, trazendo suas variações regionais brasileiras.
Música, Bandas e a Cultura Pop no Livro
O livro faz várias referências à música e à cultura pop. AJ Oliveira revela que a ideia das 'necrorádios' e de bandas de forró formadas por vampiros (como a menção ao 'Conde da Mordidinha') surgiu de conversas sobre como bandas como Calcinha Preta e Barões da Pisadinha parecem ter integrantes que se vestem como vampiros. Ele também menciona uma piada recorrente sobre um famoso cantor que se apresenta no Natal da Rede Globo, que no livro é um vampiro. Thiago Lee acrescenta a ideia dos 'góticos nordestinos', que andam de preto no calor, e a inspiração no RPG Vampiro: A Máscara, com a campanha 'Aracaju by Night', que imaginava como vampiros sobreviveriam em uma cidade tropical.
Detalhes da Produção e Agradecimentos
Júlia elogiou a beleza do livro, destacando os 'Diários Mágicos' (ilustrações de página inteira), e perguntou sobre a produção. Os autores creditaram a ilustradora Joana Fraga (capa e ilustrações) e Miriam Leerner (diagramação e projeto gráfico). Eles autografaram a cópia de Júlia e agradeceram o convite. AJ Oliveira reforçou a importância do PROAC e da Lei Aldir Blanc para a realização do projeto, afirmando que o livro não teria sido o mesmo se tivesse sido feito por uma editora. Ele agradeceu ao estúdio York Stú e a todos os envolvidos. Thiago Lee agradeceu a oportunidade e passou suas redes sociais (@thiagoeulee). AJ Oliveira também passou suas redes (@ajota_oliveira) e site (tramposdoaj.com.br).
Recomendações de Livros dos Convidados
Para encerrar, Júlia pediu que cada convidado recomendasse um livro infanto-juvenil e um jovem adulto.
Thiago Lee recomendou:
- Infanto-juvenil: 'A Luneta Mágica', de Joaquim Manuel de Macedo. Um clássico da literatura brasileira que é, na verdade, uma fantasia urbana do século XIX. A história segue um homem comum que compra uma luneta mágica que o faz ouvir apenas a verdade das pessoas da alta sociedade carioca. Ele se cansa da verdade nua e crua e pede para virar a luneta ao contrário, passando a ouvir apenas mentiras, e percebe que isso também não é bom.
AJ Oliveira recomendou:
- Infanto-juvenil: 'Operação Prato', de Luana Cruz. Um livro com uma personagem sáfica no meio da Operação Prato, o primeiro caso de ufologia do Brasil, que ocorreu no Pará. Ele destaca a importância de autores da região Norte. Ele também menciona 'O Flautista de Bambu', de Gilmakam, uma autora nortista que traz questões familiares.
- Jovem Adulto: 'Mesmo Sabendo Como Tudo Acaba', de C.L. Polk. Um livro vencedor do prêmio Nebula, com uma história sáfica e um sistema de magia planetária baseado em horários dos planetas. A protagonista vendeu a alma e esconde isso da namorada. Ele compara a autora a Carol Barcelos no Brasil.
AJ Oliveira também recomendou 'Canção dos Ossos', de Gil Domingues, uma releitura sáfica de 'O Fantasma da Ópera' em uma academia de música mágica. E 'Sempre em Frente' (Carry On), de Rainbow Rowell, descrito como 'Harry Potter, só que bom', onde a magia é baseada em músicas populares e os personagens LGBTs têm um romance de verdade.