Introdução: O Check-up do Bem-Estar e a Normalização do Sofrimento
O Check-up do Bem-Estar, em sua quarta edição, consolidou-se como o maior estudo do gênero no Brasil, reunindo 11.800 respondentes de 290 empresas. Os dados foram coletados entre janeiro e junho via aplicativo da Vidalink. Luís Gonzalez, CEO e cofundador da Vidalink, e Gisele Caleffi, psicóloga especialista em saúde mental no trabalho, discutiram os resultados alarmantes: apenas 7% dos participantes se sentem felizes e realizados, enquanto 70% relatam ansiedade, angústia ou falta de vontade na maior parte dos dias. Este artigo explora as causas, os recortes por gênero, raça e geração, e as ações práticas para reverter esse cenário.
O Que as Pessoas Fazem para Cuidar da Saúde Mental (e o Que Não Fazem)
A pesquisa revelou que 34% dos respondentes praticam exercício físico, 18% tomam medicamentos, 10% fazem terapia e 8% recorrem a meditação ou atividades criativas. No entanto, o dado mais preocupante é que 30% não fazem nada para cuidar da saúde mental, e esse número se mantém estável ao longo dos anos.
Variação por Geração
A falta de cuidado varia conforme a idade: cerca de 1/3 da Geração Z (até 29 anos) e dos millennials (30 a 45 anos) não adota nenhuma prática. A Geração X apresenta 27% de negligência, enquanto os baby boomers se destacam positivamente, com apenas 13% afirmando não cuidar da saúde mental. Ao mesmo tempo, dados da Previdência Social mostram que em 2025 o Brasil teve mais de 54.000 afastamentos por transtornos mentais, o maior número da última década.
Por Que é Tão Difícil Cuidar da Saúde Mental Antes do Afastamento?
Gisele Caleffi aponta duas razões principais: a normalização do sofrimento — as pessoas suportam doses cada vez maiores antes de buscar ajuda — e a dificuldade de mudança de hábitos, que exige disciplina e esforço, enquanto o trabalho oferece recompensas imediatas (como o alívio de cumprir tarefas) que competem com o benefício a longo prazo. Além disso, a sobrecarga e o cansaço reduzem a energia disponível para sustentar mudanças. “É um círculo vicioso”, resume Caleffi.
Iniciativas de Saúde: Prevenção Real vs. Cumprimento de Obrigação
Para diferenciar programas sustentáveis de ações pontuais, Caleffi recorre ao conceito de cultura saudável, que perpassa a organização do trabalho, a ética e a equidade — muito alinhado ao que a NR1 propõe. Empresas com calendários coloridos de ações de saúde não são necessariamente saudáveis. O caminho sustentável exige olhar para o sistema como um todo, incluindo o impacto nos stakeholders e no meio ambiente, como propõe o estudioso John Kelt. “Ainda temos um discurso pró-saúde, mas não olhamos para o todo”, critica.
Recorte de Gênero: Divergências no Cuidado e na Sobrecarga
Embora o percentual de homens (28%) e mulheres (32%) que não fazem nada pela saúde mental seja próximo, as práticas divergem: 20% das mulheres tomam medicamentos (vs. 14% dos homens), possivelmente porque buscar diagnóstico não é tabu para elas. Já 39% dos homens praticam exercício físico (vs. 30% das mulheres), refletindo a falta de tempo feminina. Os dados mostram que 38% das mulheres conciliam trabalho com cuidados da casa (dupla jornada), contra apenas 24% dos homens.
O Papel das Empresas e do RH
Caleffi destaca que é preciso reconhecer que o tempo não é um ativo igual para todos e investigar as práticas de trabalho: a carga e o volume são adequados para que as mulheres cumpram a jornada e ainda batam metas? “Dentro da organização, as práticas são tão desiguais quanto fora dela”, afirma. Além disso, é fundamental educar os homens para a parentalidade e redistribuir as tarefas de cuidado, evitando que a mulher seja penalizada quando cumpre o combinado.
Como Identificar a Sobrecarga Invisível
O RH deve olhar para as condições de trabalho (promoções, méritos, licenças maternidade), realizar escuta ativa (focus groups, pesquisas de clima) e cruzar indicadores como absenteísmo, horas extras e uso de benefícios. “A média não conta a história inteira; é preciso olhar os recortes”, orienta Caleffi.
A Carga Mental Invisível e a Geração Sanduíche
A dupla jornada pesa diferente conforme a geração: 23% das mulheres da Geração Z relatam sobrecarga, índice que sobe para 40% entre millennials e Geração X. Caleffi explica que a carga mental — o trabalho de antecipar, organizar, escolher e monitorar demandas — consome energia mesmo quando a tarefa não está sendo executada. Ela exemplifica com sua experiência cuidando do pai internado por três meses: “Mesmo cuidando de clientes, minha mente estava em alerta com medicações e tratamentos”. Esse trabalho contínuo afeta o desempenho e precisa ser reconhecido pelas lideranças.
Políticas de Apoio à Maternidade Sem Penalização
Para Caleffi, não basta conceder benefícios; é preciso garantir o direito de usá-los sem culpa ou penalização. Empresas devem cruzar decisões de oportunidade, convites para projetos e promoções com os momentos pós-licença maternidade e o uso de flexibilidade. “Se a cultura recompensa exatamente quem não usa o benefício, ela não valoriza o que oferece”, alerta. A discussão da parentalidade masculina é parte da solução.
Saúde Mental ou Felicidade Contínua? O Alerta dos 70%
Apenas 7% se sentem felizes e realizados, enquanto 70% relatam sentimentos negativos. Entre as mulheres, 76% relatam esses sentimentos (aumento de 6 pontos percentuais em relação a 2025); entre os homens, 60% (crescimento de 9 pontos). Os afastamentos por ansiedade e depressão cresceram 15% em relação ao ano anterior. Caleffi faz uma ressalva: ter 7% de felizes não significa que os 93% restantes estejam infelizes, mas o número de 70% é significativo. “Estamos normalizando o sofrimento e confundindo saúde psíquica com felicidade contínua”, reflete. Ela propõe uma balança do sofrimento: de um lado, recursos internos e sensibilidade individual; do outro, gravidade dos eventos e suporte externo. “A conta do estresse é demanda versus recursos. Precisamos olhar o que gera o adoecimento, não só quem adoece”.
Tendências por Geração: A Piora Geral e o Paradoxo da Geração Z
A situação piorou para todas as gerações. Entre os homens, os sentimentos negativos subiram de 51% para 67% na Geração Z e 14 pontos percentuais entre os millennials (63%). Entre as mulheres, o aumento na Geração Z foi de 15 pontos, chegando a 83%, e de 21 pontos entre as millennials (78%). A Geração Z é a que mais relata sentimentos negativos, mas também a que menos adota práticas de cuidado. Caleffi explica o paradoxo: há uma lacuna entre saber e fazer. Jovens são letrados em saúde mental, mas enfrentam desafios como início de carreira, salário curto, busca por pertencimento e sedução das telas. “O conhecimento não é novo, mas a recompensa imediata dos algoritmos torna a disputa desleal”, diz. Fatores financeiros também pesam: pagar academia, terapeuta ou medicamento é mais difícil no início da carreira.
Felicidade Aumenta com a Idade: Calibração de Expectativas
O nível de felicidade cresce com a idade: apenas 4% da Geração Z se diz feliz e realizada, contra 19% dos baby boomers. Caleffi atribui isso à calibração de expectativas e à construção de uma história de vida. “À medida que envelhecemos, o horizonte de futuro fica mais organizado, financeiramente e na carreira, trazendo menos ansiedade e mais conforto”. Para reconhecer a geração mais jovem, as empresas devem promover mentoria reversa (troca de conhecimento intergeracional), integrar bem os novos talentos e quebrar rótulos. “Precisam de sinais mais frequentes e feedback contínuo”, completa.
Satisfação Média com o Bem-Estar: Um Sinal de Alerta
47% dos respondentes avaliam seu bem-estar como médio — nem bons, nem ruins. Caleffi alerta que a média pode esconder sofrimento: “Um número médio pede investigação, não normalização”. A discrepância com os 70% que relatam sentimentos negativos é explicada pela complexidade humana: as pessoas podem sentir angústia e ainda assim se considerarem saudáveis porque continuam funcionando. “Posso ter transtornos mentais e felicidade; posso não estar feliz e ter transtornos. São combinações possíveis”. O RH deve cruzar dados e ouvir as pessoas para entender o que está por trás dessa avaliação média.
Recorte de Gênero e Raça: Desigualdades Estruturais
Os dados revelam um padrão claro: homens brancos têm 38% de satisfação e 17% de insatisfação; homens pretos e pardos têm um pouco menos de satisfação e mais insatisfação; mulheres brancas caem para 20% de satisfação e 28% de insatisfação; e mulheres pretas e pardas apresentam apenas 16% de satisfação e 35% de insatisfação — mais que o dobro da insatisfação dos homens brancos. Caleffi cita o exemplo da segurança psicológica: “Se 10 pessoas passam por uma ponte e uma cai, a ponte não é segura. Se uma pessoa na equipe não se sente segura, não há inclusão para todos”. O RH deve cruzar indicadores de bem-estar com gênero, raça, promoções, salários, assédio e exclusão, olhando para os pontos fora da curva. “Culpa e responsabilização são diferentes. Qual é a parte que me cabe nesse latifúndio?”, provoca. A organização nunca é neutra: ou promove saúde ou a ofende. Ações incluem posições afirmativas, equidade salarial, acesso a programas de bolsas e idiomas, e erradicação de gestores abusivos e preconceitos.
O Futuro Desejado e Conselhos Práticos para o RH
Em cinco anos, Caleffi gostaria de ver a saúde incorporada ao DNA da organização, como premissa ética e não periférica, permeando decisões e programas. “Que a saúde não seja vista apenas para a marca empregadora, mas como sistema”. Para o profissional de RH com tempo e orçamento limitados, o conselho é: não sair fazendo, mas compreender primeiro. “Olhe para as condições de trabalho, flexibilidade, promoção de mulheres pós-maternidade, espaços para pessoas negras. Isso é um caldeirão de informação”. Só depois desenhe ações, que nem sempre exigem grande investimento. “Práticas saudáveis dão credibilidade aos programas e sustentabilidade às ações pontuais. De nada adianta lançar uma iniciativa e abandoná-la”. Caleffi encerra convidando a todos a continuar a conversa e se debruçar sobre os dados de suas próprias empresas.