#32 / Estamos confundindo autoridade e autoritarismo? - com Thais Maruoka

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Introdução: Criando Crianças Autônomas ou Automatizadas?

O podcast “Entre uma coisa e outra” recebeu Thais Maruoka, jornalista, fotógrafa, podcaster e mãe de três, para uma conversa essencial sobre os desafios da maternidade e da educação contemporânea. Thais transformou sua experiência pessoal em uma busca por novas maneiras de olhar para a infância, a educação e as relações familiares. Criadora do podcast “Emerso ouvir essa história”, ela fala sobre maternidade consciente, educação não violenta, disciplina positiva e infância livre. A pergunta central do episódio foi: será que estamos criando nossas crianças autônomas ou automatizadas? E estamos confundindo autoridade com autoritarismo?

Thais define infância livre como aquela que envolve o brincar livre, sem regras impostas por adultos, livre de telas, com contato com a natureza, pés no chão, sem medo de sujar. Mas vai além: é também a liberdade de deixar a criança ser quem ela é. Tendo três filhos completamente diferentes entre si, ela aprendeu que cada criança é única e que é preciso olhar para cada uma, ver quem ela é e amar aquela criança do jeito que ela é, sem projetar expectativas. A parceria com o marido é fundamental nesse processo, pois a troca de percepções sobre cada filho enriquece a compreensão e o cuidado.

A Parceria Conjugal na Criação dos Filhos: Alinhamento e Flexibilidade

Thais destacou a importância de conversar com o parceiro antes mesmo de ter filhos para verificar se há alinhamento sobre valores e propostas de educação. No caso dela e do marido, as ideias principais coincidem: ambos acreditam que telas não fazem bem e sempre concordaram sobre o tipo de escola que desejam para os filhos — uma escola que trabalhe quem a criança é, seus sentimentos, que aceite o diferente e eduque a criança como pessoa, não apenas para uma nota no boletim.

No entanto, nas pequenas coisas do dia a dia, divergências surgem. Thais enfatiza a importância de não tirar a autoridade do outro na frente da criança. Se um fala uma coisa, o outro não deve contradizer ou fazer diferente, pois isso confunde a criança. O casal procura conversar previamente sobre as decisões, mas entende que pequenas quebras de roteiro são saudáveis. Por exemplo, se o pai deixa as crianças tomarem dois sorvetes, isso não invalida a regra de não comer doce sempre. Thais aprendeu ao longo da maternidade a não ser tão rígida, entendendo que limites são importantes, mas as exceções também fazem parte, especialmente em contextos como a casa da avó, onde se constroem memórias afetivas.

O Código do Tapinha e a Importância de Não Discutir na Frente dos Filhos

Quito compartilhou um código que ele e a esposa criaram: quando um estava exausto, o outro batia na mão dele para sinalizar que precisava assumir. Thais elogiou a iniciativa e reforçou a importância de o casal não discutir na frente dos filhos. As crianças percebem a tensão, mesmo que os pais pensem que não. Ela e o marido procuram conversar separadamente sobre divergências, para que os filhos tenham a certeza de que os pais estão alinhados. Reconhece que nem sempre conseguem, mas a intenção é fundamental.

Errar, Pedir Desculpas e a Construção da Autoridade

Thais abordou abertamente a questão do erro. Ela já ouviu de uma terapeuta que pedir desculpas para a filha faria com que perdesse a autoridade. Discorda veementemente. Para ela, quando os pais erram e pedem desculpas, estão ensinando responsabilidade, humildade e a forma de consertar as coisas. Os pais não são perfeitos, e fingir que são cria uma expectativa irreal que pode dificultar as relações futuras dos filhos.

Ela conta que seus próprios pais nunca brigaram na frente dela, o que criou uma imagem de perfeição. Ao se tornar adulta e ter filhos, percebeu que eles também tinham seus problemas. Thais reflete que mostrar essas imperfeições faz parte da vida. Ela mesma tinha dificuldade em pedir desculpas, mas a maternidade a ensinou, vendo o exemplo do marido que pede desculpas com mais facilidade. Ela quer que os filhos sejam pessoas melhores, e para isso, ela precisa mudar também.

Autoridade versus Autoritarismo: Encontrando o Meio-Termo

Thais diferencia claramente autoridade de autoritarismo. O autoritarismo é não querer ouvir o outro, é o “porque eu quero” ou “porque vai ser assim”. A permissividade é o extremo oposto, onde a criança faz o que quer. O caminho do meio é a autoridade, que envolve definir limites porque o adulto tem maturidade e responsabilidade para decidir o que é melhor para a criança, mas de forma respeitosa.

Ela dá o exemplo de ir embora do parque. Em vez de simplesmente mandar a criança entrar no carro (autoritarismo) ou ceder e ficar (permissividade), a autoridade é preparar a criança: “Olha, daqui a 10 minutos a gente vai embora”. Avisar antes, negociar um tempo extra, ouvir a criança, mas manter a decisão final. A educação respeitosa não significa que a criança vai obedecer na hora, sem discussão. Significa que, mesmo na divergência, há respeito, sem violência física ou verbal, e o adulto mantém seu papel de guia.

Desenvolvendo Autonomia de Forma Paulatina: Tarefas e Decisões

Thais explicou que a autonomia é desenvolvida desde as pequenas tarefas diárias: aprender a se limpar sozinha, calçar o sapato, cortar uma fruta, cozinhar junto. É preciso ter paciência, pois a criança vai demorar mais do que o adulto faria. Mas é essencial deixar que ela faça por si só. A autonomia também se estende às decisões: quando a criança traz um problema social da escola, em vez de dizer o que fazer, Thais procura conversar para que a criança chegue à sua própria conclusão sobre o que é melhor para ela.

Ela menciona a importância de deixar as crianças escolherem coisas como o corte de cabelo. Recebeu muitos haters por permitir que o filho colocasse brinco com 5 anos e que a filha raspasse parte do cabelo. Thais reflete que essas são escolhas estéticas, não definitivas, e que fazem parte da experimentação da identidade. O limite real é quando algo faz mal para a criança ou para os outros.

A Experiência do Acampamento e a Importância de Deixar os Filhos Viverem

Thais compartilhou a experiência de sua filha de 11 anos indo acampar por cinco dias. Como não haveria contato telefônico diário, ela combinou sinais por fotos e vídeos para saber como a filha estava. Quando a filha demonstrou vontade de voltar no meio do acampamento, Thais conversou com a psicóloga e com o marido. A decisão foi não buscá-la, dando a ela a chance de superar a saudade. No final, a filha disse que foi a melhor experiência da vida dela.

Thais reflete que o instinto é proteger e trazer a criança de volta, mas o mais difícil e importante é pensar no que é melhor para ela. A vontade de voltar era de uma criança de 11 anos, sem maturidade para decidir. Os adultos, com responsabilidade, decidiram por ela. Essa experiência ensinou à filha que ela é capaz de lidar com a saudade e com os desafios. Thais critica a superproteção que impede as crianças de viverem experiências importantes, como um acampamento, por medo.

Mensagem Final: Respeitar a Criança como Pessoa e Deixar Voar

No encerramento, Thais deixou uma mensagem de equilíbrio. Ela reconhece que há muita informação boa sobre criação de filhos, mas alerta contra a rigidez de tentar seguir regras 100%. Cada família é diferente, tem oportunidades e desafios diferentes. É preciso olhar para a própria realidade e ver o que funciona para aquela família. Ela critica a pressão pela perfeição, que leva mães e pais a se sentirem péssimos por não conseguirem seguir todos os preceitos.

Thais ressalta a importância de respeitar a criança como uma pessoa diferente de você, com sua própria trajetória. Ela observa que a sociedade tem mais paciência com os adultos do que com as crianças. É preciso entender que a criança não é uma extensão dos pais. Ao mesmo tempo, ela fala da alegria de construir uma relação de parceria com os filhos, de se divertir com eles e de expressar gratidão pela companhia. O conselho final é: deixe seus filhos viverem. Deixe-os ir para acampamentos, viagens, casas de amigos. O objetivo de criar bem é conseguir soltar, sabendo que eles têm para onde voltar. “Deixa voar, às vezes é difícil, com certeza. Mas deixa voar que faz bem para eles.”