ANÁLISE TALKS #004 - Ianda Lopes: A evolução do Direito corportativo

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A Trajetória de Ianda: Liderança, Mentoria e o Futuro da Advocacia Corporativa

Em um mundo jurídico em constante transformação, a carreira de Ianda, diretora jurídica da Uber no Brasil, oferece um mapa valioso para os novos advogados. Com uma trajetória que passa por empresas como Promon, HP, GE e agora Uber, ela personifica a evolução do profissional de direito: menos focado em tarefas repetitivas e mais voltado para visão estratégica, habilidades comportamentais e liderança humanizada. Sua história é um testemunho do poder da mentoria, da importância do autoconhecimento e da necessidade de se adaptar a um mercado que valoriza a solução, não apenas a hora trabalhada.

O Impulso para o Desenvolvimento de Carreiras: Uma Responsabilidade que se Torna Paixão

Ianda conta que sua motivação para impulsionar carreiras surgiu naturalmente ao longo de sua trajetória. No início, o foco era seu próprio desenvolvimento. No entanto, ao alcançar posições de diretoria, percebeu que sua presença como mulher preta em um cargo de liderança exercia uma influência e inspiração sobre outras mulheres e pessoas pretas. Essa constatação veio como uma responsabilidade e um chamado para fazer mais.

Ela reflete que, assim como teve pessoas que a ajudaram e mentoraram, sente o dever de retribuir. "Faz um pouco parte do legado e até a responsabilidade da gente como ser humano", afirma. Ao imaginar o futuro, Ianda diz que não serão as grandes posições que a deixarão mais orgulhosa, mas sim as pessoas que ajudou e influenciou. A satisfação de ver uma ex-estagiária, 15 anos depois, com uma carreira brilhante, é comparável ao orgulho que se sente pelos filhos. Para ela, essa troca é gratificante tanto para quem mentora quanto para quem é mentorado, pois mantém a conexão com as novas gerações e abre a mente para o que está por vir.

O Impacto da Inteligência Artificial e o Valor das Habilidades Comportamentais

Diante da pergunta sobre o futuro da advocacia em um mundo de inteligência artificial, Ianda é direta: o que a trouxe até aqui não foi apenas o conhecimento técnico detalhado, mas sim sua visão estratégica e habilidades comportamentais. Ela reconhece que a IA já é capaz de realizar tarefas como revisar contratos, atividade em que era especialista. No entanto, o que a diferencia no mercado é a capacidade de entender as coisas não ditas em uma negociação, ler o ambiente e compreender o que cada pessoa deseja.

Para ela, o desafio para os novos advogados é justamente como serão treinados nesse novo contexto. A base técnica continua sendo o mínimo essencial, mas o investimento em habilidades como comunicação, resiliência sob pressão e leitura de cenários tornou-se ainda mais crucial. Ela observa que muitos profissionais tecnicamente brilhantes não avançam na carreira por não saberem conviver com colegas ou se comunicar de forma eficaz. A recomendação para os recém-formados é clara: investir cada vez mais nessas habilidades comportamentais e usar a inteligência artificial como uma aliada, e não como uma substituta para o pensamento crítico.

Da San Fran ao Mundo Corporativo: Uma Escolha Guiada pela Autodescoberta

Formada pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (San Fran), conhecida por seu viés acadêmico e por formar quadros para o judiciário, Ianda seguiu um caminho diferente. Ela conta que, inicialmente, pensava em prestar concurso público, influenciada por suas referências familiares. No entanto, um estágio no Ministério Público não a entusiasmou, pois ela não via o resultado final de seu trabalho.

No quinto ano, já inscrita em um cursinho, uma colega a convidou para um estágio na Promon, uma empresa de engenharia. Foi uma decisão que mudou sua vida. Ela descobriu no ambiente corporativo um espaço onde podia ver o resultado de suas ações, como o sucesso em uma licitação, e conviver com profissionais de diversas áreas, o que considerava muito mais enriquecedor do que o ambiente mais restrito da advocacia tradicional. Essa experiência a levou a uma carreira em multinacionais, passando pela HP e GE, onde aprendeu a linguagem corporativa e se descobriu uma profissional mais voltada para a estratégia de alto nível do que para o detalhismo de pareceres.

A Importância do Autoconhecimento e da Experimentação

A trajetória de Ianda ressalta a importância do autoconhecimento. Ela aconselha os jovens a testarem diferentes opções durante a faculdade para entenderem onde suas fortalezas se encaixam melhor. Para ela, o autoconhecimento é a base para o desenvolvimento das habilidades comportamentais. Ianda revela que fez terapia a vida inteira e que gosta de se "autofutucar", pois entende que a mente humana é fascinante. É esse conhecimento de si mesma que permite que ela saiba onde se posicionar e como usar suas qualidades a seu favor, tornando o caminho profissional, embora não fácil, mais natural.

A Mudança para a Uber: Desafio, Propósito e a Busca por Relevância no Brasil

Após 16 anos na GE, Ianda decidiu buscar um novo desafio. Ela queria uma empresa onde o Brasil fosse central para as operações e que tivesse relevância e impacto na sociedade. O convite da Uber surgiu como a oportunidade perfeita. A mudança de segmento, do setor de energia para o de tecnologia, foi um estímulo que ela buscava. Além disso, a complexa discussão regulatória sobre o serviço de transporte por aplicativo no Brasil foi um grande atrativo.

Ela também refletiu sobre a possibilidade de trabalhar no exterior pela GE, mas concluiu que sua força estava em ser uma advogada brasileira, com o conhecimento das relações, da cultura e do mercado local. Para ela, ser mais uma advogada na Europa ou nos Estados Unidos não a realizaria tanto quanto ser a melhor versão de si mesma no Brasil, onde poderia aportar todo o seu conhecimento e rede de contatos.

A Estrutura do Jurídico da Uber e o Contencioso de Volume

O departamento jurídico da Uber no Brasil, liderado por Ianda, é dividido em quatro grandes segmentos:

  • Contencioso: Responsável por litígios de massa e estratégicos.
  • Regulatório: Lida com a complexa regulação municipal do serviço de transporte por aplicativo.
  • Produtos e Comercial: Cuida de contratos e da análise jurídica de novos produtos.
  • Legal Operations: Focada em otimizar os processos internos do departamento.

A equipe interna é composta por 13 advogados, e a empresa contrata escritórios externos principalmente para o contencioso de volume. Ianda explica que esse tipo de litígio, como uma ação de um passageiro que esqueceu o celular no carro, é um grande desafio devido ao alto número de processos. Ela defende a criação de mecanismos alternativos de resolução de conflitos antes que as demandas cheguem ao judiciário, pois o volume de causas de baixo valor sobrecarrega o sistema. Outro problema crescente é a litigância predatória, com casos de falsificação de documentos e até prompt injection com uso de IA para fraude processual.

O Futuro dos Escritórios de Advocacia e os Novos Modelos de Precificação

A contratação da Enter, uma legaltech, para parte do portfólio de contencioso de volume, é vista por Ianda como um movimento estratégico. Ela elogia o modelo híbrido da empresa, que combina software e atuação de advogados. No entanto, ela não acredita que empresas como a Enter substituirão completamente os escritórios. Em vez disso, ela vê um grande desafio para os sócios dos escritórios tradicionais: o modelo de cobrar por hora está se tornando insustentável.

Para Ianda, o valor do advogado externo continua imenso, mas precisa ser medido pela solução que ele propõe, e não pelo tempo gasto. Ela menciona que a cobrança por pasta, em alguns casos, chegou a valores irrisórios, como R$ 3 a R$ 10, um modelo que dificilmente sobrevive com a tecnologia atual. O futuro, segundo ela, está em precificar a experiência e a visão estratégica que um advogado experiente pode trazer, resolvendo problemas de forma sistêmica e agregando valor exponencial. "Não é fácil, não é um desafio fácil", conclui, mas é a única saída para quem quer se manter relevante.

Mentoria, Diversidade e o Trabalho na Plan International

O compromisso de Ianda com a diversidade e o desenvolvimento de pessoas se materializa em duas frentes principais: o projeto de mentoria do Jurídico de Saias e seu trabalho no conselho da Plan International Brasil.

O Jurídico de Saias é um coletivo com mais de 7.000 advogadas. Há sete anos, Ianda iniciou um programa de mentoria para conectar estudantes de direito pretas e pardas a mulheres em cargos de gerência e diretoria. Já foram mais de 200 mentoradas conectadas. O grande ganho, segundo ela, é abrir possibilidades para essas jovens, mostrando que o mundo jurídico vai muito além dos escritórios de bairro e das áreas trabalhistas e de família que muitas conhecem. O projeto também serve como um letramento racial para as mentoras, que se aproximam de uma realidade diferente da sua.

Na Plan International, organização não governamental que luta pelos direitos das meninas, Ianda assumiu recentemente a presidência do conselho. A ONG atua em comunidades na Bahia, Maranhão, Piauí e São Paulo com projetos de educação, empoderamento e combate à violência e ao casamento infantil. Ianda destaca um projeto de capital semente para mães empreendedoras e uma pesquisa sobre o impacto da gravidez na adolescência. Ela ressalta o trabalho de advocacy da Plan para influenciar políticas públicas e a importância de envolver os meninos nas discussões sobre igualdade de gênero.

Os Desafios de Atuar em Comunidades e a Realidade Brasileira

Sobre a atuação em comunidades, Ianda explica que a Plan, com seus 30 anos de presença no Brasil, conquistou respeito e confiança dos líderes comunitários. Esse relacionamento de longa data facilita o trabalho e a entrada nas áreas. No entanto, ela reconhece a complexidade da realidade brasileira, onde a atuação em certos territórios depende de acordos informais com o poder local. A experiência da Plan demonstra que o trabalho contínuo e o respeito à comunidade são fundamentais para gerar impacto social duradouro.

Conclusão: A Semente para a Nova Geração

Ao final da conversa, Ianda deixa uma mensagem para quem está começando: estabelecer conexões genuínas. Ela critica a ideia de "networking" como um ato de se exibir em eventos e defende que o verdadeiro valor está em nutrir relações, ajudar as pessoas e se interessar por elas. Essa rede de apoio, construída ao longo dos anos, é o que a ajudou a chegar onde está e é o que a permite ajudar outros a trilharem seus próprios caminhos.

Sua história é um poderoso exemplo de como a advocacia pode ser uma carreira de impacto, propósito e realização pessoal. Ao unir competência técnica, visão estratégica, empatia e um compromisso genuíno com o próximo, Ianda traça um caminho inspirador para as futuras gerações de advogados e advogadas. A mensagem final é de otimismo e ação: o futuro da profissão não está apenas na tecnologia, mas nas pessoas e nas relações que construímos.