O vigésimo episódio do Podcast Podlalaiá Samba Clube, brilhantemente conduzido pelo apresentador Rafael, abriu os trabalhos do ano de 2025 com uma mesa de altíssimo nível. Recebendo três grandes nomes da ala musical da lendária Escola de Samba Vai-Vai — Luiz Felipe, Thiago de Xangô e Claudinho —, o programa entregou uma conversa profunda, emocionante e riquíssima em detalhes sobre a história do carnaval paulistano, os desafios da profissão de sambista, a musicalidade das composições, a ancestralidade e a paixão avassaladora pela agremiação do Bixiga. Com mais de uma hora e meia de duração, o episódio foi uma verdadeira aula sobre a cultura popular brasileira.
O Início: Hospitalidade, Mimos e Tradição
O episódio começou em um clima de celebração e descontração. Rafael apresentou a nova vinheta e a nova identidade visual do podcast para 2025, agradecendo aos parceiros de longa data, como o Yourcast Studio e o personal trainer Felipe Donato. Mantendo a tradição acolhedora do programa, o apresentador presenteou os convidados com a cobiçada caneca oficial do Podlalaiá e, claro, o famoso pão caseiro feito com muito carinho por sua esposa, Silvia. O clima de amizade ficou evidente nas brincadeiras sobre devorar o pão de madrugada após os ensaios, acompanhado de um bom achocolatado quente, demonstrando que, antes de serem grandes profissionais do samba, todos ali compartilham uma irmandade construída nos bastidores.
As Raízes de Thiago de Xangô e a Devoção ao Vai-Vai
Um dos momentos mais emocionantes do bate-papo foi a fala de Thiago de Xangô sobre sua ancestralidade no samba. Ele relatou que cresceu no "cascalho" da quadra da União Independente Vila Prudente, escola da qual seu pai foi um dos fundadores. Nesse ambiente, conviveu desde pequeno com lendas imortais como Dom Marcos, Xixa e Eliana de Lima. Apesar de sua raiz na Vila Prudente, Thiago revelou que seu pai nutria duas grandes paixões inexplicáveis: o Corinthians e a Escola de Samba Vai-Vai. Era tamanho o fanatismo que seu pai só deixava de assistir a um jogo do Corinthians se fosse para ir a um ensaio no Bixiga.
Thiago compartilhou que, no ano em que o Vai-Vai foi rebaixado para o Grupo de Acesso, ele sentiu um chamado espiritual. Em uma atitude de profunda gratidão à memória de seu pai (que era fisicamente muito parecido com Peninha, da Velha Guarda da agremiação), Thiago atravessou a rua para falar com Zé Carlinhos, atual vice-presidente da escola, e se ofereceu para trabalhar de graça. Ele disse que era inadmissível ver um gigante como o Vai-Vai no Acesso e que ajudaria no que fosse preciso, seja colando adereços ou cantando, até a escola voltar ao Grupo Especial. Essa atitude forjou uma conexão apaixonante e definitiva entre Thiago e a comunidade da Bela Vista.
Luiz Felipe: A Trajetória da "Cria da Casa"
Luiz Felipe, a voz oficial do Vai-Vai, contou sua impressionante história de superação e pertencimento. Neto do primeiro presidente da Velha Guarda da escola, Luiz praticamente nasceu dentro da quadra. No entanto, um sopro no coração o impediu de desfilar ou participar ativamente durante toda a sua infância. Foi apenas em meados de 2005, quando o médico finalmente lhe deu alta, que ele pôde vestir a camisa da escola para valer.
A partir daí, sua ascensão foi meteórica e baseada em muito suor: começou na Ala das Crianças em 2006, passou pela Ala de Compositores e, logo depois, foi para a bateria, onde tocou surdo de primeira por seis anos (de 2009 a 2014). Incomodado por ficar "escondido" na bateria e inspirado por ídolos como Tobias da Vai-Vai e Mário Sérgio, ele pediu uma oportunidade na ala musical em 2015. Após anos como apoio, em 2020, durante um dos momentos mais turbulentos e tristes da política interna da escola (que culminou no rebaixamento), ele assumiu o microfone principal, consolidando-se não apenas como intérprete, mas como um pilar de resgate da identidade do Vai-Vai.
O Valor Inestimável de um Sambista Completo
Claudinho e Thiago de Xangô não pouparam elogios a Luiz Felipe. Thiago fez um discurso contundente sobre a postura de Luiz, descrevendo-o como um "sambista completo". Ele relatou um ensaio recente em que Luiz Felipe parou a música, desceu do palco e foi pessoalmente corrigir a comunidade sobre a pronúncia e a métrica de determinadas palavras do samba, assumindo o papel de Diretor de Harmonia. Thiago ressaltou que esse nível de comprometimento é raro, rebatendo sugestões de que a escola devesse trazer intérpretes "medalhões" do Rio de Janeiro. Segundo Thiago, nenhum profissional de fora teria o amor, o conhecimento da comunidade e a coragem de fazer o trabalho de base que Luiz Felipe faz. Ele chegou a profetizar que, em cinco anos, Luiz será reconhecido como o maior intérprete do carnaval de São Paulo e pediu para que as autoridades criem políticas de Seguridade Social e aposentadoria para reconhecer a profissão de sambista.
Os Bastidores da Composição: As "Firmas" e a Revolução Melódica
O podcast também mergulhou profundamente na parte técnica da música. Thiago de Xangô relatou os tempos das "firmas de compositores", quando ele, Rafael do Cavaco e Juninho Berin escreviam sambas para diversas escolas simultaneamente. Eles chegavam a passar meses no Rio de Janeiro, vendendo obras por encomenda para escolas que desfilavam na Intendente Magalhães. Era uma época em que a disputa de samba exigia não apenas caneta, mas alto investimento financeiro e muita estratégia política dentro das quadras (o famoso "catituar" o samba nas barracas).
Incomodados com a padronização das melodias — que, por conta dos regulamentos, começaram a ficar todas iguais, com tons e métricas previsíveis (como os modos gregos fixos no Mixolídio) —, Thiago e seus parceiros formaram o "Samba dos Gordinhos". A ideia era ser uma frente de protesto musical, compondo obras com melodias atípicas, tons menores, pausas inesperadas e harmonias complexas. Eles citaram o trabalho genial de parceiros letristas como Imperial, que conseguia descrever coisas simples, como um copo d'água, com uma poesia rica e inigualável. Debateram como essa ousadia melódica encontrou resistência de muitos diretores, mas também rendeu prêmios e sambas históricos em escolas como Barroca Zona Sul e Rosas de Ouro.
O Enredo de 2025 e os Espaços Sagrados do Carnaval
Falando sobre o presente, os convidados abordaram o enredo do Vai-Vai para 2025, que homenageia o icônico diretor de teatro Zé Celso Martinez Corrêa e o Teatro Oficina. Eles afirmaram que o samba-enredo foi abraçado pela comunidade e vem crescendo assustadoramente a cada ensaio. A conversa evoluiu para uma reflexão belíssima sobre os locais de ensaio da escola, especialmente após a saída forçada de sua quadra histórica no Bixiga devido às obras do metrô (que paralisaram ao encontrarem um sítio arqueológico).
Thiago fez uma diferenciação espetacular sobre a energia dos locais do carnaval: a quadra é o local de estudo e correção; o ensaio de rua é o contato com o mundano, com os espíritos das ruas e a energia do povo; já o Sambódromo do Anhembi é um Solo Sagrado. Ele lembrou que as escolas de samba derivam dos afochés e cordões, carregando a essência da matriz africana. Pisar na avenida, portanto, é um ato religioso e de conexão ancestral. Claudinho completou dizendo que o Anhembi evoca um instinto quase de sobrevivência e glória coletiva, comparando a tensão e a união da comunidade à disciplina de samurais indo para uma batalha.
A Luta Contra a Intolerância Religiosa e a Metáfora do Beija-Flor
Caminhando para o encerramento, o papo tocou em feridas sociais importantes. Gravado no Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, o episódio contou com um discurso poderoso de Thiago de Xangô. Ele defendeu que o Brasil é o país com maior diversidade cultural e étnica, e que o preconceito contra religiões de matriz africana, contra a comunidade LGBTQIA+ e a polarização política são doenças que destroem a essência do país. Usando a figura de Jesus Cristo, Thiago lembrou que o mestre andou entre os marginalizados, os leprosos e as prostitutas, pregando o amor e o respeito, e que a sociedade deveria aprender a conviver com a pluralidade sem tentar impor verdades absolutas.
O momento mais comovente do episódio ficou para os minutos finais. Thiago contou uma antiga analogia kardecista ensinada por sua falecida mãe: a história do incêndio na floresta. Enquanto o leão corria para salvar grandes animais e zombava de um pequeno beija-flor que ia até o lago pegar gotas de água com o bico para jogar no fogo, o beija-flor respondia: "Eu sei que não vou apagar o incêndio sozinho, mas estou fazendo a minha parte". Thiago comparou o trabalho do apresentador Rafael e do Podlalaiá ao beija-flor, afirmando que dar voz aos sambistas de trás dos holofotes é um esforço fundamental que traz esperança e mantém viva a cultura do carnaval.
Com os olhos marejados de todos na mesa, o programa foi encerrado em altíssimo astral, com o trio cantando a plenos pulmões o belíssimo samba-enredo do Vai-Vai para 2025, ecoando pelo estúdio a força, a resistência e a tradição que provam que, aconteça o que acontecer, "o samba continua".