Percursos Fotográficos: Storytelling na Fotografia com Cesinha EP#26

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No episódio 26 do videocast "Percursos Fotográficos", promovido pela Editora Olhares, o fotógrafo e criador de conteúdo Luquinha recebe um convidado de peso: César Ovalle, amplamente conhecido na internet e no meio artístico como Cesinha. Com uma trajetória que se confunde com a própria história recente da fotografia de música no Brasil e a transição para a era digital das redes sociais, Cesinha compartilha suas visões sobre criatividade, o papel do equipamento fotográfico, as histórias por trás de suas fotos mais icônicas e, claro, o storytelling na fotografia. Se você é um amante da fotografia, um profissional da área ou apenas um curioso sobre os bastidores do mundo da música e da publicidade, este bate-papo é uma verdadeira aula sobre como o olhar, a sensibilidade e a psicologia superam qualquer tecnologia.

O Início Inusitado: Da TV Cultura ao Perrengue em Curitiba

Diferente do que muitos podem imaginar, a fotografia não foi a primeira escolha de carreira de Cesinha, e seu início na área não foi repleto de glamour ou certezas. Formado em Rádio e TV, ele começou sua vida profissional nos bastidores da televisão, trabalhando na Rádio e TV Cultura. Ele fez parte da equipe de produção da primeira temporada do lendário programa "Provocações", apresentado pelo saudoso Antônio Abujamra, uma experiência que ele descreve como vanguardista e formadora de caráter, devido à estética fora da curva do programa e às exigências da produção. Além disso, Cesinha revelou uma curiosidade hilária e nostálgica de sua passagem pela emissora: ele chegou a atuar como a "mão" do personagem Júlio, do clássico programa infantil "Cocoricó", cobrindo faltas de quem operava o boneco.

Apesar da boa experiência, após cansar da rotina televisiva intensa em São Paulo, ele decidiu voltar para sua cidade natal, São José dos Campos, e logo depois tentar a sorte na região Sul, em Curitiba. O plano inicial era arrumar um emprego em produtoras de TV locais, mas seu currículo com experiência em São Paulo ironicamente o atrapalhou, pois os empregadores desconfiavam de seu "downgrade" geográfico, achando estranho alguém fazer o caminho inverso do mercado. Sem dinheiro e precisando urgentemente pagar as contas, ele decidiu usar o valor que havia ganhado trabalhando em uma campanha política para comprar sua primeira câmera DSLR digital (uma Canon Rebel de 5 megapixels). A fotografia, que até então era apenas um hobby, virou sua tábua de salvação financeira. Como o próprio Cesinha afirma, não houve um "chamado mágico" romantizado; ele simplesmente precisava ser seu próprio chefe e pagar os boletos do fim do mês.

Contudo, a semente da fotografia musical já havia sido plantada anos antes, na faculdade. Cesinha relembra de um colega de classe, Marcelo Ribeiro, que levava fotos reveladas de shows de bandas como Green Day e Bad Religion para a sala de aula. Aquilo fez os olhos de Cesinha brilharem pela primeira vez com a possibilidade de unir música e imagem, mesmo que ele só fosse entender essa fagulha criativa muitos anos depois, quando ele mesmo já estava em cima dos palcos.

A Era de Ouro do Fotolog e o Sucesso com a banda NX Zero

Foi na efervescente cena musical do rock nacional dos anos 2000 que Cesinha começou a se destacar de verdade. Ele fotografava shows em Curitiba de forma gratuita, movido pela paixão e pela grande oportunidade de praticar sua luz e enquadramento. Nessa mesma época, a internet via o boom do Fotolog, rede social precursora onde não apenas as bandas ganhavam fama e milhares de fãs, mas também os fotógrafos que as acompanhavam. Tornou-se quase um "pacote básico" de qualquer banda da época ter um fotógrafo oficial para alimentar as redes e criar uma conexão visual e diária com os fãs.

O grande ponto de virada aconteceu com a ascensão da banda NX Zero. Sempre que a banda viajava para Curitiba, Cesinha estava lá fazendo os registros das apresentações. O trabalho chamou tanta atenção e a sinergia foi tão grande que os integrantes do NX Zero o convidaram para voltar a São Paulo e trabalhar oficialmente com eles de forma exclusiva. Esse acordo selou uma parceria de anos, permitindo que Cesinha vivesse intensamente a explosão do gênero emo e do rock nacional daquela década. Ele conta que a rotina de shows era tão insana que ele alugou um apartamento em São Paulo e viveu meses apenas com um colchão de ar e uma TV de tubo de 13 polegadas, já que passava a maior parte do tempo na estrada, em aviões e hotéis, e quase não tinha tempo para comprar móveis ou receber encomendas em casa.

O Estrategista: Separando a Música da Publicidade

Com o passar dos anos e a consolidação absoluta do seu nome na cena musical (tendo fotografado também artistas do topo das paradas como Luan Santana, Jota Quest e Ivete Sangalo), Cesinha percebeu um problema de mercado: ele havia sido rotulado exclusivamente como "fotógrafo de banda". Embora amasse o que fazia, essa limitação o impedia de explorar outros mercados comerciais e criativos. Foi então que ele tomou uma decisão incrivelmente estratégica e focada no longo prazo com o surgimento do Instagram, por volta de 2010.

Percebendo o imenso potencial da nova rede social, Cesinha passou impressionantes cinco anos publicando fotos diárias no Instagram sem postar absolutamente nada relacionado a shows, palcos ou música. O objetivo era extremamente claro: mostrar ao mundo, às agências e às grandes marcas que ele era um fotógrafo versátil, capaz de criar narrativas visuais fortes com arquitetura, cotidiano, retratos urbanos e street photography. A estratégia funcionou perfeitamente. Em meados de 2015, marcas gigantes do mercado começaram a procurá-lo para campanhas publicitárias de alto orçamento. Nasceu assim o "segundo CNPJ" de Cesinha, o de criador de conteúdo e fotógrafo publicitário. Essa diversificação não só ampliou seus horizontes artísticos como foi crucial para sua estabilidade financeira a longo prazo, provando que a visão de negócios de um artista é tão importante quanto o seu olhar através do visor da câmera.

Psicologia, Confiança e a Resistência Contra a Inteligência Artificial

Fotografar artistas gigantes exige muito mais do que saber operar uma câmera; exige tato e psicologia. Cesinha explica que o grande segredo para capturar imagens viscerais e íntimas nos bastidores é construir um círculo de confiança inquebrável com o artista. Ele cita que, ao trabalhar com nomes como NX Zero e Luan Santana, fazia questão de viajar no mesmo voo ou jatinho que os músicos, em vez de viajar separadamente com a equipe técnica. Essa proximidade quebrava o gelo e permitia que ele entendesse o estado de espírito do artista antes mesmo do show começar. "Eu bato o olho e já sei se a pessoa tá num bom dia ou não. Se ela tá mal, eu respeito e até uso isso na foto para contar a história daquele dia de forma genuína", revela ele.

É exatamente por causa dessa imprevisibilidade e dessa profunda conexão humana que Cesinha acredita que a fotografia documental e de eventos ao vivo seja uma das últimas grandes resistências artísticas contra a Inteligência Artificial (IA). Enquanto a IA pode facilmente fabricar um cenário perfeito ou um retrato esteticamente irretocável em um camarim falso, ela jamais conseguirá forjar a energia suada de um show real, a alegria genuína de um fã na grade ou a tristeza nos olhos de um artista momentos antes de entrar no palco. A fotografia documental é o registro puro da realidade, algo que nenhuma máquina generativa pode substituir sem que se torne uma mentira sem alma.

A Filosofia do Equipamento vs. O Momento

Um dos pontos de maior destaque do bate-papo é a visão nada convencional de Cesinha sobre equipamentos fotográficos. Em uma era onde fotógrafos e produtores de conteúdo debatem exaustivamente sobre megapixels, sensores full-frame e as lentes mais parrudas e caras do mercado, Cesinha nada na direção oposta. Ele afirma com total convicção que o momento, a história e o olhar são infinitamente mais valiosos do que o equipamento técnico utilizado para capturar a imagem.

Ele surpreende o apresentador ao revelar que nunca teve a câmera "topo de linha" da geração atual e que frequentemente limita intencionalmente os recursos que usa (como não ultrapassar um ISO de 2000 em seus shows, mesmo que sua câmera permita valores absurdamente maiores) para forçar e estimular sua própria criatividade perante as restrições. A prova definitiva e incontestável dessa filosofia veio em uma campanha global para a cobiçada marca de luxo Cartier. A marca enviou um novo perfume para doze renomados fotógrafos ao redor do mundo, dando carta branca para a criação. Cesinha fez sua foto no centro caótico de São Paulo, usando apenas a iluminação de um pequeno LED portátil segurado por um amigo e... um iPhone 7. Meses depois, ele foi convidado para voar de primeira classe até a sede na Suíça, pois a presidente global da Cartier havia escolhido a sua foto como a melhor e principal da campanha. Quando ele revelou na reunião presencial que a imagem havia sido feita com um simples smartphone, os executivos ficaram chocados e mal puderam acreditar. Esse caso reforça a tese de que remover a barreira do "ruído do equipamento" (e do preconceito atrelado a ele) permite que a foto seja avaliada puramente pela força do que ela comunica.

Storytelling: A História Pertence ao Espectador

Quando questionado sobre o conceito de construir storytelling através da fotografia (algo amplamente debatido em cursos e workshops hoje em dia), Cesinha apresenta uma perspectiva bastante filosófica e humilde, fugindo do óbvio. Para ele, a história de uma foto nunca é uma via de mão única ditada pelo fotógrafo. O fotógrafo captura o momento a partir de seu ponto de vista único e de seus próprios sentimentos transitórios, mas a interpretação final daquela imagem diz muito mais sobre quem a observa do que sobre quem apertou o obturador.

Cada espectador traz consigo sua própria bagagem de vida, vivências, traumas, referências culturais e alegrias, o que faz com que uma única foto possua milhares de interpretações totalmente diferentes. Uma mesma foto pode representar melancolia para um e esperança para outro. Cesinha enxerga a fotografia quase como uma mágica física que desafia a lógica do tempo: uma pequena caixinha mecânica e digital capaz de congelar um milésimo de segundo e, dali a quinze ou vinte anos, evocar no espectador até mesmo o cheiro de um momento de infância ou a energia explosiva de um show para quem viveu intensamente aquilo.

Fotos Icônicas: O Último Retrato de Chorão e a Tocha Olímpica

Durante a conversa, enriquecendo o podcast com bastidores, Cesinha compartilha a história por trás de duas de suas fotografias mais carregadas de emoção, peso e significado histórico.

A primeira delas é um retrato extremamente marcante de Chorão, o icônico vocalista do Charlie Brown Jr. A foto, tirada em 2010 (três anos antes do trágico falecimento do cantor), capturou um olhar de profunda tristeza, introspecção e peso emocional. Cesinha conta que, logo de cara, percebeu que Chorão não estava em um bom dia e pediu apenas "dois cliques" ao cantor para não incomodá-lo. O primeiro clique acabou se tornando a famosa e comovente capa de uma edição especial da revista Rolling Stone, publicada após a morte de Chorão em 2013. A equipe da revista vasculhou arquivos fotográficos gigantescos de diversos profissionais, mas foi exatamente a foto de Cesinha que resumiu com precisão assustadora a alma e a dor do artista naquele momento turbulento de sua carreira. "A importância da técnica", diz Cesinha, "é que a luz e a fotometria já estavam prontas antes mesmo dele olhar pra mim. Eu sabia que ia garantir a foto perfeita em dois cliques."

A segunda história parece um roteiro de filme de aventura digno de cinema. Em 2016, Cesinha recebeu um convite inesperado e inusitado para voar até a Suíça a fim de buscar a Chama Olímpica para os Jogos do Rio de Janeiro. Ele embarcou no primeiro avião oficialmente pintado com a nova marca LATAM, em um voo charter sem escalas de Genebra até a capital brasileira. A chama veio literalmente acesa o tempo todo dentro da cabine do avião, protegida e presa em poltronas especiais com cintos de segurança. O ápice dessa jornada épica aconteceu quando o avião entrou no espaço aéreo brasileiro e foi imediatamente interceptado e escoltado por dois aviões de caça da Força Aérea Brasileira. Cesinha, maravilhado com a cena que poucos civis veriam na vida, fotografou os caças diretamente pela janela do avião comercial, chegando a capturar nitidamente o rosto do piloto militar acenando para ele. Meses depois, como coroa da experiência monumental, o Instagram o convidou formalmente para ser um dos condutores da Tocha Olímpica na cidade de Tatuí. Cesinha guarda essa tocha em sua casa até hoje, muitas vezes escondida, para que sempre que esbarre nela sirva como um lembrete físico e emocionante das maluquices e aventuras incríveis que a câmera lhe proporcionou.

Conselhos Valiosos para os Veteranos do Audiovisual

Fugindo do roteiro clichê de pedir dicas exclusivamente para iniciantes que estão comprando a primeira câmera, o apresentador Luquinha inverte a dinâmica e pede que Cesinha deixe um conselho voltado para os profissionais mais velhos do mercado audiovisual. Profissionais estes que, muitas vezes, encontram-se desanimados, reclamando amargamente em redes como o Threads, e frustrados com as rápidas mudanças do mercado e o excesso de influenciadores. A resposta de Cesinha é pragmática, realista e direta.

Primeiro de tudo, ele ressalta a importância vital da educação financeira para autônomos: "Guarde dinheiro!". É a reserva financeira sólida que impede o profissional de aceitar trabalhos ruins ou "roubadas" por puro desespero de pagar as contas. Aceitar qualquer coisa por dinheiro acaba desviando o fotógrafo de seu próprio eixo ético e do estilo autoral construído a duras penas ao longo dos anos. Em segundo lugar, ele aconselha a manter-se sempre em movimento contínuo. O mercado do audiovisual é, por natureza, uma montanha-russa implacável, com altos e baixos inevitáveis na demanda. Se o profissional veterano está em um momento de baixa, Cesinha diz que é natural viver o luto, mas é crucial levantar a cabeça, tomar um banho, sair para a rua, criar projetos pessoais mesmo que não remunerados e se manter ativamente visível. "Quem não é visto, não é lembrado de jeito nenhum", pontua ele com veemência. Atualizar constantemente o portfólio, ter um site organizado e alimentar minimamente as redes sociais são ações de manutenção vitais para não ser apagado ou esquecido pelos clientes e agências em um mar de jovens criadores de conteúdo com fome de sucesso.

Conclusão

A conversa de quase uma hora com César Ovalle no videocast "Percursos Fotográficos" é um respiro refrescante de lucidez em um mercado visual frequentemente obcecado e paranoico com inteligência artificial, equipamentos de última geração que custam o preço de um carro, e a viralização efêmera a qualquer custo em plataformas de vídeos curtos. Cesinha nos lembra magistralmente que, no fim das contas, a fotografia sempre será sobre pessoas, conexões emocionais, histórias reais e, acima de tudo, vivências autênticas. Com uma carreira sólida, multifacetada e construída com inteligência mercadológica, paciência e talento bruto, ele demonstra que não existem atalhos fáceis ou fórmulas mágicas de sucesso. O grande segredo da profissão é fotografar muito, consumir cultura, entender os meandros da psicologia humana, adaptar-se rapidamente às inovações do meio e permitir que a câmera seja apenas uma mera extensão de como você enxerga e sente o mundo ao seu redor. Para quem deseja se inspirar ainda mais e conhecer a fundo as ricas narrativas por trás de suas fotografias mais célebres, Cesinha deixa o convite para acessar seu site oficial (cesinha.com.br ou cesarovalho.com.br), onde as imagens finalmente ganham contexto total e vida através dos textos cativantes que as acompanham.