Friends & Family #33: O Papo Certo com Tiago Borges Sobre Tênis, Cultura e Luxo
No episódio número 33 do podcast Friends & Family, estreado em uma nova estrutura de estúdio, os anfitriões batem um papo denso, nostálgico e cheio de opiniões fortes com um dos pioneiros na criação de conteúdo de moda streetwear e sneakers no Brasil: Tiago Borges . Em uma conversa que flui da simplicidade de um jogo de cartas até a complexidade da indústria da moda internacional, os participantes discutem os prós e os contras do cenário atual do colecionismo. Abaixo, detalhamos tudo o que rolou nesse episódio repleto de informações, vivências e algumas polêmicas, organizando os melhores momentos em formato prático e estruturado para você não perder nada.
Pokémon TCG: O Lado Inusitado do Colecionador
Quem acompanha Tiago Borges pelo Instagram ou pelo YouTube esperando apenas conteúdos sobre tênis caros e moda pode se surpreender com o que ele revelou logo nos primeiros minutos do episódio. Tiago confessa, em um tom de quem foi fisgado profundamente por uma nova paixão, que atualmente treina de forma extremamente séria o jogo de cartas Pokémon TCG (Trading Card Game) . O nível de dedicação é tanto que ele tem até um treinador pessoal para aprimorar suas jogadas e chegou a pensar em desmarcar o podcast para não perder o horário de seu treino sagrado .
O objetivo dele não é brincadeira: acumular pontos de ranking necessários ao longo da temporada de torneios que se inicia no segundo semestre para tentar garantir uma vaga no Campeonato Mundial, que no ano seguinte acontecerá na cidade de Anaheim, na Califórnia . Ele explica rapidamente as dinâmicas do jogo para os leigos, destacando que no Pokémon, diferentemente de outros card games, não é preciso ter as cartas mais caras (as famosas cartas pimpadas, raras e douradas) para ter um deck forte e vencer. Uma carta barata faz exatamente a mesma ação de uma carta rara que custa mais de cem reais, o que torna o jogo puramente sobre estratégia e adaptação mental .
As Raízes no Tênis: Do Basquete ao Hype do Yeezy
Voltando ao assunto que o consagrou, Tiago relata como o basquete foi a sua grande porta de entrada para a cultura sneaker. Tendo começado a jogar um pouco mais tarde, por volta dos 13 ou 14 anos, ele se destacou rapidamente pela altura e chegou a atuar nas categorias de base do Corinthians . Como é comum no esporte, a busca pelo calçado ideal de performance despertou um olhar mais atento para as silhuetas.
Porém, o divisor de águas que cimentou seu desejo profundo pelo universo dos tênis foi fora das quadras. Ele se apaixonou perdidamente pelo emblemático Nike Air Yeezy "Net", uma das primeiras colaborações de Kanye West com a Nike . Anos mais tarde, ele mergulharia de cabeça nas filas em portas de lojas, vivendo o real espírito da cultura sneaker da década passada. Tiago diverte a mesa contando a história de quando foi com o colega "Hype Jesus" para a fila da adidas na Rua Oscar Freire, às 6 horas da manhã, na tentativa de comprar o aclamado Yeezy Boost 350 "Turtle Dove". Embora não tenha sido sorteado para a compra no dia, aquele momento marcou fortemente a época em que os brasileiros começavam a entender e disputar os lançamentos super limitados .
A Transição Para a Criação de Conteúdo e a Era de Ouro na Twitch
A produção de conteúdo de Tiago começou de forma gradual. Entre 2016 e 2017, ele escrevia artigos para portais especializados, como o SneakersBR. Nos anos seguintes, migrou suas opiniões para as redes sociais como Instagram e YouTube, criando um dos primeiros canais brasileiros focados no nicho com uma linguagem de resenhas detalhadas (reviews) .
A "virada de chave" para levar isso como profissão integral deu-se em 2020. Tiago viajou para o Chile para um intercâmbio com o intuito de estudar moda, mas a eclosão da pandemia global forçou-o a retornar ao Brasil após apenas dois meses . Confinado em casa, ele abraçou o lado nerd da profissão: intensificou as postagens para três vídeos no YouTube por semana, criava conteúdo diário para o Instagram e descobriu seu aparente "maior dom": realizar lives na Twitch . Tiago relembra com carinho da época em que fazia transmissões narrando campeonatos amadores de corridas de bolinhas de gude, alcançando o auge do entretenimento digital.
Infelizmente, esse período foi interrompido não por vontade própria, mas por mudanças na plataforma. A Twitch alterou drasticamente as regras de monetização, despencando o valor recebido por inscrições, o que inviabilizou que ele mantivesse as exaustivas horas de transmissões noturnas. Foi um baque para diversos criadores médios, mas Tiago continuou adaptando seu conteúdo para outras redes .
O Impacto do TikTok e a Superficialidade do Consumo Atual
No debate central do episódio, os anfitriões instigam Tiago a analisar as mudanças do mercado ao longo dos anos. Para ele, a ascensão do TikTok foi um marco revolucionário . Por um lado, democratizou de vez a informação, mostrando a milhões de brasileiros que existia um universo cultural ao redor dos tênis (o que era extremamente restrito antes). Por outro lado, trouxe uma banalização e uma superficialidade desanimadoras.
No Brasil, ao contrário dos Estados Unidos — onde a cultura sneaker está intimamente entrelaçada com as raízes urbanas de Michael Jordan e do Hip Hop —, o consumo estourou muito pela ostentação. A base de novos consumidores começou a comprar porque via influenciadores usando ou porque o tênis era considerado inacessível financeiramente . O TikTok forçou criadores a resumirem histórias densas de calçados em vídeos de 40 segundos, e a lógica do algoritmo fez com que todos começassem a usar e recomendar a mesma "receita de bolo" exata de moda, como o combo eterno de "calça baggy com camiseta boxy" .
A percepção da moda hoje se tornou meramente estética e funcional, esvaziada de história. As novas gerações já não constroem sua roupa a partir do tênis; elas exigem que um tênis funcione com várias calças genéricas, perdendo o romantismo das coleções que existiam antigamente .
O Amadurecimento do Streetwear Nacional
Apesar do cenário esvaziado no tênis, Tiago nota um amadurecimento lindo no setor de vestuário brasileiro. As marcas de moda street nacional estão ganhando protagonismo imenso. Os convidados citam orgulhosamente como grifes brasileiras como a PACE, a Carnan e a ÖUS estão rompendo a barreira internacional, chegando a ser vendidas na exigente Dover Street Market e sendo flagradas no corpo de astros internacionais em grandes festivais .
Isso ocorreu porque os tênis hypados, por vezes, passaram da casa dos mil ou dois mil reais, e o público entendeu que com essa quantia seria possível construir guarda-roupas inteiros com calças e moletons de gigantesca qualidade comprando das marcas locais. A conversa adentra a evolução dessas marcas independentes, e embora elogie a brasileira ÖUS pelo design, nota-se a dificuldade estrutural das indústrias calçadistas do país em brigar com a tecnologia de amortecimento importada das asiáticas e europeias (como as espumas da Nike e Asics) .
A Relação Predatória de Marcas e Criadores de Conteúdo
Em um desabafo incisivo e direto, Tiago joga luz sobre os bastidores da criação de conteúdo de moda no Brasil. Ele afirma com segurança que cerca de 90% das marcas (mesmo as enormes) não sabem trabalhar de maneira justa e profissional com os influenciadores do nicho .
Ele expõe o problema crônico do "mercado de permutas e recebidos", ressaltando que tênis não paga as contas do condomínio. Há marcas que ousam exigir a entrega de uma campanha gigantesca de Reels e Stories elaborados oferecendo vergonhosos 400 reais em crédito na loja em troca. O pior de tudo, diz ele, é que o próprio mercado se sabota: sempre haverá algum criador disposto a aceitar fazer o trabalho essencialmente de graça, inviabilizando que profissionais cobrem de forma correta e digna pelos seus serviços audiovisuais .
Bate-Bola: Curiosidades da Coleção Pessoal e a Relação com Kanye West
Como de costume, o programa contou com a sessão de respostas rápidas, na qual Tiago revelou gostos peculiares e itens históricos de seu closet:
- O Santo Graal que qualquer um queria ter: O cobiçado modelo Jasper (Louis Vuitton) ou o clássico Yeezy "Net" .
- O Tênis mais exclusivo que possui: Um Kobe 7 "Kentucky" versão PE (Player Exclusive). Trata-se de um modelo que nunca foi comercializado para o público; foi feito exclusivamente para atletas do time universitário americano. Um presente dado de forma surpreendente por sua namorada .
- A silhueta mais subestimada do mercado: Os mules (conhecidos no formato da Birkenstock). Embora muitos torçam o nariz, Tiago os vê como a evolução confortável perfeita para o verão .
- Maior dificuldade e esforço físico: Pegar uma fila e ter uma tremenda dor de cabeça nas negociações para conseguir um Nike Air Max 1 Elephant Print .
- Marca inusitada favorita e Estilo: Clarks. Ele aspira adotar um perfil visual de "Pai Americano" ou no estilo elegante e tranquilo do criador Ronnie Fieg .
Sobre seus grandes ídolos inspiradores, Tiago abriu o jogo sobre a profunda tristeza com a derrocada mental e política de Kanye West. Ele admitiu que depois dos infelizes e bizarros discursos de adoração ao nazismo feitos por Kanye, foi obrigado a "separar" a coleção, não consumindo mais nada novo relacionado ao rapper por haver cruzado uma barreira moral inaceitável . Em contrapartida, demonstrou profundo amor pelo falecido designer Virgil Abloh, confessando que chegou a chorar no meio do bairro da Liberdade comendo pastel quando recebeu a chocante notícia do seu falecimento .
A Entrega Atrasada e o Momento Unboxing
O episódio também proporcionou boas risadas em torno da maior procrastinação da história do canal. O apresentador Caio devolveu a Tiago um icônico par de tênis Air Jordan 1 "Shattered Backboard", após impressionantes e incontáveis 6 anos e meio. A intenção primária há meia década era que o tênis passasse por uma sutil customização com acetona para apenas tirar o aspecto de "brilho envernizado" da parte de couro preto do bico. O tênis, incrivelmente não deteriorado, retornou e o resultado pelo menos agradou ao dono .
Tier List Oficial: Ranqueando as Colaborações Streetwear e High-End
Com a mistura do mercado de moda popular com o universo de luxo em voga, os meninos montaram uma lousa mental para ranquear o melhor que já aconteceu nos cruzamentos do design esportivo e luxuoso. Em uma votação que será certamente alvo de opiniões divididas entre os espectadores, a lista definitiva ficou cravada assim:
- Lixo Absoluto (Melhor nem ter feito): Reebok em conjunto com a marca Vetements, considerada preguiçosa, confusa e sem identidade forte de nenhuma das frentes .
- Fraco: A parceria entre Reebok e Maison Margiela (acharam muito repetitiva a aplicação de tintas), adidas x Stella McCartney e a desinteressante coleção de adidas x Gucci, que apesar do samba legal não possuía a aura refinada cobrada pelo altíssimo preço .
- Passa de Ano (Bateu na trave e entrou): Nike x Jacquemus (muito elogiada pelas peças de roupa mais que pelos tênis), adidas x Moncler (aplicação perfeita do puffer em tênis para o frio), adidas x Prada e o polêmico Nike Air Force x Tiffany, que gerou debate, mas os meninos defenderam que ele transpareceu elegância .
- Crème de la Crème (As Segundas Melhores): O inacreditável Jordan 1 x Dior e o fenômeno "The Ten" da Nike x Off-White de Virgil Abloh, que literalmente pavimentaram todo o terreno para essas junções impossíveis .
- Gold (A Obra Prima Suprema): Nike x Louis Vuitton (também orquestrada por Virgil). A experiência da maleta exclusiva, o acabamento europeu absurdo, os materiais raros do couro e toda a embalagem foram elogiados à exaustão .
O Fechamento Com o Desafio "Direito a Uma Resposta"
Para concluir os quadros fixos, o diretor Gustavo entregou um desafio bizarro baseado inteiramente em um número solto: "Entre 147 e 152 cm" . Os meninos ficaram de fato totalmente no escuro, sugerindo regras em montanhas-russas ou esportes de ação.
No final, a solução hilária foi revelada: A medida exata é a restrição de altura obrigatória exigida para os funcionários e animadores que desejam trabalhar vestidos no traje do camundongo Mickey Mouse nos parques originais da Disney .
O episódio número 33, de quase duas horas, foi uma viagem excepcional pelos bastidores do que é ser um consumidor assíduo de arte de rua e moda. A conversa aprofundou questões que a Geração Z muitas vezes desconhece sobre a história dos primeiros movimentos do mercado brasileiro, deixando grandes conselhos para marcas, criadores e consumidores leigos.