Como Bonadio atravessou gerações e continua no topo da música | Rick Bonadio | Starling Cast #301

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A Formação de Rick Bonadio: O Músico Antes do Produtor

No episódio 301 do Starling Cast, o apresentador e guitarrista Mateus Starling recebe o renomado produtor musical, empresário e engenheiro de som Rick Bonadio. A conversa começa quebrando o estereótipo focado apenas no lado executivo de Bonadio, revelando que sua verdadeira essência é, e sempre foi, a de um músico. Ele iniciou seus estudos aos 10 anos de idade no conservatório, tendo o piano como seu instrumento principal. Posteriormente, formou-se em arranjo e regência no Teatro Municipal, onde estudou por seis anos. Bonadio relata que acompanhou toda a evolução tecnológica dos estúdios, desde a época das gravações em fita magnética, sendo considerado "moderno" na época por saber programar sintetizadores e baterias eletrônicas.

O Dilema Entre a Administração e a Arte

Apesar de seu vasto sucesso como empresário, ele deixa claro que o lado comercial foi apenas um meio para continuar trabalhando com o que realmente ama: a música. O foco administrativo era uma tática de sobrevivência, já que o fracasso significaria ter que voltar a trabalhar na oficina mecânica de seu pai. Hoje, ele tem o privilégio de trabalhar menos na gestão e focar nos estudos de seus instrumentos, tocando guitarra e bateria diariamente a partir das 5h da manhã. Ele confessa que, no passado, afastar-se da prática instrumental lhe causou profunda angústia, sentindo a frustração física de não conseguir executar no piano as peças que dominava na juventude.

Mercado Musical Atual: Excesso de Tecnologia e Falta de Artistas

Avaliando o cenário fonográfico contemporâneo, Rick expressa forte decepção com o rumo que a indústria tomou. Ele mantém sua famosa postura de 2007: de nada adianta tirar um som impecável se a música não é genuinamente boa. Segundo o produtor, o acesso democratizado às tecnologias de produção, impulsionado pelas redes sociais e pelo YouTube, não veio acompanhado por uma evolução cultural equivalente no Brasil. O resultado é um mercado saturado de indivíduos buscando a fama rápida e fácil, focados apenas na viralização e ignorando o aprofundamento nos estudos musicais.

Bonadio ressalta que essa geração atual possui ferramentas incrivelmente avançadas, mas falta a preparação essencial. Existem escolas de música disponíveis, mas a maioria procura apenas o atalho para o estrelato, desprezando a jornada de domínio técnico do instrumento. Isso gera o fenômeno de termos, como ele pontua, "muito computador e pouco artista" no cenário mainstream, uma distorção perigosa que corrói as bases da verdadeira expressão musical a longo prazo.

O Impacto da Inteligência Artificial e a Cultura do Consumo Passivo

O advento da Inteligência Artificial (IA) generativa na música é um dos pontos mais críticos da entrevista. Bonadio compara a música gerada por IA a um "artista ruim" ou "músico engessado": aquele que sabe tecnicamente todas as escalas, mas não inova e não transmite nenhuma emoção verdadeira. Ele descreve o fenômeno atual como bizarro, ressaltando a falta de exigência do público moderno, que aceita de forma passiva qualquer produto de baixa qualidade que seja repetidamente empurrado por algoritmos.

A "Verdade" Sobre o Top 50 do Spotify

  • Consumo Passivo: Antigamente, o ouvinte ia até a loja comprar um CD ou pedia a música na rádio (uma ação ativa). Hoje, ele consome o que o algoritmo impõe automaticamente em playlists grandes.
  • A Nova Dinâmica do Hit: Estar no famoso "Top 50" das plataformas de streaming muitas vezes não significa sucesso real, mas sim o resultado de manipulações para gerar cliques, impulsionadas pelo formato de consumo das "big techs".
  • Descolamento da Realidade: Muitos artistas com números astronômicos nas plataformas digitais falham em vender ingressos para shows menores, revelando um sucesso estritamente virtual que não se traduz no mundo real.

A Diferença Entre Músicos de Estúdio e Músicos de Palco

A conversa também entra em detalhes técnicos sobre o perfil dos músicos. Bonadio classifica a si mesmo como um legítimo músico de estúdio, um profissional preocupado milimetricamente com sonoridade, técnica, timbres perfeitos e criação de arranjos que destaquem o talento do vocalista. Ele diferencia esse perfil do chamado músico de palco, que prioriza a performance visual e a energia contagiante entregue à plateia.

O músico de estúdio necessita de um vocabulário e repertório gigantescos, sendo capaz de transitar desde o suingue de Chimbinha e Nile Rodgers até escalas virtuosas e complexas em poucos minutos. Além disso, a disciplina exigida nas sessões de gravação (manter o fone no lugar, não bater cabos no microfone e manter a dinâmica exata das frequências de cada instrumento para encaixar na "mix") é algo que muitos músicos que brilham intensamente nos palcos simplesmente não conseguem replicar dentro da cabine de gravação.

Decisões de Produção: A Busca por Resultados e a Polêmica com a Fresno

Falando sobre sua reputação, por vezes rotulado como o "empresário malvadão", Rick é taxativo: ele sempre foi direto, realista e orientado por resultados práticos. Ele defende que sua missão principal era fazer o artista prosperar e não permitir que a ingenuidade ou a imaturidade destruíssem carreiras promissoras. Ao relembrar o trabalho com a banda Fresno, ele aborda o famoso "racha ideológico" citado pelos integrantes do grupo, que na época acharam o álbum "muito limpo e pouco produzido" devido à inclinação pop sugerida pela gravadora.

Com sua mentalidade estratégica, Bonadio pensava como uma máquina de prever o sucesso (um verdadeiro "ChatGPT da indústria"), avaliando antecipadamente as reações de rádios, TVs e fãs. Os membros da Fresno queriam manter uma imagem estritamente underground, enquanto o som deles possuía melodias emo-românticas altamente populares. Ele assume a total responsabilidade por ter "limpado" o som da banda para potencializá-los, afirmando categoricamente que o que realmente importa no final das contas é o resultado: a banda alcançou o número um nas paradas e marcou uma geração.

A Distância Tecnológica Entre a Produção Brasileira e o "Nível Gringo"

Quando o assunto é a qualidade técnica dos estúdios, Rick destrói a ilusão de que as produções brasileiras já se equipararam completamente ao famoso "nível gringo". Ele observa que grandes polos musicais como Nashville e Nova York estão décadas à frente na qualidade média, impulsionados por estúdios absurdamente bem equipados, altíssima rotatividade financeira, profissionais que colecionam prêmios Grammy e uma exigência cultural absurda.

No Brasil, ele aponta que, apesar de existirem equipamentos de ponta em estúdios específicos (como as consoles SSL em seu próprio estúdio, o Midas), o cenário médio sofre muito com a carga tributária de 67% sobre equipamentos importados. Instrumentos de excelência mundial se tornam inacessíveis, forçando as fábricas nacionais a cortarem custos com peças asiáticas. Ele alerta para o perigo da soberba e da cegueira voluntária no mercado brasileiro, afirmando que enquanto houver uma mentalidade fechada e uma régua muito baixa de qualidade, não haverá evolução genuína.

Os Bastidores de Titãs e a Criação de Hits Imortais

Relembrando sua colaboração com o lendário grupo Titãs, Rick comenta sobre as injustas acusações de que teria "domesticado" o som da banda no aclamado álbum Saco Plástico. Críticos reclamaram do uso de programações e sintetizadores. Bonadio ri dessa visão purista, enfatizando que as inovações tecnológicas foram cruciais para o projeto, que acabou vencendo o Grammy Latino e gerou clássicos modernos como a inesquecível faixa "Porque Eu Sei Que é Amor".

O produtor e Starling discutem com pesar o fato de que a era dos grandes hits imortais, que marcavam verões inteiros e se fixavam no emocional coletivo, chegou ao fim. Antigamente, uma banda vivia de poucos mega sucessos espalhados ao longo dos anos, pois o consumo da mídia era diferente. Hoje, o excesso de lançamentos e a concorrência brutal pela atenção do usuário com as telas de celular fazem com que os picos de sucesso durem poucas semanas. Bonadio alerta que essa transitoriedade será sentida drasticamente quando as próximas gerações tentarem sentir nostalgia de épocas passadas, sem ter "hinos" em comum.

O Resgate do Ira! e as Barreiras Regionais no Rock Nacional

O trabalho de revitalização da carreira do Ira! através do projeto Acústico MTV é destacado como um divisor de águas. Rick assumiu a produção num momento em que a banda respirava por aparelhos, e sua abordagem inovadora resgatou clássicos esquecidos (o chamado Lado B). Ele fez adições cirúrgicas, como a inclusão do virtuoso piano de Beto Patilo e da segunda guitarra de apoio de Thiago Castanho (ex-Charlie Brown Jr.), permitindo que o carisma performático de Edgar Scandurra brilhasse solto.

Esse segmento também revela as imensas barreiras culturais entre o rock paulista e o mercado midiático do Rio de Janeiro nas décadas passadas. Bonadio expõe como as grandes redes de TV atuavam como monopólios culturais, filtrando fortemente o que não nascia de forma orgânica em seus domínios. A falta da Rádio Fluminense independente e o conservadorismo da Rádio Cidade faziam do mercado carioca um obstáculo difícil para grandes fenômenos do rock, exigindo muito "jogo de cintura" para que bandas independentes entrassem na bolha televisiva.

Mamonas Assassinas: O Clique Genial Que Mudou Tudo

O capítulo mais emocionante de sua história de produtor sem dúvida gira em torno dos icônicos Mamonas Assassinas. Bonadio conta que em 1992 conheceu os músicos ainda como a banda "Utopia", que falhava ao tentar emular rock progressivo e Titãs num cenário em que o rock dos anos 80 já estava desgastado. O divisor de águas (o grande "clique" da sua vida) veio ao escutar a música "Pelados em Santos" gravada num estilo voz e violão puramente brega.

A genialidade da produção consistiu em amarrar as letras bem-humoradas dos rapazes com arranjos complexos de bateria pesada e guitarras ruidosas, transitando para ritmos como o pagode e o forró de maneira técnica e coesa (algo que ele mesmo confessa que seria difícil replicar hoje em dia). O mega sucesso repentino proporcionou dinheiro e fama, catapultando a fundação do Midas Studios. No entanto, o terrível e trágico fim da banda mergulhou Rick em um quadro de Transtorno de Estresse Pós-Traumático que exigiu extrema força para ser superado, reiniciando sua jornada profissional praticamente do zero.

O Caos Criativo do Charlie Brown Jr. e a Liberdade das Gravadoras

Após a tragédia, a aposta definitiva na recuperação mental e profissional de Rick foi o lendário Charlie Brown Jr.. Bonadio recorda vivamente o dia em que recebeu uma fita cassete em um ensaio diretamente das mãos do vocalista Chorão. A sonoridade apresentada na demo era um absoluto e anárquico "samba do crioulo doido", misturando vocais em inglês e português, ritmos de ska, hardcore e heavy metal desenfreado numa mesma faixa.

O desafio de Bonadio, atuando mais uma vez como filtro criativo, foi estruturar esse turbilhão de ideias em canções compreensíveis e massificáveis, padronizando os arranjos para o primeiro álbum. Ele aproveita o tema para criticar a configuração moderna das gravadoras, que hoje atuam meramente como grandes bancos de fomento voltados ao engajamento digital, sem a figura essencial do diretor artístico curador. Ele afirma com pesar que a liberdade total moderna teve como forte consequência adversa o fim do filtro de qualidade na indústria.

Empreendedorismo, Midas Custom Shop e a Defesa do Som Analógico

Pensando na volatilidade absurda da música, Rick sempre adotou uma postura extremamente cuidadosa com finanças, orientando que músicos nunca deixem "todos os ovos na mesma cesta". Ele diversificou seu patrimônio, investindo em construção civil, imóveis e criando o Midas Custom Shop. Esse e-commerce altamente especializado nasceu para preencher uma enorme lacuna no mercado nacional: a falta de consultoria competente na venda de instrumentos high-end (como guitarras Masterbuilt da Fender, Gibsons lendárias e baterias de altíssimo luxo como as DW e Pearl Masterworks).

Sua paixão pelo rigor acústico transborda numa crítica ferrenha contra os atuais simuladores de amplificadores digitais e impulse responses (IRs). Com um tom bastante polêmico que levantou risadas do apresentador, ele chama processadores de áudio de ponta, como o moderno Quad Cortex, de "verdadeiro lixo", cravando que quem busca o som verdadeiro, pesado e grandioso presente em discos como Imunidade Musical, só o encontrará movendo o ar e pressionando válvulas reais, sentindo a inspiração física e vibracional proporcionada pelo equipamento analógico de luxo.

A Ética de Trabalho do Sertanejo vs. Rock e a Autenticidade da Emoção

No final do episódio, ao debater sobre a dominância atual do gênero Sertanejo frente ao enfraquecimento contínuo do mercado do Pop e do Rock, Bonadio não usa desculpas. Ele aponta brilhantemente que os produtores e cantores sertanejos são indiscutivelmente mais focados, unidos e estratégicos. Enquanto os roqueiros frequentemente se isolam por problemas de ego, intrigas ou vícios nocivos na hora de trabalhar no estúdio (sendo um público notoriamente mais complicado de lidar), a cena sertaneja funciona como um bloco corporativo orgânico, com artistas se ajudando sem vaidade e executando parcerias de alto nível com facilidade ímpar.

Finalizando as perguntas curtas de Mateus Starling, Bonadio retorna ao tópico da tecnologia artificial para uma reflexão de profundo valor: se uma música gerada 100% por uma Inteligência Artificial comove você de verdade, essa emoção possui o mesmo valor? Para Rick, a resposta é um rotundo não. Para ele, emocionar-se com IA é celebrar uma fraude; é regozijar-se pela vitória em uma partida de futebol sabendo que o jogo inteiro estava vergonhosamente comprado e arranjado nos bastidores. A arte precisa do humano, dos erros e dos sentimentos imutáveis para ser, eternamente, válida e verdadeira.