Gilian Borges: Uma Trajetória de Reinvenção e Autoconfiança no Mundo Corporativo
No mais recente episódio do podcast Woman and Health, tivemos a oportunidade de conversar com Gilian Borges, uma profissional cuja carreira é um verdadeiro testemunho de resiliência, curiosidade e a capacidade de se reinventar. Coautora do livro "Mulheres Conselheiras", Gilian é hoje uma respeitada conselheira, empresária e jornalista, atuando em conselhos de empresas de setores variados, como a indústria de cosméticos e instituições de caráter social. Sua trajetória, marcada por carreiras paralelas e transições ousadas, oferece um poderoso exemplo de como a autoconfiança e a vontade de aprender podem pavimentar caminhos inusitados e de grande sucesso.
Das Reportagens à Sala de Conselho: A Jornada de uma Jornalista de Beleza
A história de Gilian começa com um sonho: o de escrever. Movida por essa paixão, ela se formou em jornalismo, uma escolha que, segundo ela, chocou seus pais, que viveram a revolução de 1960 e viam a profissão como algo subversivo. Sua carreira deslanchou na Editora Abril, a maior da América Latina na época, onde revistas eram o equivalente ao Instagram e TikTok de hoje. Foi lá que, em 1990, ela se especializou como jornalista de beleza, um nicho que, naquela época, carregava um enorme preconceito.
Para Gilian, a beleza sempre foi sobre autoestima e autocuidado, nunca sobre vaidade superficial. Ela se dedicou a reportagens de profundidade, onde investigava desde o desenvolvimento de produtos em laboratórios internacionais até a precificação popular no Brasil. Sua abordagem era tão singular que ela se definia como a "Caco Barcelos de saia da beleza", em referência ao famoso repórter investigativo, mergulhando fundo para entender o negócio por trás do produto.
A Mãe Empreendedora e a Jornada de Carreiras Paralelas
Gilian não se limitou ao jornalismo. Sua natureza hiperativa a levou a desenvolver carreiras paralelas simultaneamente. Aos 21 anos, tornou-se sócia de uma escola de inglês, e mais tarde, abriu duas lojas da franquia Casa de Bolos, uma experiência que a fez negociar contratos e desbravar o mercado da alimentação. Esses empreendimentos paralelos, que incluíram a criação de uma agência de comunicação e a proposta inovadora de uma revista digital para um grupo italiano, mostram uma faceta essencial de sua personalidade: a de uma empreendedora nata, que nunca se contentou com uma única atividade.
Conciliar a maternidade com essa vida profissional intensa foi um dos maiores desafios. Gilian revelou que, ao ter o segundo filho, vendeu a escola de inglês para poder se dedicar mais aos filhos. Para dar conta de tudo, criou uma rotina rígida: acordava às 4 da manhã para trabalhar quatro horas, interrompia para cuidar das crianças e retomava o trabalho à tarde, enquanto eles estavam na escola. Essa disciplina, embora cansativa, trazia-lhe uma imensa satisfação, mostrando que é possível, com organização, equilibrar a vida profissional e pessoal.
Leitura de Tendências: O Fio Condutor de uma Carreira Não Linear
O grande elo de ligação entre todas as atividades aparentemente desconexas de Gilian é a leitura de tendências. O jornalismo de revista, que exige trabalhar com meses de antecedência, a ensinou a pensar no futuro e a estudar o comportamento humano e dos negócios. Essa habilidade a levou, em 2008, a um curso em Stanford, onde visitou o Google ainda em seus primeiros anos, o que lhe deu uma visão precursora sobre o potencial do mundo digital.
Foi essa percepção que a fez, ao retornar ao Brasil, modernizar os sites das revistas que dirigia. Mais tarde, em 2015, ela propôs a criação de uma revista exclusivamente digital para o grupo italiano, antecipando a inevitável transformação do mercado editorial. Hoje, essa expertise a transformou em uma especialista requisitada, escrevendo relatórios mensais sobre tendências para uma agência franco-inglesa. Para Gilian, entender para onde o mercado e a sociedade estão se movendo é uma ciência, e essa capacidade de antecipação é o que a credencia para influenciar decisões estratégicas.
O Desafio de Ser Mulher Conselheira e a Importância da Diversidade
Foi durante um curso de tendências que Gilian descobriu o mundo dos conselhos consultivos. Ao se matricular em uma formação para conselheiros, ela teve a confirmação de que sua trajetória fazia sentido para a nova função. Atualmente, ela atua como conselheira em três organizações, contribuindo não apenas com sua visão de futuro, mas também como advisor em comunicação, um papel inovador que vai além do conselho tradicional de olhar para o balanço do passado.
Apesar de seu sucesso, Gilian enfrenta os mesmos desafios de muitas mulheres em posições de liderança. Ela relatou situações em que passou meses sugerindo uma ideia, apenas para vê-la ser implementada após o CEO repetir a mesma sugestão. Para superar essas barreiras, ela destaca a importância da persistência e de "plantar sementes" constantemente em cada reunião. Além disso, ela é uma defensora ativa da diversidade. Em um processo seletivo para um conselho, ela questionou o fato de um mesmo organizador ter criado um conselho anterior composto apenas por homens. Gilian foi categórica ao afirmar que, após seu questionamento, um conselho exclusivamente masculino dificilmente seria formado novamente. Hoje, seu conselho conta com duas mulheres, e ela enfatiza a necessidade de as conselheiras indicarem outras mulheres para ocupar esses espaços, combatendo a estatística de que apenas 15 a 20% das cadeiras em conselhos são ocupadas por mulheres.
Autoconfiança, Risco e a Superação do Burnout
Um dos temas mais profundos da conversa foi a autoconfiança. Gilian se descreve como alguém que não é naturalmente autoconfiante, mas que acredita que pode acreditar. Ela nunca deixa que os pensamentos negativos a paralisem e está sempre disposta a tentar, mesmo que o resultado não seja o esperado, como aconteceu com sua revista digital, que fracassou devido à crise econômica de 2015. Ela encara o fracasso como uma oportunidade de aprendizado, citando o conselho de um primo que preferia contratar alguém que já tivesse errado, pois a chance de acertar na próxima tentativa é maior.
Gilian também compartilhou uma experiência pessoal que a humaniza e a torna ainda mais inspiradora: um princípio de burnout em agosto do ano passado. Ao se dedicar intensamente à organização de um livro coletivo para a associação de conselheiros que preside, ela precisou reconhecer seus limites. Apesar da dor de não conseguir acompanhar o projeto de perto, ela aprendeu a respeitar suas limitações, entendendo que a superação não está apenas em fazer tudo, mas também em saber delegar e valorizar o trabalho do coletivo.
Emancipação e a Gestão Financeira: Uma Lição Tardia
Gilian trouxe uma reflexão valiosa sobre a emancipação feminina, tema de sua dissertação de mestrado em 2005. Naquela época, ela já defendia que a mulher podia cuidar da beleza sem que isso a tornasse fútil ou menos capaz. Essa filosofia se conecta diretamente com a missão do podcast: mostrar que a mulher pode e deve cuidar de sua independência, seja na carreira, seja nas finanças.
De forma surpreendente, Gilian admitiu que sua relação com as finanças pessoais foi um ponto cego em sua trajetória. Sempre focada em empreender e crescer profissionalmente, ela deixou de construir um patrimônio sólido para o futuro. Hoje, com a consciência de que tem 20 anos pela frente para se preparar, ela ouve conselhos de seu filho e de seu consultor financeiro, mas mantém a decisão final. Ela reconhece que investir e planejar financeiramente é um aprendizado que poderia ter começado antes, e seu depoimento serve como um alerta para as mulheres mais jovens que, assim como ela, podem estar dedicadas à carreira, mas negligenciando a construção de sua própria segurança financeira.
Conselhos para a Próxima Geração e o Legado da Autoconfiança
Ao encerrar, Gilian deixou sua mensagem para as mulheres que estão começando suas carreiras. Seu principal conselho é: não esperem estar 100% prontas para arriscar. Ela destaca que as mulheres tendem a esperar estar preparadas para buscar uma promoção, enquanto os homens se arriscam mesmo sem ter certeza. Essa postura de esperar o momento perfeito é um dos maiores limitadores.
Para Gilian, o legado que ela deseja deixar é exatamente esse: a autoconfiança e a crença de que a mulher pode ser e fazer o que quiser, em qualquer área. Seja na beleza, nas finanças, na carreira ou na maternidade, a emancipação vem de quebrar preconceitos, ocupar seu espaço com propriedade e inspirar outras pessoas. Ela conclui que, se conseguir inspirar uma única pessoa, sua missão já terá valido a pena, consolidando sua história como um exemplo de ousadia, resiliência e, acima de tudo, de ser uma mulher verdadeiramente emancipada.