Confissões Consentidas - Ep. 36 - Ary

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Introdução: Quem é Ary?

No episódio do podcast 'Confissões Consentidas', o apresentador Mestre Cruel (Renan) dá as boas-vindas a Ary. A conversa começa com uma descrição visual detalhada: Ary é uma pessoa não binária transmasculina, branca, com cabelo curto e cacheado, usa óculos, tem tatuagens nos braços e no pescoço, está usando uma coleira verde e um macacão preto. Ary se apresenta como uma pessoa nervosa, mas logo se revela uma figura multifacetada: é wikimedista (editora de verbetes e ilustrações para a Wikipedia), artista, designer, e ativista pelas causas das pessoas com deficiência, LGBT e fetichista.

A Perspectiva de um Wikimedista: O Coletivo em Vez do Individual

Ary traz uma perspectiva única sobre a pergunta disparadora do podcast ('O que eu leria se jogasse seu nome na Wikipedia?'), já que ele é uma das pessoas que edita a enciclopédia. Ele conhece as regras: não se pode criar um verbete sobre si mesmo, e é preciso ter notoriedade histórica. Ao refletir sobre o que gostaria de ser lembrado, Ary conclui que não quer ser lembrado individualmente, mas sim por lutas coletivas – pela causa das pessoas com deficiência, pela causa LGBT e pelo mundo fetichista. Ele acredita que o coletivo tem muito poder e que gostaria de ser lembrado como uma classe de pessoas, não apenas como um ser individual. Mestre Cruel ecoa esse sentimento, dizendo que o podcast tem exatamente essa função: mostrar que nenhuma experiência é individual, e que o individual abrange o coletivo.

Infância no Interior do Rio Grande do Sul: Uma Cidade de 1.500 Habitantes

Ary nasceu em uma cidade de apenas 1.500 habitantes no interior do Rio Grande do Sul – um lugar que ele brinca que 'dá um prédio de São Paulo'. A cidade é puramente voltada para a agricultura, com famílias tradicionais e católicas fervorosas. Ary foi criado como a filha e neta mais velha, colocado em um lugar de referência que foi 'totalmente quebrado' conforme ele foi crescendo e se tornando o que a família chamava de 'criança viada' ou, no termo local, machorra – uma menina com características masculinas.

Apesar da expectativa de feminilidade, Ary foi criado em uma família de mulheres agricultoras fortes, que pegavam na enchada, trabalhavam com leite e vacas, e o ensinaram a cortar lenha, tirar leite e carnear porco ainda muito cedo. Essa ambiguidade criou um 'monstro' que a própria família não entendia completamente. Além disso, Ary sofria muito bullying na escola – uma mistura de ser autista e LGBT. Uma tia, professora, sentou com ele um dia e disse: 'Sua família é muito sincera, realmente beleza você não tem. Pessoas que não são bonitas precisam ser inteligentes'. Foi a partir desse conselho duro que Ary abraçou o estudo e a arte como lugares de acolhimento.

A Descoberta da Identidade de Gênero e a Transição

Ary sempre foi uma criança que não seguia padrões – brincava no barro, ajudava os avós, não tinha limitações de brincadeiras. Mas foi na pré-adolescência, quando as cobranças sociais (namorado, beijos) começaram, que as coisas se tornaram mais difíceis. Ele não era uma pessoa desejada por sofrer bullying, e isso o levou a estudar feminismo com 12 ou 13 anos.

Ele passava o recreio escondido em uma árvore oca, em pneus abandonados ou em um cantinho entre as prateleiras da biblioteca, lendo. Na escola pública (a única da cidade), ele leu clássicos como Kafka e, em meados de 2010-2012, teve contato com livros sobre feminismo. Um quadrinho chamado 'Retalhos' foi um clique: ele inspirou Ary a desenhar e a se questionar sobre religiosidade e identidade. Aos 13 ou 14 anos, ele escreveu uma carta de 5 ou 6 páginas para os pais, contando sobre suas questões de gênero. Eles leram e 'não falaram nada até hoje'. Ary foi se entendendo sozinho nesse processo.

Ele se identifica como uma pessoa trans não binária e ressalta que não deveria existir nenhum limitante em relação ao corpo – é apenas uma pessoa que experimenta o corpo até onde ele pode levar. Ele também fala sobre sua dificuldade em colocar nomes nas coisas e se vê mais como um experimentador do que como um artista ou qualquer outra categoria fixa.

O Fetichismo: Das Brincadeiras de Infância à Descoberta do BDSM

Ary identifica traços de fetichismo desde a infância, mesmo sem nomeá-los. Ele brincava com os primos de jogar pedras um no outro com estilingues – uma brincadeira violenta. Por causa do autismo, ele sempre teve o corpo muito rígido e sentia muita dor, então pedia para seu irmão mais novo fazer massagem... pisoteando em cima dele. Mais tarde, ele descobriu que essa prática tem um nome: trampling.

Na vida adulta, o fetichismo entrou de forma mais estruturada após um relacionamento longo e fechado, onde a questão sexual sempre foi difícil. Uma amiga, conhecendo sua neurodivergência, enviou artigos mostrando que pessoas neurodivergentes têm facilidade com o BDSM porque ele tem regras específicas e combinados. Ary, como um bom nerd, começou a estudar o assunto. Ele fez a proposta para a pessoa com quem se relacionava, que não gostou da ideia. Pouco tempo depois, o relacionamento terminou, e ele viu ali a chance de experimentar.

Sua primeira sessão de BDSM foi com alguém que, depois, ele descobriu não ter boas referências – não foi uma experiência legal, e ele teve um drop danado, pensando que aquilo não era para ele.

A Virada: A Performance no Mr. Fetiche 2026

Já em São Paulo, Ary trabalha na mesma instituição que Dandara, uma artista e amiga fetichista. Em um café, Dandara o convidou para performar na semifinal do Mr. Fetiche 2026. A proposta era uma performance sobre 'graças' – um ano de muitas vitórias para a comunidade trans, com pessoas conseguindo conquistas relevantes. Ary, que estava receoso, foi de máscara (ninguém o conhecia) e fez a performance – uma forma de conhecer o meio fetichista sem ir sozinho. Ele quase afogou Dandara na performance, mas ela gostou. Essa foi sua segunda experiência com BDSM, e foi um sucesso.

O Encontro com Dani e o Início da DS

Ary já conhecia Dani (seu parceiro atual) como fotógrafo da cena fetichista. Em um primeiro encontro, Ary deu a Dani um livro de um fotógrafo que trabalha com pessoas trans, não monogâmicas e fetichistas. Depois de assistir à cena de Dani na semifinal do Mr. Fetiche, ele entendeu a dimensão do que Dani fazia. Eles saíram algumas vezes, e em um momento, após uma noite em que Dani foi fotografar uma festa e foi para a casa de Ary, ele olhou para Ary e disse: 'Eu quero te encaular'. Ary deu uma 'tela preta', foi lavar a louça para pensar, e depois negociaram. 'Aqui estamos', resume Ary.

Needle Play: A Prática que Virou Referência

Na DS, Ary é submisso (e também switcher, mas com pouca experiência). Uma de suas principais práticas, e pela qual está se tornando conhecido, é o Needle Play (brincadeira com agulhas). A primeira sessão com agulhas foi 'de leve' – Dani tinha experiência com cerca de 12 ou 13 agulhas em uma sessão. Ary, que é bastante tatuado e nunca teve problemas com perfuração, aguentou 37 agulhas na primeira vez, formando uma mandala nas costas. Depois, fizeram 57 agulhas sobre a cicatriz da mastectomia de Ary. Eles estão agora experimentando fazer desenhos transpassando as agulhas. Ary ressalta os cuidados: é uma prática de RACK (Risk-Aware Consensual Kink), e não de SSC (Safe, Sane, Consensual). Envolve sangue, risco de contaminação, e requer exames, agulhas descartáveis, álcool e conhecimento técnico. 'Não é simplesmente pegar a agulha de crochê da sua avó e enfiar na pele', alerta.

A Máscara de Rato: Simbolismo e Resistência

Ary usa uma máscara lindíssima de rato (Badwolf) em suas performances. A escolha do pet não foi aleatória: Dandara, que tem uma personagem guará, o incentivou a escolher um animal. Ary não se via como cachorro (não queria latir) e escolheu o rato por seu simbolismo. Os ratos são animais rejeitados socialmente, e também remetem ao rato de laboratório – um animal experimental. Isso dialoga com a experiência de pessoas trans e com deficiência, que muitas vezes são tratadas como cobaias ou são representadas na literatura como ratos (como no quadrinho 'Maus', que representa judeus como ratos). A máscara de rato é, portanto, um símbolo de resistência e de luta coletiva.

Jogo Rápido: Perguntas e Respostas

  • Cor: Verde.
  • Medo: Quando morrer, sua história não ser respeitada.
  • Sonho: Ter suas artes em uma galeria um dia.
  • Superpoder: Voar.
  • Superpoder merda: Flutuar só um pouquinho (voar baixo, igual galinha).
  • Ator para interpretá-lo no cinema: Elliot Page (admira sua história como pessoa e artista).
  • Indicação de filme: 'Perfect Blue' – uma animação em rotoscopia asiática que o fez se formar em animação.
  • Pessoa que admira: O conjunto de artistas independentes trans que conhece, que deveriam ter seus trabalhos mais valorizados.
  • Ary por Ary: Alguém que precisa estar sempre em movimento para continuar vivo, e sortudo também.

Considerações Finais e Onde Encontrar Ary

Ary deixa seu Instagram: @ousou (Ary com Y), onde publica suas artes, quadrinhos e algumas agulhas de vez em quando. Mestre Cruel reforça o convite para que o público curta, comente, compartilhe, siga o podcast (@confissoesconsentidas e @dommcsp) e, em caso de queda das redes, acesse o site mestrecruel.com ou a rede social fetichista Kinggram. O episódio termina com a despedida 'Ciao' e a música de encerramento.