AÇÕES, FIIs e RENDA FIXA: PROF MIRA e MARILIA FONTES - Irmãos Dias Podcast #289

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Introdução e Abertura do Podcast

O episódio do Irmãos Dias Podcast foi transmitido ao vivo diretamente de Santa Catarina, com apresentação de André, que recebeu dois convidados presencialmente no estúdio em São Paulo: Marília, CEO da Nord Research, e o Professor Mira. A conversa abordou os acontecimentos recentes na bolsa de valores, economia, política e oportunidades de investimento. Carol Dias não participou devido a um problema de saúde.

Antes de iniciar o debate, foram mencionados os patrocinadores do episódio: a Coinbase, maior corretora do mundo em criptomoedas, que oferece R$ 20 para novos usuários ao abrirem conta gratuita e comprarem R$ 10 em qualquer criptomoeda, com o valor caindo na conta em Bitcoin após 48 horas; e o site Investidor 10, gratuito, que auxilia no estudo de ações e fundos imobiliários e na consolidação de carteiras de investimento.

Insegurança Política e o Impacto no Mercado

A conversa começou com a notícia de que Flávio Bolsonaro se autodeclarou presidente do Brasil em uma carta divulgada na imprensa enquanto estava nos Estados Unidos. Marília avaliou como preocupante, pois adiciona um terceiro turno às eleições e traz volatilidade ao mercado. Segundo ela, o Brasil precisa de pacificação e de foco no ajuste fiscal, que será extremamente desafiador.

O Professor Mira destacou a visão do investidor estrangeiro, que faz preço na bolsa e nos títulos. Ele observa um cenário de confusão, com discussões sobre golpe e tentativa de golpe, o que gera um prêmio de risco maior e mais volatilidade. No entanto, como Lula ganhou com quase 5 milhões de votos de diferença (cerca de 10% do total), é difícil sustentar a discussão sobre um terceiro turno, e a volatilidade tende a reduzir com o passar das semanas.

Marília acrescentou que o principal problema é a instabilidade jurídica. Ela citou que o STF frequentemente decide questões que deveriam ser resolvidas pelo Congresso, gerando insegurança. Um professor do mestrado dela, que trabalha no Senado, explicou que as leis são feitas com brechas para serem aprovadas, e metade dos envolvidos faz de um jeito e metade de outro, levando à judicialização das decisões. Isso acaba na mão do STF, um colegiado não eleito pela população, que decide as leis que os políticos eleitos deveriam criar. Para uma empresa no Brasil, isso gera dúvidas sobre qual lei seguir.

Sobre uma possível interferência de Donald Trump nas eleições brasileiras, Mira considerou difícil. Embora Trump tenha uma relação melhor com Flávio, ele não tem uma relação ruim com Lula. O Brasil é um país muito grande para ser invadido ou dominado diretamente; a maneira de influenciar seria indireta, como tentou com tarifas. Trump já tem seus próprios desafios, como a inflação americana, eleições de meio de mandato e questões com o Irã, o que dificulta comprar uma briga por causa do Brasil.

Cenário da Bolsa de Valores e Perspectivas

Após as eleições, a bolsa de valores despencou, abrindo com queda de 18% na segunda-feira e finalizando em 14%. O dia seguinte também foi ruim para ações e fundos imobiliários. Marília explicou que o que fez o mercado melhorar até o segundo turno foi a perspectiva de mudança de política econômica, com o pré-fixado 2031 chegando a 15% no começo do ano. Agora, com a clareza de que não haverá mudança, o mercado fica inseguro sobre o ajuste fiscal. Os investidores que financiam a dívida pública param de financiar, e o Tesouro teve que recomprar títulos e suspender leilões para deixar o mercado funcional. O cenário é de juro mais alto por mais tempo, câmbio pressionado e uma bolsa que não vai performar bem, com small caps sofrendo por mais quatro anos.

Mira reforçou que nada mudou no Brasil, nem o presidente. O que houve foi uma perspectiva de valorização com a campanha de Flávio, que subiu a bolsa dos 176.000 pontos em agosto. Com a vitória de Lula, voltamos ao cenário anterior. Ele explicou que o problema não é o tamanho da dívida, mas a velocidade em que ela cresce e a taxa de juro. O custo da dívida (quanto se paga de serviço) menos o crescimento da economia (cerca de 2%) gera um delta preocupante. Metade da dívida é Tesouro Selic (LFT), com custo alto, e em alguns anos a dívida pode dobrar. O mercado olha com preocupação o ritmo de crescimento, pois se o governo continuar com déficit, a dívida cresce ainda mais rápido.

Mira comparou a situação a uma pessoa física que pega empréstimos com taxas cada vez maiores: consignado, CDC, cartão de crédito, cheque especial (300% ao ano). Se o Tesouro rola a dívida a taxas maiores, fica insustentável. Se o governo mostrar responsabilidade fiscal, o mercado aceitará emprestar a taxas menores. O Japão tem dívida de 200% do PIB, mas o custo do dinheiro é baixo e o país cresce, sustentando a dívida. No Brasil, mesmo com dívida de 80% do PIB, se ela cresce rapidamente, chega a 100% ou 200% em pouco tempo. Mira acredita que o governo vai sinalizar ajuste fiscal, gastando menos porque não tem opção. O modelo de incentivo ao consumo do PT se exauriu, com desemprego em mínimas históricas e sem ganho de produtividade. Se continuar injetando dinheiro, gera inflação, o que desagrada a população, inclusive quem votou no governo, e cria espaço para pedidos de impeachment. O governo vai fazer alguma coisa, seja split payment, aumento de impostos ou redução de gastos, para não ficar insustentável.

Comunicação do Governo e a Visão da Esquerda sobre o Mercado

Questionados se Lula, por ser seu último governo e estar em idade avançada, viria mais moderado ou radical, e se deveria se comunicar com o mercado ou sinalizar o ministro da Economia, Marília respondeu que ele não valoriza o papel da bolsa de valores, uma visão da esquerda como um todo. Ela explicou que o mercado financeiro é um mercado de financiamento: pessoas com recursos financiam empresas e negócios. Através da bolsa, financia-se novas empresas na vanguarda do crescimento, que muitas vezes não têm capital próprio e, se forem ao banco, encontram capital caro. Nos Estados Unidos, 80% do capital é financiado pela bolsa e 20% pelos bancos; no Brasil é o inverso. A esquerda lutou contra o capitalismo e o empreendedor, resultando em 5 anos sem IPO. A bolsa brasileira tem praticamente as mesmas empresas de 20 anos atrás, enquanto S&P e bolsa chinesa têm novas empresas e setores. Marília não acha que ele vai moderar; o discurso do "nós contra eles" ressoa na população, e ele ainda está surfando o capital político, especialmente com Flávio Bolsonaro fugindo do Brasil. Ele só vai se posicionar quando for obrigatório.

Mira concordou, acrescentando que existe um descolamento da realidade: as pessoas acham que se o rico perdeu dinheiro na bolsa, é bom. Mas a bolsa é o mercado da economia real, com empresas como Camil (arroz e feijão), Petrobras (gasolina), empresas de infraestrutura, pedágio, aluguel de carro e hospitais. Se essas empresas vão mal, é porque os investidores acreditam que a economia futura não vai bem. O pensamento correto deveria ser "como todo mundo ganha?", e não "se você perder, eu estou feliz".

Juros Futuros e Seu Impacto na Economia

Marília explicou que o juro futuro (curva de juro futura) dá o preço dos empréstimos para cada ponto futuro. Se a taxa sobe, os empréstimos de toda a economia ficam mais caros, começando pelo financiamento do governo (considerado livre de risco). Sobre a taxa do governo, coloca-se um spread de crédito para empresas, famílias e financiamento imobiliário. Se o governo pega emprestado a 15%, o financiamento imobiliário fica em 16% ou 17%; se a taxa do governo sobe para 20%, o financiamento vai a 22%. Isso torna consumo e investimento mais caros, reduzindo ambos e possivelmente gerando recessão. Alguns economistas já preveem recessão para 2027. Quando o juro é baixo, como em 2019 (Selic a 6%), o empréstimo fica em 9%, taxa razoável para financiar produção e consumo.

Mira complementou que o empresário olha o juro futuro para decidir se investe ou fica quieto. Se a dívida vai ficar mais cara, é mais fácil não tomar empréstimo e comprar título do governo, ganhando 15% sem risco. Muitas empresas não têm margem de lucro grande; se a margem é 25% e a dívida custa 15%, o risco do negócio não compensa. O Walmart, maior supermercado do mundo, tem margem de 4%; o normal do varejo é 2% a 5%. Com custo de dinheiro a 15%, não há como dar certo, por isso há tantas recuperações judiciais no varejo (Magazine Luiza caiu 60%). O juro futuro impacta negativamente a economia porque o crédito é o que gira a economia. Não dá para depender apenas do governo financiar o crescimento, pois ele é limitado e precisa tirar dinheiro dos impostos, que têm um teto (curva de Lafer). A função do governo é investir em saúde, educação e infraestrutura, não estímulo econômico.

Melhores Oportunidades em Renda Fixa

Marília afirmou que definitivamente não se deve olhar para pré-fixado nesse momento, pois as taxas podem subir mais e gerar prejuízo de marcação a mercado. Ela gosta de pós-fixado apenas para controle de risco, mas se houver inflação, pode dar juro real negativo. Por isso, prefere títulos IPCA+, que garantem um juro real contratado (hoje em torno de 7,5% a 8% ao ano) se levados a vencimento. A combinação ideal é pós-fixado com IPCA+, com vencimento mais curto para ter previsibilidade. Mira concordou, mas defendeu que o pré-fixado funciona bem para objetivos específicos: se você precisa dobrar o capital em 4,8 anos (15% ao ano) para comprar um carro, o pré-fixado é perfeito. O pós-fixado é para quem não sabe quanto vai precisar, mas tem garantia. A carteira de pós-fixado com IPCA+ é defensiva para aposentadoria, não para comprar algo específico. É importante saber o objetivo da carteira: para proteger patrimônio, IPCA+ com percentual do CDI ou 100% CDI funciona; para objetivos específicos com prazo definido, 100% CDI ou pré-fixado é melhor. O IPCA+ não é bom para juntar dinheiro X, pois não se sabe a inflação futura.

O Que Fazer Diante da Queda da Bolsa

Diante do medo e da surpresa com a queda das ações e alta dos juros futuros, a orientação de Mira foi: "foge para as colinas" (brincadeira), mas na verdade fazer o que fazia antes, pois o governo não mudou. O Brasil é o mesmo país de baixa produtividade e que não taxa dividendos. Diferente dos EUA, que taxam dividendos, o Brasil estimula a distribuição de dividendos e não o crescimento. As empresas não pensam em crescer, exceto os corajosos. Por isso, setores como elétricas, saneamento (que repassam inflação), bancos e seguradoras andam bem. Empresas defensivas e pagadoras de dividendos continuam interessantes. O Brasil continua sendo um país de renda fixa e de empresas voltadas à distribuição de dividendos. Para crescimento, deve-se buscar fora do Brasil: Bitcoin, mercado americano, asiático, inteligência artificial, via ETFs como Chip 11, GPUs, alug 11. A produtividade é o motor do crescimento de longo prazo, e esses mercados têm mais capacidade de crescer. O mercado brasileiro vai ser juros e dividendos; o IDIV bate o Ibovespa.

Marília acrescentou que todo investidor deveria ter pelo menos 20% do capital em dólar. Se fosse americano, australiano ou francês, não teria 100% dos investimentos no Brasil. O brasileiro consome produtos globais (iPhone, computador), e o Brasil é desindustrializado, com cesta de consumo dolarizada. Ter parte da carteira lá fora é excelente para aposentadoria, especialmente com a dívida desafiadora. Na Nord, pelo menos 20% do patrimônio dos clientes está lá fora, com planos de aumentar para 30%. Para quem precisa de retorno de 15%, faz sentido pensar em crescimento no mercado americano (média de 20% ao ano) e no IDIV (pouco abaixo de 15%). Uma carteira 50% crescimento externo e 50% crescimento interno é interessante. O ETF SPXI (S&P 500 com hedge) protege da variação cambial. O dólar nunca será baixo no Brasil devido à baixa produtividade; pode cair a R$ 5,50, mas não a R$ 2 ou R$ 3. Dolarizar não é porque o Brasil vai virar Venezuela; se você acha isso, deve vender tudo e ir embora. O grande motivo de dolarizar é expor o patrimônio a mercados que crescem mais. O dólar caro é aquele que você não tem.

Possível Taxação de LCI, LCA, CRI e CRA

Sobre a notícia de que o governo estuda cobrar IOF sobre LCI, LCA, CRI e CRA via decreto presidencial, Marília explicou que o mercado imobiliário sangrou, com construtoras caindo mais de 5% e 6%. Se taxar a LCI, o funding fica mais caro e o financiamento imobiliário também. O lado bom é que o governo tenta arrecadar mais e controlar o fiscal; o lado ruim é que penaliza setores como agro e imobiliário. O desejo do governo seria cobrar imposto de renda sobre esses títulos, pois arrecadaria de 30 a 40 bilhões. A isenção existe para incentivar esses mercados. Mira comparou a taxação a uma quimioterapia: ruim, mas necessária. Ele acha que o governo vai aumentar impostos, pois Lula gastou mais de 400 bilhões em incentivos para se reeleger e não vai cortar. O aumento pode ser via decreto (canetada), mas não será só isso.

Sobre o impacto nos fundos imobiliários, Marília explicou que os de tijolo são precificados com o juro de 10 anos (Tesouro IPCA+ 10 anos) mais um prêmio de risco. Se o Tesouro sobe, o desconto sobre o fluxo de dividendos aumenta, e a cota cai. Os de papel comparam o dividendo com a renda fixa; se o CDI sobe, exigem mais dividendo, e a cota cai. A tributação das LCI e CRI reduz o retorno desses títulos, mas se não for grande, o impacto não é significativo, pois a alta da Selic e da inflação pode compensar. No entanto, todos os ativos de bolsa são reprecificados com risco; o prêmio de risco exigido aumenta, e o preço cai. Mira reforçou que a renda fixa é a "mãe da bolsa", usada para precificar a renda variável, mesmo sendo conceitos diferentes (renda variável é eterna, renda fixa tem vencimento).

Marília não é totalmente contra a tributação dos isentos, pois eles criam distorções: fundos de debêntures de infraestrutura drenaram recursos de outros investimentos, tornando-os inviáveis por competirem sem igualdade. Tributar e deixar todos iguais é bom, mas traz instabilidade no curto prazo, com redução de funding e aumento de custo para as empresas. Mira lembrou que quem ganha mais de 600.000 reais por ano de dividendos já é tributado, e para muita gente com mais dinheiro, um CDB (que paga imposto de renda) já é melhor que uma LCI, pois o imposto pago conta na base de cálculo do imposto devido. A pessoa física precisa de um tributarista para entender o manicômio tributário brasileiro.

Setores Que Abrem Oportunidades

Sobre setores que caíram de forma exagerada e abrem oportunidades, Marília afirmou que small caps caíram muito, mas não usaria a palavra exagerada, pois o setor vai sofrer com instabilidade e juro alto, como desde 2021. O Ibov Small Caps caiu 19% enquanto o Ibov subiu 30% a 40%. Ela não superalocaria agora só porque caiu; prefere empresas defensivas, de dividendos, menos dependentes da economia, do consumo e da estabilidade. Mira concordou que small caps são as mais impactadas, pois têm maior potencial de crescimento e, portanto, maior expectativa e prêmio de risco. Empresas defensivas como bancos (que caíram bastante), elétricas, saneamento e seguradoras (que não caíram) tendem a ser as melhores oportunidades. Ele sugere olhar o preço/lucro (PL): a bolsa chegou a PL 8 e agora deve estar em 8 ou 9. PL abaixo de 8 para empresas estáveis é interessante. Setores não cíclicos como bancos, elétricas, saneamento e seguradoras, e não varejo, consumo ou commodities. Vale está com preço interessante como boa pagadora de dividendos; Petrobras está nas máximas. É um excelente momento para estudar empresas mais seguras, pois é mais fácil acertar do que errar. A bolsa não vai recuperar para 200.000 pontos na semana que vem, talvez não chegue a 180.000 nos próximos dias. Historicamente, após circuit breaks, 12 meses depois a cotação estava maior; a expectativa é que em 12 meses a bolsa esteja acima dos 176.000 pontos.

Análise do Setor Bancário: Banco do Brasil e Outros

Sobre o Banco do Brasil, que caiu muito, Marília afirmou que é "aquele barato que ainda é caro", pois o fundamento está complicado. A inadimplência subiu muito, e eles não limparam completamente o balanço; isso deve seguir por pelo menos dois trimestres. Como são muito focados no agro, que está complicado (El Niño, chuva e seca), ela não entraria ainda. Santander e Bradesco também reportaram aumento de inadimplência. Com juros subindo, a inadimplência tende a puxar para cima. Mira disse que tudo é preço: no leilão de abertura, Banco do Brasil estava a R$ 12,30, e ele compraria muito feliz a R$ 12; a R$ 17, tem que fazer mais conta; a R$ 24, estava acima do preço teto. O Banco do Brasil não vai acabar (mais de 200 anos, já quebrou várias vezes e o governo injeta dinheiro), mas o agro está complicado. Existem bancos mais interessantes: Bradesco (aumentou o lucro, mas também a inadimplência, e aumentou o juro do crédito imobiliário) está mais interessante que o Banco do Brasil. Itaú é uma aposta mais segura, sempre superando. BTG caiu bastante e é um banco de crescimento, que sempre supera expectativas; ele queria ter comprado a R$ 50, mas pulou para R$ 60 e poucos. Nubank é um banco que ele gosta, com crescimento global interessante, mas tem que fazer conta. O mais conservador é o Itaú. Basa (Banco da Amazônia) tem bons indicadores fundamentalistas, mas liquidez ruim, por isso não recomenda. É um small cap.

Fundos Imobiliários: Cenário e Estratégias

Sobre os fundos imobiliários, Marília explicou que os de tijolo são precificados com o juro de 10 anos (Tesouro IPCA+ 10 anos) mais um prêmio de risco. Em 10 anos, o prédio precisará de retrofit (reforma), assim como um imóvel residencial precisa de marcenaria nova. Por isso, usa-se a janela de 10 anos. O valor justo da cota é o fluxo de dividendos descontado a valor presente por essa taxa. Se o Tesouro IPCA sobe, o desconto aumenta e a cota cai. Os de papel comparam o dividendo com a renda fixa; se o CDI sobe, exigem mais dividendo, e a cota cai. O cenário futuro depende do juro futuro, que deve continuar alto, então os fundos imobiliários devem continuar apanhando por um bom tempo. É oportunidade para comprar com dividendo alto (mais de 1% isento de imposto de renda) para geração de renda. Marília defende que o fundo imobiliário é um instrumento de geração de renda imediata; se não for esse o objetivo, não deveria investir. Para reinvestir dividendos e receber daqui a 10 anos, é mais fácil investir em ações, que têm dividendo e crescimento. O fundo imobiliário é obrigado a distribuir no mínimo 95% do dividendo, restando no máximo 5% para crescer, o que é muito pouco. É matemática: payout e taxa de retenção. O crescimento depende do mercado imobiliário, que não cresce no Brasil. Para renda imediata (ex.: desempregado), pode ser all-in em fundo imobiliário.

Sobre Fiagro, Marília nunca gostou e continua não gostando, especialmente com a inadimplência do agro. Você não investe no agro, apenas financia. Para montar uma carteira, ela sugere 50% em papel e 50% em tijolo. No tijolo, comprar os três maiores de cada setor: shopping, lajes corporativas, renda urbana e logístico. No papel, olhar os maiores (KNP, KNCR) e as maiores gestoras (Kinea, Pátria). Não será a melhor carteira do mundo, mas não dará problema. Para seleção mais apurada, é preciso uma casa de análise como a Nord ou a comunidade Mira.

Carteira de Renda Fixa para se Proteger de Recessão

Para se proteger de uma possível recessão no Brasil, Marília sugeriu uma carteira de 2/3 em pós-fixado e 1/3 em IPCA+ curto (2032). Evitaria pré-fixado e, principalmente, crédito privado. O mercado de crédito privado está extremamente ilíquido; quem comprou CRI, CRA ou debênture há 2 ou 3 anos e tenta vender agora não consegue, e o deságio é gigante. Com juros altos por mais tempo, as empresas terão dificuldade de se refinanciar, e a liquidez piora. É um cenário que premia quem está líquido, podendo mudar a carteira facilmente. Focar em títulos públicos: 2/3 pós-fixado e 1/3 IPCA+ 2032, ou metade/metade.

Sobre o caso do Banco Master, que assustou investidores de renda fixa, Marília orientou fazer análise de crédito. Para quem não sabe fazer, investir nos top five, nos bancos mais seguros, e não em bancos médios. É importante diferenciar os bancos: os ligados ao agro (Banco do Brasil) sofrem com inadimplência; os ligados a corporate (empresas pequenas e médias) sofrem mais (Bradesco); os ligados a empréstimo de veículos e crédito pessoal sofrem; os ligados a grandes empresas sofrem menos. O FGC já está baqueado, com caixa prejudicado pelo Banco Master; o risco é real. Mira acrescentou que o caso do Digima e do BRB ainda está em aberto; o governo de Brasília provavelmente socorrerá o BRB, e todos pagamos a conta. Os seis bancos "inquebráveis" são o trio BBB (Bradesco, Banco do Brasil, BTG) e Santander, Caixa e Itaú, que são do S1. Fora esses, é segurar na mão do FGC. O Nubank, com 140 milhões de clientes, o governo não deixaria quebrar; ele considera quase inquebrável. XP está no S2 e tende a ir para o S1. Para o leigo, ou é o FGC ou os bancos inquebráveis. Marília já usou o FGC duas vezes nos últimos 4 anos e lembrou que a cobertura é o valor investido mais os juros até a data da intervenção, então deve-se investir bem menos que 250.000.

Risco do Tesouro Direto e a Possibilidade de Calote

Sobre o risco de o governo não pagar o Tesouro Direto, Marília considerou baixo. Historicamente, houve apenas um caso (Rússia) de governo não pagando dívida na própria moeda. Quando o governo não consegue pagar, ele emite mais moeda, gera inflação e paga a dívida. O calote viria muito mais por inflação e por manter a Selic baixa do que por não pagar. O risco de inflação mais alta é real, por isso a proteção com IPCA+. A inflação ajuda o governo, pois ele arrecada mais imposto; é ruim para a população e boa para o governo. É mais fácil ter inflação e Selic baixa para reduzir o custo da dívida do que um calote. Mira lembrou que a situação atual é muito melhor que a década de 80, com crises, planos e troca de moeda. Já foi muito pior. Sobre o confisco de investimentos, tanto se Lula ganhasse quanto se Flávio ganhasse, a narrativa é a mesma e não faz sentido. É proibido pela Constituição, e mudá-la exigiria dois turnos na Câmara e no Senado, o que ninguém aprovaria. O governo tem maneiras mais sofisticadas de se apropriar do dinheiro: inflação mais alta e aumento de impostos.

Trump, Imóveis e o Sonho da Casa Própria

Trump declarou que não vai se envolver na questão brasileira, evitando apoiar Flávio Bolsonaro após a carta. Mira comentou que Trump tem problemas mais concretos, como a guerra com o Irã e as eleições de meio de mandato, e não vai gastar tempo com o Brasil.

Sobre a compra da casa própria, Marília afirmou que é uma discussão difícil, pois envolve sonho. Se a casa é a que você quer, perto da escola das crianças, não é uma decisão puramente financeira. Financeiramente, é uma época ruim: juro mais alto, imóveis menos estimulados, preços não devem subir muito. É um setor melhor para quem quer comprar do que para quem quer vender. A liquidez será muito valorizada; depois de comprar a casa, você perde flexibilidade e se coloca em uma dívida de 30 anos. Não é o momento financeiramente, mas o sonho é à parte. Mira acrescentou que financiar na Minha Casa Minha Vida (6% a 7% ao ano) não tem o que discutir, mas há limite de renda e valor do imóvel. Para imóveis acima de R$ 750.000 ou R$ 1 milhão, o aluguel tende a ser 0,3% a 0,4% do valor do imóvel, enquanto o financiamento é cerca de 1,2% ao mês. O aluguel é mais barato. O financiamento se justifica se você acredita que o imóvel vai valorizar (ex.: metrô chegando). Imóveis, no longo prazo, apenas cobrem a inflação; não se deve esperar valorização além disso. Imóveis de hoje não serão os super imóveis novos de amanhã; eles depreciam. Prédios antigos sem carregador elétrico já valem menos. Regiões valorizadas mudam com o tempo. É preciso estudar cada caso, com dados estatísticos. Mira gosta do mercado de leilão de imóveis, que tende a bombar com o endividamento das famílias. Ele arremata imóveis com 50% a 70% de desconto, financiados, com 5% de entrada. Tudo depende do preço de compra.

Considerações Finais e Recomendações

No encerramento, Marília deu o recado final: os investidores devem montar uma carteira com premissas. A liquidez será o ativo mais valorizado dos próximos 4 anos, para permitir mudanças na carteira e aproveitar oportunidades. Reforçou a importância de ter pelo menos 20% do capital fora do Brasil, em economias mais estáveis, com retorno previsível e participação no crescimento mundial e na vanguarda tecnológica. Para quem está começando, BDRs ou ETFs de BDRs dão exposição dolarizada sem a complicação de declarar imposto de renda e pagar DARF. Para patrimônios acima de R$ 1 milhão ou R$ 5 milhões, vale a pena mandar dinheiro para fora para acessar uma gama maior de produtos (small caps, fundos diversificados, ETFs irlandeses com benefício fiscal). A volatilidade será alta por decisões políticas e econômicas, dependendo de um ajuste fiscal difícil. Flexibilidade é importante.

Mira finalizou com "o Brasil de sempre": juros altos e empresas pagadoras de dividendos são as melhores opções. Small caps não andam bem com juro alto. O Brasil é exportador de juros e commodities, mas as commodities são cíclicas e exigem saber o momento (Vale está barata, Petrobras está na alta; espera-se que o petróleo caia, pois acima de US$ 110 é ruim para o mundo). O Brasil é juros e empresas resilientes, dividendos e crescimento. O crescimento deve ser buscado no mercado externo, com BDRs e ETFs. Quem tem mais grana naturalmente investe lá fora, pois viaja, fala outras línguas, tem dupla nacionalidade, filhos estudando fora, imóveis no exterior. Quem tem pouca grana pode dolarizar com ETFs e BDRs, expondo-se a mercados de maior crescimento. Também é possível investir em criptomoedas (Bitcoin), com expectativa de que o bear market esteja terminando e comece um novo ciclo de alta. Ouro é defensivo, mas não é o favorito. O recado é ter outras coisas que não dependam só da economia local.