Diversificação Internacional: O Caminho para Proteger e Multiplicar o Patrimônio Familiar
No episódio mais recente do podcast Women and Wealth, as apresentadoras Marina Gonçalves e Marina Seixas receberam duas especialistas de peso para discutir um tema cada vez mais relevante para as famílias brasileiras: a diversificação internacional de patrimônio. Juliana Burger, advogada e sócia da área de Wealth Planning do escritório PGBR Advogados, e Daniele Rotondo, especialista em imóveis nos Estados Unidos pela Celebrity Realty, compartilharam suas vastas experiências e conhecimentos sobre como proteger, estruturar e transmitir patrimônio além das fronteiras brasileiras. A conversa abordou desde a importância da diversificação de risco até as nuances da aquisição de imóveis, planejamento sucessório e o papel crescente das mulheres nesse cenário.
Carreiras em Transição: Da Advocacia e Publicidade ao Mercado Internacional
Para iniciar, as convidadas compartilharam suas trajetórias profissionais. Juliana Burger, que sempre atuou na área de wealth planning, destacou que se tornar sócia do escritório PGBR Advogados não foi uma mudança brusca, mas sim um passo natural em sua carreira. Como sócia, ela ganhou uma visão mais estratégica, podendo entender não apenas a solução para os problemas dos clientes, mas também a raiz das questões, agregando muito mais valor ao seu trabalho.
Já Daniele Rotondo construiu sua carreira nos Estados Unidos, onde vive há mais de 20 anos. Formada em publicidade e propaganda no Brasil, foi convidada para trabalhar nos EUA coordenando uma equipe de vendas bilíngue. Após uma década, migrou para o mercado imobiliário, atraída pelo potencial e pela crescente demanda de brasileiros que desejam dolarizar seu patrimônio. Hoje, ela atua como uma consultora que oferece um serviço de curadoria e concierge para brasileiros que compram imóveis na Flórida, auxiliando desde a escolha do banco e contador até a administração e decoração do imóvel.
A Importância da Diversificação Internacional e os Desafios do Investidor Brasileiro
As apresentadoras trouxeram à tona a crescente insegurança do investidor brasileiro diante do cenário político e econômico, incluindo casos de recuperação judicial e fraudes bancárias. Esse contexto tem impulsionado a busca por diversificação internacional e até mesmo a saída definitiva do país. As especialistas concordam que, embora a demanda esteja crescendo, ainda é pequena se comparada ao potencial.
A Concentração em Risco Brasil e a Necessidade de Diluição
Um dos pontos centrais da discussão foi a alta concentração de patrimônio em risco Brasil. Juliana explicou que muitos clientes têm todo o seu patrimônio – dinheiro, imóveis, empresas – no país, ficando 100% expostos às suas variáveis econômicas e políticas. Ter um patrimônio no exterior é uma forma de diluir esse risco, expondo-o a uma moeda forte e a outras economias. Daniele complementou, destacando que o mercado americano é muito maior que o brasileiro, oferecendo acesso a setores como tecnologia e inovação que são pouco desenvolvidos no Brasil.
Estruturação de Investimentos no Exterior: O Papel da LLC e do Planejamento Sucessório
Juliana Burger esclareceu que a aquisição de imóveis nos Estados Unidos, via de regra, deve ser feita por meio de uma companhia (LLC), uma empresa de responsabilidade limitada americana. Essa estrutura é fundamental para questões sucessórias, pois o imposto de transmissão causa mortis nos EUA é altíssimo. A LLC protege o patrimônio e facilita a transmissão para herdeiros, evitando a burocracia e os custos de um inventário no exterior.
O Erro Comum de Comprar o Imóvel Sem Estrutura
O erro mais comum, segundo Juliana, é o cliente comprar o imóvel como pessoa física e só depois procurar ajuda especializada. Nesse momento, o planejamento se torna uma organização, e as opções são mais limitadas. Ela enfatiza que o ideal é constituir a estrutura antes da aquisição. Muitas vezes, uma estrutura mais complexa, como uma offshore que detém a LLC, é utilizada para otimizar a proteção e a sucessão. Daniele reforça que o cliente de hoje em dia chega mais informado, mas ainda precisa de assessoria para lidar com detalhes como a retenção de imposto ao revender um imóvel adquirido por pessoa física, que pode ser evitada com a estrutura correta.
Aquisição de Imóveis nos EUA: Desvendando Mitos sobre Financiamento
Daniele Rotondo desmistificou um dos maiores mitos sobre a compra de imóveis nos EUA: a dificuldade de financiamento para estrangeiros. Ela explica que o processo é, muitas vezes, mais fácil para um estrangeiro do que para um residente fiscal americano. Para um estrangeiro, é exigida uma entrada de 25 a 30% do valor do imóvel, o que representa um colateral muito maior e um risco menor para o banco. Em contraste, um americano pode dar apenas 3,5% de entrada, mas precisa comprovar uma quantidade muito maior de informações.
O Processo de Aquisição e a Importância da Curadoria
O processo de compra, segundo Daniele, envolve uma curadoria completa. O cliente estrangeiro chega sem saber exatamente o que quer e precisa de orientação para alinhar suas expectativas. É preciso entender o objetivo: é uma casa de férias, um investimento para rentabilidade, ou para valorização? Cada tipo de investimento tem uma estratégia diferente, e a frustração surge quando as expectativas do cliente não são bem gerenciadas desde o início.
Planejamento Sucessório e a Tributação sobre Ativos no Exterior
As especialistas discorreram sobre a complexidade da tributação sobre patrimônio no exterior. Juliana explica que o imposto de transmissão causa mortis nos EUA pode chegar a 40%, e o pior cenário é quando ocorre a sucessão sem nenhum planejamento. A burocracia é enorme, exigindo advogados locais e um inventário demorado. Estruturas como a LLC permitem uma sucessão automática, muito mais simples e barata.
Além disso, uma mudança recente no Brasil passou a permitir a cobrança de ITCMD sobre ativos no exterior. Juliana comenta que, embora a lei complementar já exista, ainda falta legislação estadual em São Paulo, criando um limbo legislativo. Muitos clientes recorrem a mandados de segurança para não pagar o imposto, mas ela alerta que o planejamento deve considerar esse custo futuro. A advogada destaca que o imposto pago nos EUA (federal e estadual) não pode ser compensado com o ITCMD brasileiro, resultando em uma bitributação onerosa. Ela também menciona o caso do Silvio Santos como um marco que trouxe visibilidade a esse tema.
Doação de Bens no Exterior e a Brecha Legal no Rio de Janeiro
Juliana também abordou a doação de bens. Embora em São Paulo o ITCMD sobre doações seja uma certeza, no Rio de Janeiro existe uma brecha legal que permite que doações entre doador e donatário no estado não incidam o imposto. Ela alerta, no entanto, que os clientes não devem se apoiar em brechas, pois as leis podem mudar, e o planejamento deve ser feito com cautela e visão de longo prazo.
Mulheres e o Patrimônio: O Papel Crescente na Gestão e Sucessão
As apresentadoras trouxeram um dado do Banco Central: brasileiros aportaram quase 60 bilhões de dólares no exterior no último ano, um recorde histórico, mas que representa apenas 2% do patrimônio das pessoas físicas. As especialistas concordam que esse número ainda é baixo e que a educação financeira é fundamental para que mais famílias se beneficiem da diversificação.
As Mulheres como Tomadoras de Decisão e o Cuidado com o Patrimônio
Um ponto alto da conversa foi a participação das mulheres no cenário de investimentos internacionais. Daniele relata que tem muitas clientes mulheres, empresárias de sucesso que investem quantias expressivas e têm plena consciência da importância da diversificação. Juliana acrescenta que, em famílias empresárias, as mulheres estão cada vez mais à frente do patrimônio, e são elas que, frequentemente, tomam a iniciativa de planejar e organizar a sucessão familiar.
As apresentadoras e convidadas concordam que as características femininas de cuidado, ponderação e visão sistêmica são grandes aliadas nesse processo. Daniele até brinca que prefere negociar com mulheres, pois elas são mais críticas, vão à mesa preparadas e conhecem o assunto a fundo, tornando a negociação mais difícil, porém mais gratificante. Essa força feminina na gestão do patrimônio é vista como um fator que traz mais harmonia e segurança para o planejamento familiar.
Conselhos Finais para a Mulher que Deseja Investir no Exterior
Para encerrar, as especialistas deixaram conselhos valiosos para as mulheres que desejam diversificar seu patrimônio internacionalmente. Daniele é direta: "Faça, não tenha medo." Ela incentiva a busca por profissionais ideais e uma boa pesquisa, pois existe espaço para todos no mercado. Juliana complementa, recomendando cautela e a importância de uma boa assessoria. Ela destaca a necessidade de estar segura de que todos os aspectos, tanto no Brasil quanto no exterior, estão sendo considerados, especialmente as questões tributárias e sucessórias.
A mensagem final é de empoderamento. O conhecimento é a ferramenta mais poderosa para que as mulheres se sintam seguras e encorajadas a dar esse passo importante em direção à proteção e à multiplicação do seu patrimônio. Seja para mitigar o risco Brasil, proteger-se da inflação ou acessar mercados mais desenvolvidos, a diversificação internacional se apresenta não apenas como uma oportunidade, mas como uma necessidade estratégica para a segurança financeira das famílias.