Introdução: Virtudes Humanas no Contexto Empresarial
No episódio do podcast Gestão em Ação, Wendel, da Supra Consultoria, recebeu o empresário e influenciador digital Gustavo Neves para uma conversa profunda e transformadora sobre um tema pouco explorado no mundo dos negócios: as virtudes humanas. Muitas vezes, os desafios de gestão de pessoas e os problemas empresariais são, na verdade, reflexos da ausência de virtudes como prudência, justiça, fortaleza e temperança. O objetivo do episódio foi responder à pergunta: "Qual o empresário que eu estou sendo?" e como uma empresa pode formar homens e mulheres de virtude.
O que são Virtudes e por que Resgatá-las no Mundo dos Negócios?
Gustavo Neves, que é fundador da CIK Assessoria de Marketing e cofundador da Anátema Editorial, define virtude de forma simples e profunda: virtude é um hábito bom, que nos leva à excelência do ser humano. Em contrapartida, o vício é um hábito ruim. As virtudes, juntamente com a inteligência, são o que nos diferenciam dos animais, pois nos permitem controlar nossas paixões e instintos.
Enquanto o mundo corporativo fala em soft skills (paciência, resiliência), a filosofia clássica, iniciada por Aristóteles e aprofundada por São Tomás de Aquino, já tratava dessas mesmas qualidades como virtudes. Wendel observa que falar de virtudes vai à essência do ser humano, enquanto o termo moderno parece apenas arranhar a superfície. É importante diferenciar as virtudes cardeais (humanas), que desenvolvemos pelo esforço contínuo, das virtudes teologais (fé, esperança e caridade), que são infundidas por Deus na alma e não podem ser conquistadas apenas pelo mérito próprio.
A Crise de Maturidade e a Cultura da Vitimização
Wendel compartilha uma preocupação latente: a crise de maturidade nas pessoas. Ele observa um cenário de vitimização, hedonismo e imediatismo, onde as pessoas não aceitam receber um "não" ou lidar com pressão. Gustavo concorda e explica que a falta de desenvolvimento das virtudes leva a uma visão distorcida de si mesmo.
Sem o autoexame, a pessoa não reconhece seus defeitos e falhas, tornando-se soberba. Qualquer crítica ou feedback construtivo é interpretado como um ataque pessoal. Essa postura vitimista terceiriza a culpa dos próprios problemas, impedindo o crescimento e a maturidade. Desenvolver virtudes é, portanto, o caminho para se tornar um ser humano maduro, centrado na realidade e capaz de progredir.
Como Desenvolver as Virtudes: O Papel do Exame de Consciência
As virtudes não surgem do nada; elas são desenvolvidas quando são colocadas à prova. Gustavo explica que Deus não nos torna mais fortes de imediato; Ele nos apresenta dificuldades para que possamos exercitar a fortaleza. O estudo teórico é importante, mas é na prática e no enfrentamento das contrariedades que as virtudes se forjam.
O Exame de Consciência Diário
Um passo fundamental para o desenvolvimento das virtudes é o exame de consciência, uma prática recomendada por santos e também pela filosofia estoica. Não se pode combater um mal que não se conhece. É preciso olhar para si mesmo com honestidade, identificar os principais vícios e falhas, e focar em combatê-los um a um. A analogia do barril é ilustrativa: se todas as virtudes formam um barril e uma delas está faltando, a água vaza. O progresso constante é o que garante a integridade.
A Virtude da Prudência: A Mãe de Todas as Virtudes
Para São Tomás de Aquino, a prudência é a virtude mãe, pois sem ela, as outras virtudes ficam deficitárias. A prudência é a reta razão de agir, a sabedoria aplicada à prática. É a capacidade de analisar uma situação sem deixar que as paixões, o sentimentalismo ou os defeitos distorçam a realidade, permitindo a tomada de decisões assertivas e corretas.
Os Extremos da Prudência
Gustavo alerta para dois extremos que devem ser evitados: o excesso de prudência, que leva à inação e ao medo de tomar decisões importantes, e a imprudência, que é agir inconsequentemente, no automático, sem o devido juízo. No mundo empresarial, a prudência é crucial para filtrar as oportunidades. Muitas oportunidades que surgem podem ser, na verdade, distrações do foco principal. A prudência permite dizer "não" e escolher o que realmente faz sentido para o momento do negócio.
A Virtude da Justiça: Dar a Cada Um o que é Devido
A justiça é definida como a virtude de dar a cada um o que é devido. No contexto empresarial, isso se aplica a pagar corretamente os funcionários, reconhecer o esforço, mas também penalizar aqueles que não cumprem com suas obrigações. Muitas vezes, o ato mais justo é a demissão de um colaborador que não está performando ou que age de forma contrária à cultura da empresa.
O Dilema da Demissão e a História do Prego
Wendel e Gustavo debatem como a demissão, embora impopular, pode ser um ato de justiça. Manter uma pessoa que não cumpre seu papel prejudica a empresa como um todo e, consequentemente, todas as outras famílias que dependem dela. Para ilustrar, Wendel conta a história do diabo que queria comprar uma casa. Após ter sua oferta de 1 milhão recusada, o diabo ofereceu 100 mil por um prego na parede. O dono aceitou, e o diabo pendurou uma carniça no prego, tornando a casa inabitável. A moral é que não se deve dar abertura ao mal, pois ele contamina tudo. Da mesma forma, um funcionário "podre" pode contaminar toda a equipe, e a demissão é um dever de justiça para preservar o restante.
A Virtude da Fortaleza: Suportar as Contrariedades com Constância
A fortaleza é a virtude de suportar as contrariedades, as tentações e as dificuldades da vida. Seguindo a doutrina aristotélica da mediania, a fortaleza não está em nenhum dos extremos. O soldado que se joga sozinho contra um exército é temerário (imprudente), não forte. Da mesma forma, quem foge de todas as batalhas é covarde. A fortaleza está no meio: é a coragem de enfrentar o que é necessário, com a constância e a vontade de ferro para persistir.
A Fragilidade da Geração Atual e a Necessidade de Ideais
Gustavo e Wendel concordam que as pessoas estão cada vez mais frágeis, "feitas de geleia", como dizem. Qualquer pressão é vista como absurda. A falta de fortaleza está diretamente ligada à falta de ideais firmes. Quando a pessoa não tem clareza de seus objetivos e de seu propósito maior (que, para os cristãos, é Deus), qualquer pequena tribulação se torna um motivo para desistir. A fortaleza é a virtude que permite ao alpinista amar a corda que o leva ao cume, pois é ela que o forja e o prepara para a excelência.
A Virtude da Temperança: O Controle dos Apetites
A temperança é a virtude de controlar os apetites sensíveis, principalmente a gula e os prazeres sexuais. É o que nos diferencia dos animais, que agem por instinto. O ser humano, dotado de razão, é capaz de dominar suas paixões e agir de acordo com a consciência. No mundo empresarial, a temperança se aplica ao controle da ira, evitando broncas indevidas, e ao equilíbrio nas decisões, sabendo até que ponto ceder a um cliente ou a uma situação.
A Geração Dopamina e a Necessidade de Domínio Próprio
Wendel observa que a temperança é um desafio ainda maior na "geração dopamina", onde o celular e as telas oferecem prazeres instantâneos que viciam. A temperança é a virtude que nos permite resistir a esses impulsos e manter o foco no que é importante. Ao dominar os pequenos prazeres, como São José Maria Escrivá ensina, o homem se fortalece para vencer as grandes batalhas.
Magnanimidade e Humildade: A Grandeza de Alma e a Pequenez
Essas duas virtudes, aparentemente contraditórias, na verdade se complementam. A magnanimidade (alma grande) é a virtude de aspirar a ideais grandiosos, de buscar a excelência e o transbordamento da alma. O magnânimo não é soberbo, pois reconhece sua própria pequenez diante do ideal que almeja. A humildade é justamente essa capacidade de reconhecer a verdade sobre si mesmo, sem se achar mais do que é.
Gustavo alerta que a humildade não pode ser confundida com mediocridade. Muitas pessoas usam uma falsa humildade para justificar a falta de ambição e o comodismo, por medo do esforço necessário para atingir grandes objetivos. O verdadeiro humilde é aquele que, reconhecendo sua pequenez, se lança em águas profundas em busca de grandes ideais.
A Virtude da Ordem: A Mãe da Paz
Por fim, a ordem é uma virtude essencial para a vida e para os negócios. Santa Agostinho dizia que a paz é a tranquilidade da ordem. Na Supra Consultoria, prega-se que a ordem é a mãe da paz. Uma empresa organizada, com indicadores, rituais e processos claros, tem mais clareza e, consequentemente, mais facilidade para tomar decisões. A ordem não se aplica apenas ao trabalho, mas a todas as áreas da vida: tempo com Deus, família, exercício físico. Quando há ordem, o tempo se multiplica, e é possível servir melhor a Deus e ao próximo.
Conclusão: O Verdadeiro Legado do Empresário
Ao final da conversa, Gustavo Neves deixa uma mensagem poderosa: não seremos julgados pelo sucesso da nossa empresa, pelo faturamento ou pelo patrimônio acumulado. Seremos julgados pelo amor. De nada adianta construir a maior empresa do mundo se não progredirmos nas virtudes e na santidade. O verdadeiro legado do empresário é a sua alma e o bem que ele fez às pessoas ao seu redor. Portanto, que nossas ações, nosso pensar e nossas empresas sejam sempre guiados para honrar e glorificar a Deus acima de tudo.
Para acompanhar Gustavo Neves, seu Instagram é @gunevzom. O podcast Gestão em Ação continua trazendo convidados e temas relevantes para o pequeno e médio empresário.