#09 / O que mudou nas escolas em 2025? - com Valdenice Minatel & Cláudia Sartoris - PARTE 2

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Se a Parte 1 deste episódio mergulhou nas transformações que já estavam acontecendo dentro das escolas em 2025 — a chegada da inteligência artificial, a proibição do celular e a crise na relação escola-família —, a Parte 2 vai mais longe. Ela aprofunda o olhar para o horizonte que se desenha à frente: quais são os grandes desafios que 2026 traz para a educação? O que a OCDE diz sobre o que realmente deveria ser ensinado nas escolas? Como integrar a IA sem perder a essência humana da educação? E como preparar jovens para um sistema de acesso ao ensino superior que ainda parece desalinhado com tudo o que se defende dentro das salas de aula?

Para fechar a temporada 2025 do podcast Entre Uma Coisa e Outra, do canal NR Oficial, o apresentador Kito volta a receber Valdenice Minatel, Diretora Institucional e de Tecnologia do Colégio Dante Alighieri, e Cláudia Sartoris Zaclis, Diretora Pedagógica do Colégio Santo Américo. Duas das gestoras escolares mais experientes e reflexivas do cenário paulistano, elas entregam neste episódio final uma conversa que ao mesmo tempo provoca, inspira e aponta caminhos concretos para quem quer pensar a educação com seriedade e com esperança.


Integrar a IA Sem Perder a Essência Humana da Educação

O ponto de partida da Parte 2 é uma das questões mais urgentes que atravessam as salas dos professores, as reuniões pedagógicas e as casas das famílias em todo o Brasil: como integrar a inteligência artificial à educação de forma que ela fortaleça — e não substitua — o que há de mais humano no processo de aprender?

Valdenice Minatel, com sua trajetória singular de mais de trinta anos no Colégio Dante Alighieri e uma formação que abrange desde a PUC-SP até programas em Harvard e Stanford, traz uma perspectiva que recusa as duas posições extremas do debate: nem o entusiasmo acrítico de quem vê na IA a solução para todos os problemas da educação, nem o pânico de quem quer banir a tecnologia como se isso fosse possível ou desejável. A posição que ela defende — e que ressoa em toda a conversa — é a da intencionalidade pedagógica: a IA deve entrar na escola com propósito claro, com mediação consciente do professor e com um projeto formativo que coloque o desenvolvimento humano no centro.

Dados divulgados no fim de 2025 pela Fundação Itaú revelam um cenário ao mesmo tempo promissor e alarmante: 84% dos estudantes e 79% dos professores brasileiros já utilizaram ferramentas de inteligência artificial. Mas apenas 32% dos alunos disseram ter recebido orientação escolar sobre como usar essas tecnologias de forma adequada. Esse número revela uma lacuna crítica — entre o uso massivo e a formação para o uso responsável — que as escolas precisam urgentemente preencher.

Para Cláudia Sartoris, formada em Psicologia e com mestra em Educação, o desafio tem uma dimensão que vai além do pedagógico: é uma questão de identidade. Numa escola guiada pelos valores beneditinos — ora et labora, a integração entre contemplação e ação —, ensinar os alunos a usar a IA com consciência é ensiná-los a discernir: o que é genuinamente meu e o que é da máquina? Qual é o valor do meu pensamento próprio? Por que fazer o esforço de compreender algo que a IA entrega mastigado em segundos? Essas perguntas não são técnicas. São filosóficas, éticas e profundamente humanas — e é exatamente por isso que a escola precisa respondê-las.

Em março de 2026, o Conselho Nacional de Educação aprovou normas para o uso de inteligência artificial nas instituições de ensino brasileiras, estabelecendo que a tecnologia deve funcionar como suporte ao processo pedagógico e não como substituta do educador. A decisão normativa chegou depois do debate que Valdenice e Cláudia já vinham travando na prática dentro de suas escolas — mas é um sinal de que o campo educativo brasileiro está amadurecendo sua relação com esse tema.


O Problema do Viés: IA Não É Neutra

Um dos pontos mais originais e necessários do episódio é a discussão sobre os vieses da inteligência artificial — um aspecto que raramente aparece nas conversas mais superficiais sobre tecnologia e educação, mas que é fundamental para um uso crítico e ético dessas ferramentas.

Valdenice aponta com clareza: sistemas de inteligência artificial são criados por seres humanos, alimentados por dados produzidos por seres humanos, e refletem, portanto, as perspectivas, os preconceitos e as limitações de quem os criou e dos dados com que foram treinados. Um aluno que usa a IA sem essa consciência corre o risco de reproduzir e amplificar vieses sem sequer perceber — sejam eles de gênero, de raça, de classe, de perspectiva cultural ou de enquadramento político.

A relatório da OCDE de 2024 reforça essa preocupação ao indicar que estudantes expostos a programas estruturados de letramento digital apresentam maior capacidade de identificar vieses, checar fontes e avaliar a confiabilidade de conteúdos gerados por IA. Isso significa que o problema não é o uso em si, mas o uso sem reflexão. E que a solução não é a proibição, mas a formação — de alunos e de professores.

Cláudia Sartoris conecta essa questão à missão mais ampla da escola: formar pessoas que pensem, que questionem, que não aceitem passivamente o que lhes é oferecido — seja por um professor, seja por um livro didático, seja por uma inteligência artificial. A escola que ensina o aluno a usar a IA com senso crítico está fazendo muito mais do que uma aula de tecnologia. Está cultivando a autonomia intelectual que é a marca de um ser humano genuinamente educado.


O Que a OCDE Diz Que Devemos Realmente Ensinar

Um dos eixos centrais da conversa é o que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) tem dito sobre o que as escolas deveriam realmente ensinar para preparar os jovens para o século XXI. O documento Bússola de Aprendizagem 2030, desenvolvido pela OCDE, propõe um conjunto de competências e valores que vai muito além do currículo tradicional de disciplinas e conteúdos fixos.

A OCDE identifica quatro competências essenciais para o futuro do trabalho e da educação: literacia (leitura e interpretação profunda), numeracia (raciocínio quantitativo), resolução adaptativa de problemas e habilidades socioemocionais. Essas competências formam a base para a aprendizagem ao longo da vida, a mobilidade entre oportunidades e a adaptação às mudanças tecnológicas e produtivas — num cenário em que as demandas por habilidades evoluem mais rapidamente do que os ciclos de políticas públicas conseguem acompanhar.

Mas o que mais chama a atenção na abordagem da OCDE — e que ressoa nas falas de Valdenice e Cláudia — é a ênfase em atitudes e valores que não são mensuráveis em provas, que não aparecem nos rankings internacionais, mas que são fundamentais para a formação de cidadãos responsáveis e de profissionais capazes: a capacidade de criar novos valores, de reconciliar tensões e dilemas, de assumir responsabilidade pelo próprio aprendizado e pelo impacto das próprias ações no mundo.

Para Cláudia, esse quadro de referência da OCDE ressoa profundamente com a tradição beneditina que fundamenta o Colégio Santo Américo: a formação humana integral, que une excelência acadêmica e desenvolvimento do caráter, não é uma visão nostálgica do passado — é exatamente o que os organismos internacionais mais respeitados estão dizendo que o futuro exige. A novidade não é o que se deve ensinar, mas a urgência de fazê-lo numa época em que a tecnologia cria atalhos que podem corroer justamente essas competências mais profundas se não forem cultivadas conscientemente.


Metodologias Híbridas: Conectando a Sala de Aula ao Mundo Real

Outro tema central do episódio é a adoção crescente de metodologias híbridas nas escolas — abordagens pedagógicas que combinam momentos presenciais e digitais, conteúdo curricular e experiência real, ensino dirigido pelo professor e aprendizagem protagonizada pelo aluno.

Valdenice Minatel, com seu histórico de pioneirismo tecnológico no Dante Alighieri, descreve como as metodologias ativas — aprendizagem baseada em projetos, sala de aula invertida, aprendizagem baseada em problemas — transformam a experiência dos alunos ao colocá-los no centro do processo. Em vez de absorver passivamente o conteúdo para depois reproduzi-lo numa prova, o aluno aprende fazendo, resolvendo, criando, colaborando. Esse tipo de aprendizagem não apenas produz um entendimento mais profundo, mas também desenvolve as competências que o mercado de trabalho e a vida adulta vão exigir: pensamento crítico, criatividade, resiliência, capacidade de trabalhar em equipe.

O componente "mundo real" é fundamental nessa equação. Quando um projeto escolar não é apenas uma atividade fictícia para o professor avaliar, mas uma resposta a um problema genuíno — da comunidade, do meio ambiente, de uma área de conhecimento que o aluno ajuda a explorar —, algo muda na postura do estudante. Ele passa a ter um motivo real para aprender, e isso é radicalmente diferente do imperativo externo de tirar nota.

Cláudia Sartoris complementa essa visão com a perspectiva do desenvolvimento emocional: metodologias ativas, quando bem implementadas, também desenvolvem a tolerância à frustração, a habilidade de lidar com a incerteza e a capacidade de persistir diante de desafios — competências que nenhuma memorização de fórmulas consegue cultivar, mas que fazem toda a diferença na vida adulta. A escola que usa metodologias híbridas não está apenas modernizando seu currículo. Está formando pessoas mais inteiras.


O Recreio Sem Celular e o Desenvolvimento Emocional Contínuo

Retomando um dos temas mais impactantes da Parte 1, as diretoras aprofundam neste episódio a análise das consequências do recreio sem celular para o desenvolvimento emocional dos alunos. O que no início da proibição pareceu apenas uma mudança logística foi revelando, ao longo de 2025, uma dimensão muito mais profunda.

Com as telas fora do caminho, os alunos foram forçados — e, gradualmente, convidados — a enfrentar algo que muitos deles raramente experimentavam durante o tempo livre na escola: o tédio produtivo. Esse estado de aparente ausência de estímulo, que a geração conectada às redes associa imediatamente ao desconforto e ao problema, é na verdade um espaço fértil para o desenvolvimento da criatividade, da imaginação e da capacidade de criar entretenimento e conexão a partir de nada. Crianças que brincam de forma livre, sem roteiro e sem tela, desenvolvem habilidades cognitivas e socioemocionais que nenhum conteúdo curricular consegue replicar de forma sistemática.

Tanto no Dante quanto no Santo Américo, os relatos de professores e funcionários convergiram: os intervalos tornaram-se mais vivos, mais barulhentos — no bom sentido —, mais humanos. Grupos que nunca se misturavam começaram a interagir. Conflitos que antes eram dissolvidos em telas e memes precisaram ser enfrentados e resolvidos cara a cara. Isso é desenvolvimento emocional acontecendo em tempo real, sem uma aula estruturada, sem um psicólogo facilitando — apenas através do encontro direto entre pessoas.

Valdenice e Cláudia são cuidadosas ao não romantizar esse processo: há resistência, há dificuldade, há alunos que ainda tentam contornar as regras. Mas o balanço de 2025 é inequívoco — e as escolas que apostaram na implementação plena e consistente da proibição estão colhendo resultados que vão muito além das notas.


O Valor das Soft Skills num Mundo que Ainda Cobra Hard Skills

Uma das tensões mais produtivas do episódio é a discussão sobre como as escolas podem preparar alunos com as competências que o futuro realmente exige — soft skills como comunicação, empatia, resiliência, colaboração e pensamento crítico — enquanto ainda precisam prepará-los para sistemas de avaliação que cobram majoritariamente conteúdo factual e resolução de questões objetivas.

Cláudia Sartoris não esquiva dessa contradição. Ela a nomeia com clareza: as escolas são cobradas por dois projetos de formação que nem sempre apontam na mesma direção. De um lado, tudo o que a pesquisa em educação, as organizações internacionais e os próprios empregadores dizem que importa — formação integral, desenvolvimento socioemocional, capacidade de aprender a aprender. De outro, o sistema de acesso ao ensino superior, que na maioria dos casos ainda avalia os alunos por sua capacidade de memorizar, resolver questões padronizadas e performar num único dia de prova.

Isso cria um dilema real para as famílias: uma escola que investe pesado no desenvolvimento humano integral pode estar, paradoxalmente, desfavorecendo seus alunos num vestibular que não reconhece trajetória, não avalia competências socioemocionais e não mede a capacidade de pensar de forma autônoma e criativa. Valdenice aponta que esse desalinhamento é uma das grandes conversas que a educação brasileira precisa ter com urgência — e que as universidades precisam ser parte ativa dessa transformação.


A Urgência de Universidades que Reconheçam Trajetórias, Não Apenas Conteúdo

O episódio dedica um momento significativo a uma crítica que as duas diretoras fazem com franqueza incomum: o sistema de acesso ao ensino superior no Brasil está crescentemente desalinhado com o projeto de educação integral que as melhores escolas do país — públicas e privadas — estão tentando construir.

O ENEM e os vestibulares tradicionais são instrumentos poderosos de seleção, mas medem um espectro muito estreito de competências. Um aluno que passou três anos do ensino médio desenvolvendo projetos reais, liderando iniciativas comunitárias, aprendendo a resolver problemas complexos em equipe, desenvolvendo inteligência emocional e construindo um projeto de vida sólido — esse aluno pode ser literalmente invisível num processo seletivo que olha apenas para sua nota em Matemática e Redação.

Valdenice Minatel traz à tona um debate que é global: em países como Estados Unidos, Canadá e boa parte da Europa, as universidades mais conceituadas já há décadas avaliam candidatos por meio de portfólios, cartas de recomendação, entrevistas e projetos — reconhecendo que a trajetória formativa de um jovem diz muito mais sobre seu potencial do que qualquer nota isolada. No Brasil, alguns movimentos nesse sentido começam a aparecer, mas de forma tímida e fragmentada.

A mensagem das duas gestoras é direta: não adianta reformar o ensino médio, investir em metodologias ativas, cultivar soft skills e desenvolver a formação humana integral se a porta de saída — o acesso à universidade — continua sendo uma corrida de memorização. As escolas não podem ser responsabilizadas por um desalinhamento sistêmico que está muito além de suas paredes. Mas podem — e devem — ser vozes ativas nesse debate.


Educar Humanos na Era da Inteligência Artificial: Uma Síntese Necessária

O episódio avança para sua parte final com uma questão que está implícita em toda a conversa, mas que Kito coloca de forma direta: no fundo, o que significa educar humanos numa era dominada pela inteligência artificial?

A resposta de Valdenice Minatel é construída com a autoridade de quem esteve na linha de frente da tecnologia educacional por mais de três décadas — e que, exatamente por isso, nunca perdeu de vista o que a tecnologia não pode fazer. Ela não pode substituir a presença de um professor que acredita num aluno quando o próprio aluno não acredita mais em si mesmo. Não pode substituir o olho no olho de uma conversa difícil entre um orientador e um estudante em crise. Não pode substituir a experiência de colaborar com um colega para resolver um problema que nenhum dos dois consegue resolver sozinho. Não pode substituir o momento em que uma criança descobre que é capaz de algo que julgava impossível.

A inteligência artificial pode amplificar, personalizar, automatizar, analisar — e fará isso de formas cada vez mais sofisticadas. Mas a educação que vale, que transforma, que deixa marca, é aquela que acontece no espaço entre pessoas. E esse espaço precisa ser protegido, cultivado e defendido conscientemente numa época que tende a substituí-lo por eficiência digital.

Cláudia Sartoris encerra sua participação com uma frase que resume a filosofia do Santo Américo — e que poderia ser o lema de toda escola que leva a sério sua missão: educar é formar humanos inteiros, não apenas cérebros eficientes. Numa era de inteligência artificial, isso não ficou menos importante. Ficou mais.


Reflexões Finais: O Que Esperar de 2026

Para fechar a temporada, Valdenice e Cláudia são convidadas a olhar para o que esperam de 2026. Suas respostas não são profecias tecnológicas nem listas de tendências. São compromissos — com o aluno, com a família, com a comunidade e com a missão de educar.

Valdenice espera que 2026 seja o ano em que a inteligência artificial deixe de ser um tema de ansiedade nas escolas para se tornar um objeto de aprendizagem genuíno — que alunos e professores aprendam não apenas a usar as ferramentas, mas a pensar criticamente sobre elas, a questionar seus vieses, a entender seus limites e a escolher, conscientemente, quando usá-las e quando prescindir delas.

Cláudia espera que 2026 aprofunde o movimento de reconexão interpessoal que a proibição do celular iniciou — que a escola volte a ser, de forma cada vez mais intencional, um espaço de encontro real entre pessoas reais. E que as famílias se percebam cada vez mais como parceiras nesse projeto — não como clientes a serem atendidos, mas como coeducadoras de crianças e jovens que precisam de coerência entre o que vivem dentro e fora dos muros escolares.

Para pais que querem entender para onde a educação está indo, para educadores que buscam referências para navegar esse momento de transição, e para todos os que se preocupam com o tipo de mundo que estamos construindo para as próximas gerações — este episódio final da temporada 2025 do podcast Entre Uma Coisa e Outra é uma leitura essencial para os ouvidos.