Cuidados Paliativos na Prática Diária da Gestão - Mayra Frutig

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Gestão e Prática nos Cuidados Paliativos: Insights de Mayra Frutig

O ViMocast apresentou um episódio enriquecedor com a Dra. Mayra Frutig, médica geriatra e paliativista, uma das grandes referências do setor no Brasil. Com uma trajetória que se confunde com a própria estruturação dos cuidados paliativos modernos em São Paulo, Mayra compartilhou reflexões profundas sobre a prática clínica, os desafios da gestão hospitalar e a importância do autoconhecimento para quem lida diariamente com o sofrimento humano.

A conversa foi conduzida por Ron Benny e Suelen, que destacaram a "leveza e segurança" de Mayra como marcas registradas de sua atuação, desde os tempos em que era assistente no Hospital das Clínicas (HC-FMUSP) e no ICESP.

A Trajetória: Da Geriatria ao Pioneirismo no Cuidado Paliativo

Mayra Frutig iniciou sua jornada na geriatria, motivada pelo desejo de compreender o envelhecimento e a finitude de forma mais completa do que a medicina tradicional oferecia. Ela relatou que, durante sua formação, percebeu uma lacuna no trato com pacientes incuráveis, o que a levou a buscar orientação com figuras visionárias como o Dr. Ricardo Saporetti. Naquela época, o cuidado paliativo ainda era incipiente e muitas vezes confundido apenas com o cuidado de fim de vida.

Um marco em sua carreira foi a transição para a gestão em 2013, quando foi convidada a implantar serviços de cuidados paliativos em redes hospitalares privadas de São Paulo. Ela destacou que, naquele momento, as acreditações hospitalares internacionais começaram a exigir a estruturação dessas equipes, o que abriu portas, mas também trouxe o desafio de provar que o cuidado paliativo não é apenas "economia de custos", mas sim entrega de valor e qualidade assistencial.

Gestão de Equipes e a "Casca" do Profissional

Como coordenadora de equipes, Mayra discutiu a complexidade de liderar profissionais em ambientes frequentemente hostis ao conceito de paliativismo. Ela enfatizou que a escolha dos membros de sua equipe vai além do currículo técnico; envolve avaliar a maturidade emocional e o momento de carreira de cada um.

  • Proteção do Liderado: Mayra expressou preocupação em não expor profissionais recém-formados a cenários de "muito tubarão" (corpo clínico resistente) sem o devido suporte, para evitar o burnout precoce.
  • Liderança Participativa: Ela acredita em canais abertos de comunicação, onde as decisões são discutidas horizontalmente, permitindo que o profissional se sinta respaldado em condutas complexas, como a extubação paliativa.
  • Mudança de Cultura: A médica ressaltou que a mudança de cultura institucional não depende apenas da equipe de paliativos, mas de um respaldo da diretoria e da educação contínua de todo o corpo clínico.

A "Zona Cinzenta" e o Papel do Paliativista

Um dos maiores desafios técnicos discutidos foi a atuação na "zona cinzenta" da medicina — casos que não são puramente curativos nem puramente terminais. Mayra explicou que o paliativista deve ser um estrategista, ajudando a definir o que é proporcional e apropriado para cada paciente.

Ela ilustrou isso com um caso marcante de uma filha que sentia que não levar a mãe para a UTI era uma forma de negligência financeira e afetiva. O papel de Mayra foi traduzir o plano de cuidado, mostrando que o melhor suporte poderia ser oferecido no quarto, garantindo dignidade sem sofrimento fútil. Para ela, a segurança na comunicação é o que permite à família atravessar o luto antecipatório com menos trauma.

Autocuidado: O "Fio Terra" na Areia

Para manter a leveza em uma profissão tão densa, Mayra revelou sua busca por práticas de autocuidado. Após anos de estresse em São Paulo, ela encontrou no Beach Tennis sua válvula de escape. Mais do que o esporte em si, ela valoriza o "pisar na areia" como um momento de troca de energia e desconexão da rigidez hospitalar. Ela reforçou que o profissional precisa ter seu próprio espaço protegido para conseguir acolher o outro.

Recomendações e Mensagem Final

Mayra indicou obras que influenciam sua visão de mundo, como o livro "Um Coração Sem Medo", de Thupten Jinpa, que trata da compaixão como base da felicidade, e a música "Oração ao Tempo", de Caetano Veloso (interpretada por Maria Bethânia), como um hino de reflexão sobre a transitoriedade.

Sua mensagem final para os novos médicos é clara: o cuidado paliativo não é achismo. É uma prática técnica, científica e humana que deve integrar qualquer boa medicina. Ela encorajou os colegas a não negarem o sofrimento do paciente e a buscarem instrumentalização constante.


Onde encontrar a Dra. Mayra Frutig: Siga @dra.mayrafrutig no Instagram para acompanhar seus novos projetos no consultório particular, focados em geriatria preventiva e medicina do estilo de vida.