Introdução: A Jornada de uma Paliativista Mineira
Neste episódio do Vimocast, recebemos a Dra. Sarah Ananda, médica paliativista e líder nacional dos cuidados paliativos na Oncoclínicas. A conversa revela a trajetória inspiradora de uma profissional que, desde cedo, demonstrou paixão por cuidar de pacientes graves e suas famílias, transformando essa vocação em uma carreira de impacto nacional.
Sarah compartilha sua biografia, desde a infância em Minas Gerais, influenciada por sua ascendência espanhola e indiana (e sua formação hindu), até a descoberta dos cuidados paliativos durante a residência em clínica médica em um hospital oncológico. Ela narra como, mesmo sem conhecer o nome da especialidade, já sentia atração por pacientes com doenças avançadas e famílias consideradas "difíceis", sendo vista como uma "estranha no ninho" por seus colegas.
A Descoberta da Especialidade e o Intercâmbio em Harvard
Após ser apresentada ao termo "cuidados paliativos" por um preceptor, Sarah iniciou uma busca que a levaría a Harvard, nos Estados Unidos, onde fez um curso intensivo na área. Ela conta que, inicialmente, planejava um ano sabático, mas acabou aproveitando a oportunidade para visitar sua irmã que estudava no país e fazer o curso. A experiência foi transformadora: ela conheceu referências como Janet Abrahm, aprendeu protocolos de manejo de obstrução intestinal maligna, e se encantou com a estrutura dos serviços de hospice e hospitalares.
Ao retornar ao Brasil, Sarah estava decidida a se especializar em cuidados paliativos. Mesmo enfrentando resistência de preceptores e colegas, que a incentivavam a seguir oncologia ou geriatria, ela persistiu. Prestou provas para residência em medicina paliativa em várias instituições e foi aprovada na USP, onde se formou com grandes nomes da área, como Ricardo Tavares, Douglas Crispin e Daniel Forte.
Implementação de Serviços: Os Desafios e a Persistência em Minas Gerais
Após a residência, Sarah decidiu voltar para Belo Horizonte, onde seu marido residia. Ela fez um acordo com ele: se em três meses não conseguisse trabalhar exclusivamente com cuidados paliativos, voltariam para São Paulo. O desafio era imenso: em Minas, a especialidade era praticamente desconhecida e não havia serviços estruturados.
Sarah enfrentou cerca de 20 reuniões com a diretoria de um hospital tradicional para convencê-los a contratá-la como paliativista. Ela relata a desconfiança e a resistência, especialmente do setor financeiro, que não via valor no cuidado paliativo. No entanto, ela persistiu, munida de dados e de uma visão clara do que precisava: uma equipe mínima com psicóloga, assistente social e enfermeira.
O MVP de 3 Meses e a Acreditação
Sarah implementou um programa-piloto (MVP) de três meses. Nesse período, ela coletou dados que mostraram o impacto do cuidado paliativo na qualidade da assistência e na satisfação do paciente. Quando o hospital passou por uma acreditação (NAON), o trabalho de Sarah foi decisivo para a conquista do selo. Isso convenceu a diretoria, e ela foi efetivada. Em menos de um ano, ela ajudou a montar a primeira residência de cuidados paliativos de Minas Gerais, em parceria com o Hospital Felício Rocho.
A lição de Sarah para quem está começando é clara: a persistência é fundamental. Ela brinca que o diretor do hospital a apelidou de "ferrinho de dentista" por sua capacidade de conseguir o que queria, indo todos os dias à sala da diretoria pedir uma sala, recursos ou apoio.
Liderança e Gestão em Cuidados Paliativos
Sarah destaca a importância da liderança e da gestão para a sustentabilidade dos serviços. Ela afirma que, muitas vezes, o paliativista recém-formado quer convencer os outros apenas com a palavra, mas o que realmente convence é o exemplo e, principalmente, os resultados. A frase que ela usa: "A palavra convence, o exemplo arrasta e o resultado consolida".
Ela enfatiza que o gestor, especialmente no setor suplementar, precisa de números. Portanto, é essencial coletar dados desde o início. “Mostre a diferença que você faz. Se você não tem dados, seu serviço pode ser desmontado na primeira mudança de gestão”, alerta.
Negociação e Colaboração
Sarah aprendeu na prática que a colaboração e a negociação são ferramentas tão importantes quanto a expertise técnica. Ela relata como precisou ir a todas as clínicas do hospital (cardiologia, clínica médica, etc.) para apresentar o trabalho do cuidado paliativo e mostrar como poderia ajudar. Inicialmente, ouvia comentários como: “Isso aí assistente social faz”. Mas com paciência e humildade, ela explicava o valor da equipe multidisciplinar e conquistava aliados.
Um caso emblemático: um paciente internado há seis meses, considerado de difícil manejo e com família "complicada", foi desospitalizado em uma semana após a intervenção da equipe de cuidados paliativos. A médica da clínica, impressionada, perguntou a Sarah se ela havia feito hipnose. Esse exemplo demonstra como o cuidado paliativo, quando aplicado, resolve problemas que parecem intratáveis, conquistando a confiança das equipes.
A Oncologia como Aliada: A Experiência na Oncoclínicas e na ASCO
Sarah conta como, dentro da Oncoclínicas, conseguiu estruturar um serviço ambulatorial de cuidados paliativos. Hoje, a rede conta com 54 equipes multiprofissionais em todo o Brasil, resultado de um trabalho que começou com uma equipe em duas clínicas. Ela destaca que o apoio do fundador e de gestores visionários foi crucial, mas que também foi necessário educar os oncologistas, muitos dos quais não conheciam o potencial da especialidade.
A ASCO e o Reconhecimento Global
Sarah descreve sua participação no maior congresso de oncologia do mundo, a ASCO (American Society of Clinical Oncology). Ela ficou emocionada ao ver a presidente da ASCO abrir o congresso falando sobre cuidados paliativos e uma plenária com 40.000 pessoas discutindo um estudo de telemedicina em paliativos.
Sarah foi selecionada para coordenar o programa APEC Brasil (Educação em Cuidados Paliativos para Oncologia Global), em parceria com a ASCO e a SBOC (Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica). Ela também se tornou instrutora do programa ID (International Development), que capacita jovens oncologistas e paliativistas em liderança, comunicação e gestão. Ela ressalta a importância de mentores como Frank Ferris, que voluntariamente educa profissionais ao redor do mundo, e de estar presente nesses espaços para aprender e fazer networking.
A Importância do Pitch e da Comunicação com Gestores
Inspirada pelo programa ID, Sarah sugere que os paliativistas aprendam a fazer um "pitch" (argumento rápido e convincente) para gestores. Uma habilidade essencial é saber resumir o valor do seu trabalho em um minuto, usando a linguagem do negócio – dados, impacto financeiro, qualidade percebida e técnica.
Capelania e Espiritualidade: Uma Dimensão Essencial
Sarah menciona sua ascendência indiana e sua formação em capelania, destacando como a espiritualidade sempre esteve presente em sua vida e prática. Ela sugere que essa dimensão é fundamental para o cuidado paliativo, pois permite acolher o sofrimento existencial dos pacientes e das famílias de forma mais ampla.
Apesar de não ter aprofundado esse tema no episódio, ela deixa claro que essa é uma parte importante de sua identidade e que merece ser explorada em futuras conversas.
Mentoria e Educação: O Dever de Compartilhar
Sarah é uma defensora ferrenha da mentoria e da educação. Ela relembra um episódio em que um paliativista mais experiente, ao ser questionado sobre a carreira, respondeu: “Muito difícil, não mexe com isso não”. Esse comentário quase a desanimou, mas felizmente ela encontrou outros mentores que a incentivaram.
Hoje, Sarah se coloca à disposição para mentorar outros profissionais, inclusive residentes e colegas de regiões mais remotas. Ela já deu mentoria para uma paliativista do Amazonas, por videoconferência. Sua mensagem: os paliativistas são acessíveis, acolhedores e gostam de ensinar. Portanto, não tenham receio de procurar ajuda.
Indicações Culturais e Mensagem Final
Sarah indica o filme "Hamnet", que aborda luto, maternidade e arte de forma impactante. Ela também recomenda a leitura de Guimarães Rosa, especialmente suas frases sobre travessia e coragem. Ela cita: “O importante não é o ponto de chegada, mas a travessia”, e lembra que a vida “requer coragem”.
Sua mensagem final para quem está implementando serviços: “Não desista. Faça parcerias, busque aliados, colete dados e lembre-se de que 20 reuniões ainda é pouco”. Ela encoraja a persistência e o compartilhamento de experiências, pois a colaboração é a chave para o sucesso.
Conclusão: A Força da Persistência e da Comunidade
O episódio com Sarah Ananda é um testemunho vivo de que o cuidado paliativo no Brasil avança graças à persistência, liderança e colaboração de profissionais apaixonados. Sua história, desde a descoberta da especialidade até a implementação de serviços nacionais, inspira e fornece um roteiro prático para quem deseja transformar a realidade da assistência em seu local de atuação.
Sarah deixa um convite: que os profissionais busquem mentores, façam networking, aprendam a se comunicar com gestores e, acima de tudo, nunca desistam de seus sonhos. Como ela mesma demonstrou, com coragem e determinação, é possível construir serviços de excelência e impactar a vida de milhares de pacientes.