Podcast Podlalaiá #Ep30 - Renata Mattar e Gustavo Finkler - Cantos de Trabalho

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O 30º episódio do Podcast Podlalaiá Samba Clube inaugurou a temporada de 2026 com uma verdadeira aula magna de história, memória e cultura popular brasileira. O apresentador Rafael, que tradicionalmente conduz debates sobre o universo do samba e do carnaval, decidiu expandir os horizontes do programa para investigar as raízes profundas da musicalidade nacional. Os convidados desta edição foram a pesquisadora e cantora Renata Mattar e o músico e arranjador Gustavo Finkler, fundadores da aclamada Companhia Cabelo de Maria. O tema central girou em torno de um dos pilares mais esquecidos e fascinantes da nossa formação cultural: os Cantos de Trabalho.

No início do programa, após os tradicionais agradecimentos aos parceiros do podcast (como o personal trainer Felipe Donato, a Boa Vila Espetaria e o estúdio Yourcast), Rafael compartilhou a curiosa história de como chegou aos convidados. Em uma manhã de domingo, assistindo a um episódio comemorativo de 46 anos do programa Globo Rural, ele se deparou com uma reportagem sobre cantos de trabalho estrelada por Renata Mattar. Imediatamente fascinado pela profundidade do tema, Rafael entrou em contato pelas redes sociais, resultando neste encontro memorável.

O Despertar: Do Canto Lírico à Cultura Popular e o Convite de Ariano Suassuna

A jornada de Renata Mattar é marcada por reviravoltas guiadas pela paixão à música. Ela relatou que sua formação inicial foi no canto lírico. Contudo, durante a faculdade, sentiu um distanciamento crescente em relação ao rigor técnico e ao repertório europeu, que, segundo ela, não tocavam a sua alma. A virada de chave aconteceu quando ela teve contato com os registros da Missão de Pesquisas Folclóricas, expedição idealizada por Mário de Andrade no final da década de 1930, que viajou pelo Brasil mapeando as manifestações populares.

Fascinada pelas partituras e histórias deixadas por Mário de Andrade e pesquisadores como Paulo Dias (do Instituto Cachoeira), Renata começou a se embrenhar nos batuques de umbigada, no jongo e nas rodas de samba rural em São Paulo. Mas o destino reservava um salto ainda maior. Em meados dos anos 90, o lendário escritor e dramaturgo Ariano Suassuna a assistiu cantando ao lado de Antônio Nóbrega no Teatro Brincante. Pouco tempo depois, quando assumiu a Secretaria de Cultura em Recife, Suassuna telefonou pessoalmente para Renata (que na época recebeu o recado por um bipe e retornou de um orelhão) convidando-a para integrar o núcleo de teatro do Movimento Armorial em Pernambuco. Ela aceitou na hora, mudando-se para o Nordeste e mergulhando de cabeça nas festas de Cavalo Marinho, Maracatus e folguedos regionais.

A Essência dos Cantos de Trabalho e a Subversão da "Resiliência"

Foi no Nordeste que Renata começou sua busca incessante pelos cantos de trabalho — músicas entoadas por trabalhadores rurais e urbanos durante tarefas exaustivas para sincronizar os movimentos, aliviar o peso da lida e espantar a dor. Ela citou um exemplo fascinante registrado por Mário de Andrade na década de 30: os carregadores de piano em Pernambuco (geralmente ex-escravizados conhecidos como "ganhadores") que cantavam para sincronizar os passos, garantindo que o piano não balançasse e não desafinasse durante o transporte pelas ladeiras.

Neste ponto, Rafael fez uma reflexão profunda sobre o uso moderno da palavra "resiliência". Ele criticou como o mundo corporativo atual utiliza o termo para romantizar o sofrimento e exigir que o trabalhador suporte opressões de forma passiva. Renata concordou plenamente, destacando que os cantos de trabalho eram exatamente o oposto da passividade: eles eram uma forma de resistência e subversão. Ao cantar, o trabalhador rural, mesmo preso a uma condição de vida dura, libertava sua alma. O canto introduzia a liberdade em um ambiente de exploração, permitindo que os lavradores improvisassem versos, mandassem recados, fizessem fofocas e até planejassem fugas (através de códigos e metáforas) debaixo do nariz dos patrões.

As Destaladeiras de Fumo de Arapiraca: Apagamento e Redescoberta

O momento mais emocionante da trajetória de Renata ocorreu em 1999, na zona rural de Arapiraca, Alagoas. Uma amiga a levou para conhecer as comunidades que viviam do plantio do fumo. Renata explicou como o avanço capitalista na década de 1960 destruiu a vida comunitária dessas pessoas. Empresários compraram as terras, introduziram adubos químicos e transformaram os agricultores de subsistência em mão de obra barata escravizada pelas fábricas de fumo. E o mais cruel: os empresários proibiram expressamente o canto durante o trabalho (fato comprovado por jornais da época).

Apesar dessa violência histórica, Renata encontrou um grupo de senhoras que ainda guardava as cantigas na memória. Ao serem visitadas, elas sentaram-se no chão, pegaram folhas de fumo e começaram a cantar a três vozes, de forma instintiva e com uma potência ancestral arrebatadora. Um dos cantos entoados e lembrados no programa foi o "Pisa Pilão", usado para pedir uma pausa para hidratação durante o trabalho:

"Pisa pilão / Laê la laê laê, fazendeiro eu quero beber
Se eu soubesse que tu vinhas, faz o dia maior
Dava um nó na fita verde, prende o raio do sol
Laê la laê laê, fazendeiro eu quero beber"

O Cabelo de Maria e o Show no Sesc: De Invisíveis a Mestras

A entrada de Gustavo Finkler na história trouxe a estrutura necessária para levar essa cultura aos palcos. Eles se conheceram em Ouro Preto e logo formaram a Cia Cabelo de Maria. O objetivo de Renata não era se apropriar das músicas e ser a estrela, mas dar visibilidade aos verdadeiros detentores daquela arte. Em 2007, após uma apresentação no Sesc Pinheiros, o então diretor do Sesc SP, Danilo Miranda, ficou maravilhado e ordenou a gravação imediata de um disco.

Renata e Gustavo exigiram que as mulheres de Arapiraca participassem. O Sesc levou um estúdio móvel para Alagoas, e depois convidou as destaladeiras para um grande show no Dia do Trabalhador em São Paulo. As mulheres, muitas das quais nunca tinham andado de avião ou saído de seus povoados, sentaram-se no palco do Sesc com suas caixas de fumo e cantaram com a maior naturalidade do mundo para uma plateia lotada. Esse evento transformou a vida delas: de trabalhadoras invisíveis e marginalizadas, elas passaram a ser reverenciadas como mestras (griôs) em suas próprias comunidades, e as escolas locais voltaram a ensinar os cantos para as crianças.

Ritualidade, Boi Roubado e os Desafios de Sobrevivência

A conversa se aprofundou nos rituais de mutirão pelo Brasil (também chamados de putirão, adjuntório, traição ou brão). Renata descreveu a tradição do "Boi Roubado" na Bahia: os membros da comunidade se reúnem em segredo na madrugada para limpar (roçar) o terreno de um companheiro que não daria conta sozinho. Quando o dia amanhece e o trabalho está feito, eles soltam rojões. O dono da terra, ao ser "roubado" (presenteado com o trabalho), deve retribuir matando um boi ou carneiro e oferecendo uma festa grandiosa.

Em São Paulo, na região de Lagoinha, existe o "Brão". Durante o trabalho na roça, as duplas formam "linhas" (versos cantados com enigmas e metáforas sobre fatos que estão acontecendo no momento). A outra dupla precisa decifrar a charada e responder também cantando versos improvisados, provando o nível de agilidade mental e sofisticação poética desses lavradores.

Infelizmente, Renata lamentou que essa cultura está em grave risco de desaparecimento. Além da mecanização agrícola e do desinteresse dos jovens, ela denunciou a ação de certas correntes religiosas neopentecostais que promovem um apagamento agressivo da memória. Ao demonizarem os cantos de trabalho e as festas populares, prometendo "salvação individual", esses grupos destroem os laços de solidariedade comunitária que mantinham essas populações unidas e fortes.

Documentários e a Atualização da Tradição

Para lutar contra esse apagamento, Renata, Gustavo e a produtora Grão Filmes venceram um edital do ProAC para gravar uma série documental de seis episódios sobre as comunidades que ainda preservam esses costumes, como a bata do feijão em Serra Preta (BA) e o Brão paulista. O registro audiovisual é vital para imortalizar esses saberes, seguindo os passos de clássicos como "O Canto dos Escravos" (Aires da Mata Machado Filho / Clementina de Jesus) e os documentários antropológicos de Leon Hirszman na década de 1970 ("Cantos de Trabalho").

Apesar das adversidades, a cultura se reinventa. O programa evidenciou que a tradição não é algo congelado no tempo. Com a chegada da tecnologia, os agricultores criaram grupos no WhatsApp para trocar cantigas. Surpreendentemente, eles compuseram uma cantiga de trabalho moderna reclamando do próprio aplicativo:

"Sai do WhatsApp meu bem, sai do WhatsApp meu bem
Você me fez sofrer, você me fez chorar
Você me abandonou por causa do celular"

Encerramento

A entrevista foi encerrada com um forte sentimento de gratidão. Rafael destacou que a pesquisa da Cia Cabelo de Maria nos ensina que, para construir um futuro próspero, o Brasil precisa recuperar sua capacidade de encontro, de diálogo e de comunhão — valores presentes na essência do mutirão. Coroando a edição com muita emoção, Renata Mattar cantou à capela a cantiga "Minervina", ensinada pela Mestra Rosália (de 80 anos), um belíssimo canto de tirar a palha do arroz que encantou os apresentadores e todos os ouvintes do podcast. O episódio 30 se firmou, assim, como um registro indispensável da memória e da identidade genuína do povo brasileiro.