As Raízes Familiares e a Iniciação no Polo a Cavalo
O atleta Calão Melo, profissional do polo a cavalo há mais de 30 anos, revela que o esporte está em seu sangue desde a infância. Seu avô e seu pai já praticavam a modalidade, o que lhe proporcionou um contato precoce com cavalos. Começou com outras atividades equestres, como hipismo clássico, hipismo rural e concurso de deitação, mas foi aos 17 anos que decidiu dedicar-se exclusivamente ao polo, nunca mais parando. Agora aos 52 anos, acumula uma carreira de destaque, sendo bicampeão mundial, duas vezes vice-campeão mundial, e atuando como capitão e técnico da seleção brasileira na última edição do Mundial na Argentina.
O Brasil, diferentemente da Argentina onde o esporte é mais disseminado, enfrenta desafios de acesso. Calão descreve o polo como um esporte muito fechado no Brasil, restrito a famílias, onde pessoas interessadas não têm fácil acesso. Ele possui uma escola de polo na Hípica Paulista, mas atualmente só pode atender aos sócios do clube. Indaiatuba é apontada como o maior centro de polo do país, onde é possível fazer aulas. Calão realiza clínicas para iniciantes em Indaiatuba, mas ressalta que a principal dificuldade para a expansão do esporte é justamente a falta de locais acessíveis para começar.
A Realidade da Preparação Física e Prevenção de Lesões no Polo
Calão admite que, quando iniciou sua trajetória, não existia uma preparação física específica para o polo a cavalo. Não havia acompanhamento médico para evitar lesões, apenas uma preocupação com o condicionamento cardiovascular para o fôlego. Ele acredita que quanto melhor a equitação do atleta, menores as chances de lesões. Por ter passado a infância em uma propriedade rural em Avaré, no interior de São Paulo, com criação de cavalos voltada para o esporte equestre, Calão teve muito mais tempo em cima do cavalo do que preparação formal, o que lhe deu uma equitação muito boa.
O fisioterapeuta Fábio Sperlin complementa que o polo é um esporte novo para ele e, ao pesquisar, não encontrou estudos biomecânicos aprofundados como existem para o tênis e o golfe. Não há análises 3D ou pontos de correção de rotação do úmero ou pronação do punho para prevenção e correção de lesões no polo. Calão confirma que nunca houve debate entre os jogadores sobre biomecânica. O movimento é considerado algo natural, cada um encontra seu próprio 'swing', e não existem estudos relacionando ângulos de rotação com lesões, apenas com resultados de potência e explosão do golpe.
Dinâmica e Estrutura de uma Partida de Polo
Calão explica que o polo funciona de forma semelhante ao automobilismo, onde se começa no 'kart' (polo de baixo handicap) e se evolui. O jogo é dividido em tempos ou chukkers: com 4 cavalos para um jogo de 4 tempos, evoluindo para 5 tempos na Europa e no Brasil, e 6 tempos para jogos de alto handicap. Na Argentina, os abertos mais importantes do mundo chegam a ter 8 tempos, exigindo que cada atleta leve de 16 a 18 cavalos para o campo. Em um jogo de 6 tempos no Brasil, cada jogador utiliza de 8 a 12 animais em nível profissional.
A partida é disputada por quatro jogadores de cada lado, em um campo de 285 metros de comprimento por 160 metros de largura. O gol tem 7,15 metros de largura e altura indefinida, diferentemente do futebol. Ao contrário de outras modalidades, Calão revela que o polo não tem transmissão televisiva regular, e o Brasil sequer tem competições oficiais. Um momento de destaque foi a visita da monarquia inglesa, com o príncipe Harry, em um evento beneficente. Calão foi solicitado pela Confederação Brasileira de Polo para organizar o evento, acabou sendo convidado a jogar ao lado do príncipe, que descreve como um 'cara muito legal'.
Lesões Mais Comuns e o Tratamento na Visão do Fisioterapeuta
Calão classifica o polo como um esporte de alto risco, pois envolve cavalos de 500 kg, com muita energia e personalidade própria. As lesões mais frequentes incluem: lesões de adutor (na virilha), lesões de punho e a epicondilite lateral (cotovelo do tenista), que também ocorre no polo devido ao uso intenso da munheca e à fricção gerada pelas travadas do taco, sobrecarregando o antebraço. Calão admite que sempre foi o jogador que mais se machucava no time, devido ao seu estilo de jogo intenso, com muito contato, marcação e defesa, atuando para impedir adversários com cavalos mais rápidos.
Fábio Sperlin, fisioterapeuta, detalha que o tratamento de lesões como a do adutor depende crucialmente da localização. Se a lesão for próxima à origem do tendão, é menos vascularizada e tem correlação com pubalgia ou pubite, exigindo abordagem diferente e tempo de cicatrização mais longo. Ele destaca que nada acelera a regeneração tecidual, que é um processo fisiológico. Cita uma frase de um médico do Milan: 'Tá com pressa? Faz devagar'. O papel do fisioterapeuta é, dentro do tempo fisiológico, dar estímulos mecânicos precocemente, cuidar da saúde do tecido reduzindo edema e sangue (tóxicos para o reparo), e introduzir função o mais rápido possível. Protocolos atuais para lesões musculares e de tornozelo em atletas profissionais têm acelerado a recuperação, respeitando a fisiologia e a individualidade de cada atleta.
A Importância do Suporte Psicológico e da Confiança na Recuperação
Calão revela que sempre teve total interesse em voltar o mais rápido possível devido à sequência de torneios e obrigações contratuais. Ele sempre acelerou seu processo de recuperação. Porém, houve um momento em que, após uma lesão complexa envolvendo pubite e dor na região pélvica, ele ficou com receio de romper novamente ('gato escaldado'). Foi quando Fábio disse: 'Agora é o seguinte, você vai montar no cavalo, vai jogar e vai esquecer disso'. O fisioterapeuta o acompanhou ao interior para a primeira montada, dando o 'empurrão' necessário para superar o medo. Fábio destaca a importância de construir uma relação de confiança e transparência, onde o atleta sabe que o profissional está 'jogando junto'. Ele enfatiza que a fisioterapia moderna é ativa: o paciente faz exercícios, aprende e leva um legado para o dia a dia, prevenindo não apenas novas lesões, mas também situações cotidianas.
Calão reforça que a confiança na equipe multidisciplinar (médico, fisioterapeuta, treinador) é fundamental. Ele aprendeu com a maturidade e com a experiência de várias lesões que, às vezes, sua ansiedade o fez ignorar orientações e 'bater a cabeça na parede'. Hoje, ele reconhece a importância de mudar o estilo de jogo para se preservar, evitando jogadas de maior risco. A preparação da 'tropa' (os cavalos) também é crucial para evitar lesões, pois cada cavalo tem reações diferentes e exige uma montada específica.
A Biomecânica Comparada: Polo, Tênis e Golfe
Calão joga os três esportes (polo, tênis e golfe) e faz uma análise interessante. Ele observa que as lesões no polo não acontecem com a mesma intensidade que no tênis. Seu problema atual é uma epicondilite lateral adquirida jogando tênis, que já dura quase três meses. Calão admite que sua técnica no tênis é deficiente, com uso excessivo da munheca (um hábito trazido do polo), enquanto no golfe foi o esporte que menos se machucou, embora sinta dores lombares relacionadas ao seu posicionamento. Fábio Sperlin, especialista em biomecânica do tênis, comenta que para tratar um paciente com epicondilite, ele sempre pede para ver o golpe (direita, esquerda e saque) através de filmagens. Ele trabalha muito mais na melhora biomecânica do gestual esportivo do que apenas preparar o cotovelo ou punho isoladamente. Se um atleta não tem boa mobilidade de quadril, isso afetará o movimento do tronco e, consequentemente, o braço, gerando compensações. Fábio relata casos em que identificou restrição no quadril como causa de um problema no 'backswing' de uma tenista, e após comunicar o treinador e focar na biomecânica do quadril, o movimento melhorou significativamente.
O Caso Específico da Lesão de Punho e a Tecnologia dos Tacos
Calão narra um episódio marcante: durante uma temporada em Sotogrande, após vencer uma semifinal, ele foi pegar seu filho de 5 anos no meio do campo para colocá-lo no cavalo. Ao fazer a força para a criança passar a perna, ele ouviu um estalo e rompeu alguma estrutura no punho, sendo impossibilitado de jogar a final. Teve que jogar o restante da temporada à base de infiltrações, sem um profissional de confiança no país. As lesões de punho no polo geralmente ocorrem em momentos de máxima extensão para alcançar a bola, quando o jogador sofre um impacto ou trava do taco adversário.
Sobre os equipamentos, Calão menciona que a tecnologia dos tacos de polo evoluiu: antigamente eram muito mais pesados; hoje são mais leves (500 a 550g), com variações de peso, flexibilidade e balanço. Há uma tendência a usar mais técnica de swing do que força bruta. Jogadores de defesa ou armação, como ele, que estão sempre travando e disputando jogadas, utilizam tacos mais pesados, o que aumenta o risco de epicondilite. Fábio Sperlin complementa sobre as lesões de punho, destacando sua complexidade devido ao grande número de ossos, tendões e ligamentos. Ele ressalta que a cicatrização após procedimentos cirúrgicos não distingue pele, osso ou tendão, criando aderências e rigidez, o que torna a reabilitação um processo focado primeiro em ganhar amplitude de movimento e deslizamento dos tendões, para depois ganhar força.
Mensagem Final e Oportunidades para Conhecer o Polo
Calão deixa uma mensagem de incentivo: todos que tiverem oportunidade devem entender e tentar iniciar no polo. Ele disponibiliza seu projeto 'Calão Melo Sports Development' e suas clínicas em Indaiatuba para pessoas interessadas em começar. Enfatiza que o contato com o cavalo é formidável, independentemente do nível que o praticante queira alcançar. Fábio Sperlin convida o público a conhecer a fisioterapia ativa e sua clínica, que mistura um ambiente de clube e departamento médico para que o paciente acredite no processo. Ambos agradecem ao apresentador e destacam a importância da orientação adequada, da preparação física, e da maturidade para reconhecer os próprios limites, prevenindo lesões e garantindo longevidade no esporte.