O carro virou um smartphone sobre rodas: quem vai dominar a indústria de trilhões?
Neste episódio do Tomorrow Talks, os apresentadores João Pedro Morais e Bruno Betega recebem Antônio Azevedo, fundador da Loj GO, uma empresa brasileira especializada em soluções de conectividade, inteligência artificial e software embarcado para veículos. A conversa percorre a trajetória de Antônio desde a venda de minidiscs na adolescência até se tornar um dos principais fornecedores de centrais multimídia para montadoras como Toyota e Nissan, além de explorar o futuro da mobilidade conectada, a competição com gigantes globais e os desafios de empreender no Brasil.
A trajetória da Loj GO: do aftermarket à linha de montagem
Antônio começou sua jornada no mercado automotivo identificando um nicho: os carros ainda vinham com rádios simples, enquanto os consumidores já queriam TV digital, câmeras de ré e telas mais avançadas. A Loj GO entrou inicialmente como fornecedora de acessórios para concessionárias, mas logo se destacou pelo pós-venda diferenciado. Enquanto concorrentes deixavam clientes com buracos no painel, a Loj GO enviava uma central nova imediatamente e consertava a danificada depois, garantindo zero dor de cabeça para o concessionário.
Esse diferencial chamou a atenção da Toyota, que em 2014 realizou uma pesquisa entre seus dealers para identificar os acessórios mais vendidos e as empresas com melhor suporte. A Loj GO foi nomeada fornecedora de acessórios Toyota e, seis meses depois, deu um salto ainda maior: tornou-se fornecedora OIM (Original Equipment Manufacturer) para a linha de montagem do Etios, justamente na época da Copa do Mundo de 2014, quando a TV digital Full HD era um diferencial que ninguém mais oferecia.
Antônio destaca a importância da parceria com a Toyota: “Eles nos ensinaram como fazer negócio com montadora. O japonês falou: ‘Antônio, vocês não sabem fazer OIM, vocês querem aprender?’” Essa escola prática e remunerada foi fundamental para que a empresa mudasse seu foco do aftermarket para o mercado de linha de montagem, que exige níveis muito mais altos de previsibilidade, qualidade e responsabilidade.
Inovação como motor de crescimento: do Waze ao manual cognitivo
A inovação sempre foi um pilar da Loj GO. Em 2015, a empresa já oferecia centrais multimídia com Waze e Spotify integrados, em uma época em que CarPlay e Android Auto ainda não existiam. Isso ajudou a Nissan a cumprir seu slogan “Innovation that Excites”, levando a Loj GO a desenvolver projetos para todo o lineup da montadora, incluindo March, Versa, Sentra, Frontier, Kicks e até a X-Trail para a Argentina, entre 2015 e 2020.
Outro marco foi a introdução de uma assistente baseada em IA desde 2019, inicialmente com IBM Watson e hoje com tecnologias mais avançadas. Essa assistente não apenas responde a perguntas sobre o veículo, mas também atua como uma companheira de viagem: sugere música, indica postos de combustível, recomenda restaurantes com base no humor do motorista e, em caso de problemas, agenda automaticamente uma visita à concessionária preferida. A integração com parceiros comerciais permite monetizar a tela, criando uma roda onde todos ganham: montadora, parceiro e motorista.
“Se você tá se sentindo mal hoje, ela vai achar uma forma de te dar um up”, explica Antônio. Essa funcionalidade vai além da simples navegação e transforma a tela em uma plataforma de serviços, onde a experiência do usuário se torna um fator de retenção — algo que marcas como Tesla já entenderam ao eliminar o CarPlay e o Android Auto para oferecer seus próprios ecossistemas.
A corrida dos autônomos e o domínio da Tesla
Antônio é enfático ao falar sobre o futuro: a Tesla está muito à frente no desenvolvimento de carros autônomos. Diferente de outras montadoras que usam sensores LiDAR (caros e sujeitos a problemas de fornecimento), a Tesla optou por um sistema baseado exclusivamente em câmeras e inteligência artificial. Isso reduz custos e permite escalabilidade. “Você entra na garagem, coloca o endereço, e o carro te leva até o shopping. Quando você sai, aperta um botão e o carro vem te buscar.”
Ele compara a experiência de dirigir um Tesla com a migração de um smartphone Android para o iPhone: “Depois que você anda em um Tesla, você não quer trocar mais.” A usabilidade, a facilidade e a capacidade de direção defensiva (como desviar de um caminhão desgovernado) criam um vínculo que vai além do carro. “O Tesla não cansa, ele vê 360° o tempo todo.”
Para as montadoras tradicionais, o desafio é cultural. Empresas centenárias têm uma mentalidade focada em metal, rodas e motores, e enfrentam dificuldades para integrar software de forma competitiva. “A Volkswagen comprou uma empresa de software e não deu certo. A cabeça da empresa é de carro, não de tecnologia”, observa Antônio. A Tesla, por outro lado, nasceu como uma empresa de tecnologia que faz carros, e isso faz toda a diferença.
Conectividade, dados e monetização: a nova fronteira
Um dos pontos mais inovadores da conversa é a visão de Antônio sobre a monetização da tela do carro. Ele argumenta que as montadoras têm um ativo subutilizado: a tela já instalada em milhões de veículos. Com uma plataforma de anúncios integrada (incar ads), é possível gerar receita contínua sem investimento adicional em hardware. Parcerias com postos de combustível, restaurantes e outros serviços podem subsidiar até mesmo o plano de dados do veículo.
“70% da receita do Google vem de anúncios. Por que as montadoras, que vendem milhões de carros por ano, não usam essa tela?” Ele explica que a montadora pode oferecer um plano de dados subsidiado, melhorando a experiência do cliente e criando um fluxo de receita constante — algo que não depende da venda de um novo veículo. Essa abordagem também aumenta a fidelização, pois diferencia o carro da concorrência, que muitas vezes se resume ao mesmo CarPlay ou Android Auto.
Além disso, os dados gerados pelo uso do veículo são extremamente valiosos. A montadora pode saber, por exemplo, quantos carros rodam em cada região, quais aplicativos são mais usados e até mesmo prever tendências de mercado. Antônio ressalta que a Loj GO já possui um painel que permite à montadora acessar essas informações de forma agregada, respeitando a LGPD.
O desafio da internacionalização e a expansão para os Estados Unidos
A Loj GO já havia dado os primeiros passos para se tornar uma empresa internacional em 2019, com a criação de uma filial nos Estados Unidos. No entanto, a pandemia e a perda de um contrato importante no Brasil adiaram o plano. Agora, a empresa retomou o processo e está em fase de estudo tributário e homologação de produtos.
Antônio destaca que o mercado americano é muito mais rigoroso em termos legais, especialmente em relação à rastreabilidade da cadeia de suprimentos. “Tenho que garantir que meu fornecedor na China não usa mão de obra escrava ou infantil. Se o produto parar na alfândega americana, vão pedir esse comprovante.” Além disso, há um blacklist de componentes chineses de telecomunicações, que não podem entrar nos EUA por questões de segurança nacional. “Cada carro chinês é um ponto de espionagem”, comenta, referindo-se às câmeras viradas para dentro e para fora.
Enquanto isso, o Brasil continua de portas abertas para a China, com benefícios tributários que facilitam a entrada de montadoras chinesas — algo que Antônio vê com preocupação, mas também como uma oportunidade para empresas locais se diferenciarem por meio da inovação e velocidade.
Lições de empreendedorismo: cultura organizacional, gestão e resiliência
Antônio compartilha abertamente seus erros e aprendizados ao longo da trajetória. Ele admite que a gestão sempre foi o calcanhar de Aquiles da Loj GO, mas que a cultura organizacional foi um fator decisivo para o sucesso. “Não existe ego aqui. Qualquer um tem o mesmo tom de voz. Eu pergunto: ‘O que você acha disso?’ porque o especialista é o cara que sabe, não eu.”
Essa cultura de autonomia e proatividade fez com que ex-funcionários que saíram para concorrentes pedissem para voltar, pois não se adaptaram a ambientes mais engessados. “O que a gente gosta na Loj GO são pessoas que fazem além do que foram contratadas para fazer. Pessoas inteligentes, proativas, que pesquisam coisas fora da sua área.”
Ele também fala sobre a importância de terceirizar o que não é core business, como contabilidade e jurídico, para manter o foco naquilo que realmente agrega valor. Sobre o dilema de fundadores, ele é direto: “Sua decisão pode impactar 88 pessoas (22 funcionários e suas famílias). Você precisa ter culhão, respirar fundo, e em casa não levar o problema.”
Uma das frases mais marcantes do episódio é a metáfora da escada: “Se você esperar ver o degrau, qualquer um sobe. Coloque o pé no próximo degrau sem ver ele. Acredite que ele está lá.” Essa filosofia o guiou nos momentos mais difíceis, inclusive quando a empresa esteve à beira da falência em 2014, mas decidiu investir no Salão do Automóvel — o que resultou no maior contrato da história da Loj GO com a Nissan.
Onde encontrar a Loj GO e Antônio Azevedo
Antônio Azevedo pode ser encontrado no Instagram (@antonioazevedoj) e a Loj GO também está presente nas redes sociais como @lojgomobility. A empresa possui uma nova unidade de negócios, a Loj GOFit, focada em sistemas de monitoramento de motoristas (driver monitoring), reforçando seu compromisso com a segurança e a eficiência no transporte.
A Loj GO trabalha com um modelo de negócios enxuto, com cerca de 22 funcionários diretos e uma ampla rede de terceirizados, permitindo alta flexibilidade e foco em inovação. A empresa já foi nomeada para projetos futuros que prometem superar os negócios anteriores, incluindo um contrato de grande porte previsto para 2027.
O episódio termina com uma mensagem de Antônio para os empreendedores: “Não desista na primeira dificuldade. A dificuldade te molda para chegar ao próximo degrau. Aprenda com os erros, porque eles são o que te tiram do ponto baixo para o ponto alto.”