Introdução: Andreia Schwarz e a Criação do Gastrodeias – Paixão por Gastronomia que Virou Profissão
Neste episódio do podcast Francamente, recebemos Andreia Schwarz, confeiteira há mais de 20 anos e criadora do perfil Gastrodeias, uma curadoria de confiança para descobrir bons lugares e experiências gastronômicas. Com uma trajetória que começou em São Paulo, passou pelo Rio de Janeiro e retornou a São Paulo em 2023, Andreia transformou um hobby em uma carreira de sucesso, conquistando mais de 200 mil seguidores em poucos anos. Nesta entrevista, ela compartilhou sua jornada, seus critérios para avaliar restaurantes, a importância da hospitalidade, e sua visão sobre o prazer de viver bem – que, para ela, está nos detalhes e na simplicidade.
Das Panelas da Confeitaria ao Mundo Digital: A Transição de Andreia
Andreia começou sua carreira como confeiteira em São Paulo, onde teve um atelier e participou de um programa na Fox chamado "A Confeitaria", ao lado de chefs como Lucas Corazza, Diego Lozano e Rogério Shimura. Depois, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde abriu um novo atelier e uma escola de gastronomia chamada Casa 84, na Gávea. Lá, dava aulas de confeitaria (na época do boom do brigadeiro gourmet) e convidava chefs, incluindo participantes do MasterChef, para jantares especiais.
O perfil Gastrodeias nasceu em 2014 como um hobby, uma forma de compartilhar sua paixão por sair para comer. Mas foi durante a pandemia que uma virada aconteceu: cansada da confeitaria, sem ânimo para reabrir um novo espaço no Rio, e inspirada por uma visita ao recém-inaugurado Bar dos Arcos em São Paulo, ela decidiu levar o perfil a sério. Em 2023, Andreia retornou a São Paulo com cerca de 10 mil seguidores; hoje, ultrapassa os 200 mil, um crescimento que ela mesma define como "muito rápido".
O Trabalho por Trás do Perfil: Seleção, Criação e Bastidores
Atualmente, Andreia vive uma rotina intensa, muitas vezes trabalhando mais de 16 horas por dia. Ela recebe inúmeros convites de restaurantes e assessorias, mas seleciona cuidadosamente os lugares que visita, priorizando aqueles com história para contar. "Eu só aceito ir em lugares que eu gosto, em que eu acredito e que eu tenho vontade de conhecer." Seu conteúdo não é apenas sobre a comida; ela busca transmitir a atmosfera, a decoração, a trilha sonora e as sensações do local.
O processo criativo de Andreia é artesanal: ela escreve o texto e grava a narração primeiro, e depois encaixa as imagens. Cada vídeo pode levar de 3 a 4 horas de edição. Embora eventualmente contrate um videomaker para publis com orçamento, ela prefere editar ela mesma a maior parte do conteúdo. Hoje, ela reconhece que precisa delegar mais para preservar sua saúde, mas mantém o controle criativo. "Para mim, o trabalho perfeito é quando une uma marca que eu acredito, um evento que eu acredito e pessoas que eu acredito."
O Critério de Andreia: Autenticidade, Detalhes e a Importância da Hospitalidade
Um dos diferenciais de Andreia é sua busca pela verdade. Ela critica conteúdos que não mostram a realidade do espaço e se esforça para oferecer uma experiência real aos seus seguidores. Entre os detalhes que ela mais repara estão: a decoração, o serviço de mesa, a trilha sonora e, sobretudo, a hospitalidade. "Hospitalidade não é cara, são pequenos detalhes: alguém pegar seu casaco, estender a cadeira, colocar um guardanapo novo quando você volta do banheiro."
Andreia também valoriza cozinhas abertas, o preparo na mesa (como steak tartare ou crepes suflê com fogo), e a possibilidade de conhecer a origem dos ingredientes. Ela adora visitar queijarias, fazendas de azeite e charcutarias para mostrar a cadeia produtiva. "Quando você conhece todo o processo desde o ingrediente até o seu prato, você valoriza o que tá ali de um outro jeito."
O Caso Jardim Matarazzo (Cidade Matarazzo): Um Exercício de Equilíbrio
Andreia usou o exemplo do Jardim Matarazzo (ou Cidade Matarazzo) para ilustrar como lida com lugares que geram polêmicas. Ela visitou o espaço logo após a abertura, ainda sem convite, e ficou impressionada com a grandiosidade e a revitalização de uma área abandonada. Para ela, o lugar tem seu público: é um espaço divertido, com comida italiana honesta, que recebe milhares de pessoas por dia – uma operação gigantesca que não pode ser comparada a um restaurante Michelin.
Andreia, no entanto, não ignorou seus incômodos. Ela menciona, por exemplo, uma área da salumeria onde presuntos falsos estão pendurados no teto – o que ela achou "com cara de Disney". Em vez de criticar publicamente, ela deu o feedback diretamente aos funcionários: "Poxa, coloca um Parma de verdade, não custa". Sua filosofia é exaltar o que há de bom e deixar que o público decida. "Quem se identificar com o ambiente vai, quem não se identificar, não vai. Ninguém é obrigado a gostar de tudo que eu posto."
O Que Encanta Andreia: História, Surpresa e a Simplicidade dos Detalhes
Andreia compartilhou dois exemplos recentes que a fizeram sair maravilhada. O primeiro foi o restaurante Dona Lucinha, em Belo Horizonte. Mais do que a comida (simples e mineira), o que a emocionou foi a história: a filha da fundadora, Marcinha, sentou-se à mesa, contou a trajetória e recitou poemas. "Não é só sobre comida, é história, é legado." O segundo foi o restaurante Eva (duas estrelas Michelin), que ela descreve como um "parque de diversões": pratos que surpreendem (uma moqueca branca que não parecia uma moqueca), texturas e temperaturas inesperadas, apresentações elaboradas. "Gosto de ser surpreendida com o que você acha que é doce e é salgado, do que você acha que é quente e está gelado."
Andreia também valoriza a simplicidade. Ela come McDonald's, pede hambúrguer em delivery e não vê problema nisso. "Vou do boteco ao estrelado e consigo enxergar o que cada um tem de bom." Para ela, o prazer de viver bem não está associado ao dinheiro, mas sim à capacidade de observar os pequenos detalhes do dia a dia.
Gastronomia no Rio vs. São Paulo: Um Contraste de Ritmo e Abertura
Andreia comparou os cenários gastronômicos das duas cidades. Para ela, São Paulo é muito mais amplo – um mundo de possibilidades, com cozinhas de todos os países, muitas vezes melhores que no país de origem. Ela sente que os paulistanos são mais abertos a explorar o diferente e a experimentar novas culturas. O Rio de Janeiro, onde morou por anos, tem uma cena gastronômica que cresceu muito, mas em um ritmo mais lento. Por outro lado, o Rio "briga com a natureza": praia, trilhas e o famoso Braseiro (que ela frequentava todos os domingos e sente muita falta). Andreia brinca que quer criar um quadro para encontrar um lugar em São Paulo que se compare ao Braseiro do Rio.
Curadoria da Feira Gostosa: Levando o Digital para o Offline
Há cerca de um ano, Andreia foi convidada por Maurício para ser curadora da Feira Gostosa. É um trabalho que ela abraçou com entusiasmo, pois permite trazer seu olhar do mundo digital para o físico. Sua curadoria foge do óbvio: ela convida restaurantes que estão participando de feiras pela primeira vez e que topam o desafio. A feira já vai para a sexta edição, e Andreia tem muito orgulho do projeto, que possibilita o contato olho no olho com seu público.
Francamente: O Prazer de Viver Bem Está nos Detalhes e na Simplicidade
Na pergunta final do quadro Francamente, Andreia respondeu: o que as pessoas ainda não entenderam sobre o prazer de viver bem é que ele não é sobre dinheiro. Para ela, o prazer está na simplicidade e nos detalhes. "Nem sempre a refeição precisa ser a mais cara; você senta, conversa com o dono do bar, conhece a história dele. É prestar atenção nos pequenos detalhes da vida: a árvore florida, a nuvem no céu." Andreia conta que, desde que focou no Gastrodeias e passou a morar sozinha, começou a observar mais os detalhes – a roupa das pessoas, a arquitetura, a natureza. "O prazer da vida tá nos detalhes, na história, no observar."