EP.02 - 2/3: O que realmente importa para o seu negócio | Pílulas de estratégia

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A Mentalidade de Dono: Proximidade, Cultura e o Boi que Só Engorda com o Olho do Dono

Gabriel Bólico inicia sua reflexão sobre a mentalidade de dono com uma premissa clara: o tradicional funciona. Ele explica que 'tradicional' não significa antigo, mas sim aquilo que perdura o tempo porque realmente funciona. Gabriel utiliza o ditado popular 'o boi só engorda com o olho do dono' para ilustrar que o empreendedor precisa estar presente, acompanhando de perto o negócio, entendendo o que acontece e mantendo a cabeça no dia a dia. Ninguém fará o trabalho para o seu cliente melhor do que a sua própria empresa, e a cultura do dono escorre para baixo, moldando toda a organização.

Ele adverte sobre um erro comum: empreendedores que tentam terceirizar o core do negócio (como marketing) para agências sem fornecer os insumos adequados – que são o conhecimento especializado sobre o produto e o entendimento profundo do cliente. Sem esses 'ouros' entregues à agência, a relação está fadada à frustração. Para Gabriel, o que é central para o negócio não pode ser terceirizado. No caso da Shop B, o core sempre foi o marketing; na Olist, o core é o produto (ERP) e entender o mercado e a base de clientes.

Equilibrando o Estratégico e o Operacional: O Papel do CEO

Thiago Dalve complementa a fala de Gabriel destacando a importância de o empreendedor ouvir o cliente sem proxies – ou seja, sem interpretações ou relatórios filtrados que podem conter vieses. Conforme o negócio cresce, é comum que o empreendedor se distancie da ponta e passe a receber apenas versões editadas da realidade. Thiago alerta para o perigo de 'delegar' se transformar em 'delargar' – quando o empreendedor perde completamente o contexto sobre uma área. A solução, segundo Gabriel, é encontrar um equilíbrio: o empreendedor precisa sim sair do operacional e ir para o estratégico para que o negócio cresça, mas isso não significa abandonar o operacional. Ele precisa entender muito do operacional, mesmo que não esteja executando tarefas diárias.

Gabriel compartilha sua rotina: toda segunda-feira, sua empresa realiza um encontro com os líderes para saber como está cada área. Se necessário, ele mergulha naquela área específica. O papel do CEO ou dono, segundo ele, é olhar a empresa com olhos de investidor, pensando no que será feito agora para que o negócio se multiplique lá na frente. Isso exige uma gestão data driven (baseada em dados), mas sem perder a conexão com o dia a dia. E, acima de tudo, Gabriel enfatiza que o empreendedor precisa estar feliz na jornada – afinal, a gente trabalha mais do que faz qualquer outra coisa na vida. Ele relata sua rotina intensa de viagens (Santa Catarina, São Paulo, voltando para o aniversário do filho) mas afirma que é muito feliz fazendo o que faz, sentindo profunda gratidão.

Crescimento Acelerado, Dor Financeira e a Necessidade de Evoluir

Thiago pergunta a Gabriel quais foram as duas ou três decisões estratégicas que fizeram a Shop B decolar, mesmo em um mercado extremamente competitivo como o de videogames (a maior indústria do entretenimento, movida a bilhões de dólares). Gabriel responde de forma honesta: crescer dói. No digital, o crescimento é muitas vezes tão rápido que o empreendedor pode saber vender, ter margem, estar crescendo, e ainda assim quebrar. Isso acontece porque o crescimento acelerado cria um caixa descompensado: o dinheiro fica preso na estrutura e no estoque, o capital de giro aperta, e o negócio começa a 'queimar produto' e a operar no vermelho.

Gabriel relata ter passado por muitos momentos difíceis, com boletões para pagar enquanto o caixa 'respirava por aparelhos'. Ele faz um exercício poderoso: peça a qualquer pessoa para relembrar o momento mais feliz e o momento mais difícil da vida. A maioria dirá que o momento difícil foi o que mais ensinou. Nós somos quem somos pelos problemas que tivemos e superamos. A grande virada de chave para Gabriel foi entender uma frase simples e profunda: o que me trouxe até aqui não vai me levar mais pra frente. Foi a partir desse entendimento que ele começou a enxergar o negócio principal como o centro de um flywheel (volante ou roda de inércia) que poderia gerar novos negócios ao redor.

O Flywheel de Negócios: Como a Shop B Criou um Ecossistema de Oportunidades

Gabriel detalha como, a partir da loja de videogames, ele construiu um verdadeiro ecossistema de negócios conectados. Em 2015, lançou o Meu Game Usado, que se tornou o maior site de compra e venda de jogos usados do Brasil, com margens incríveis e acesso a produtos escassos. Em seguida, identificou uma brecha no B2B: Curitiba tinha dezenas ou centenas de lojas de shopping que vendiam games, mas não eram atendidas pelos grandes distribuidores porque seus pedidos eram pequenos. Gabriel passou a comprar da distribuidora e distribuir para essas pequenas lojas – tornando-se, na prática, uma mini distribuidora. Em 2016, criou um WMS (Warehouse Management System) que se tornou tão bom que centenas de sellers passaram a usá-lo.

A partir do serviço de recuperação de usados, ele ofereceu serviços de manutenção para a região de Curitiba. Percebendo que detinha expertise em manutenção, decidiu filmar esse conhecimento e criar um infoproduto. Junto com cada compra, a Shop B enviava um flyer agradecendo e oferecendo: 'Se você tem usados, eu compro; se você quer alugar (em Curitiba), tenho serviço de aluguel; se você é entusiasta e quer ganhar dinheiro, tenho um curso de manutenção'. O resultado foi impressionante: 300 assinantes ativos no serviço de aluguel e R$ 500.000 em vendas de treinamentos (o valor de uma casa, com margem absurda).

Gabriel conclui que o empreendedor muitas vezes não percebe que seu primeiro negócio é apenas a porta de entrada para outras oportunidades. Ele cita a Amazon como exemplo de flywheel: a empresa tem Amazon Prime, AWS, Whole Foods, Twitch – todos conectados. Thiago reforça que o empreendedor atento às demandas dos clientes e às tendências do mercado consegue capturar mais margem e resultado ao longo da cadeia conectada ao seu negócio, sem ficar bitolado no plano original. Se Gabriel tivesse ficado apenas com o plano original, estaria até hoje em uma loja de shopping, nunca teria transacionado bilhões.

Aprendendo com a Frustração: O Papel do Esporte e da Disciplina na Vida do Empreendedor

Gabriel aborda um tema que a escola não ensina: aprender com a frustração e com a dor. Ele argumenta que a dor é um dos momentos de maior reflexão, porque você se depara com a realidade nua e crua, sem escolha a não ser enfrentar o problema, despido de vaidade e ego. Para Gabriel, o lado profissional é importante, mas existem outras esferas que precisam ser equilibradas: a saúde, a família, o lado espiritual e o social. Nenhuma delas pode quebrar.

Ele destaca o esporte como uma escola de frustração e disciplina. No esporte, você não ganha sempre – nem mesmo os maiores campeões, como no tênis (que ele considera um dos esportes mais justos), vencem 100% das vezes. Aprender a lidar com a derrota no esporte ensina que o mundo não gira ao seu redor. Gabriel compartilha sua rotina de treinar duas vezes por dia (academia pela manhã e crossfit à tarde) para extravasar a pressão e manter o corpo disposto. Ele quer que seus filhos pratiquem esportes (como jiu-jitsu) desde cedo para aprenderem essas lições.

Thiago concorda e acrescenta que a frustração faz parte do dia a dia do empreendedor, que toma 'raladas' e muitas vezes não consegue o que quer. Mas a característica comum tanto nos grandes esportistas quanto nos grandes empreendedores é a disciplina e a constância. O negócio não é feito de uma grande ideia salvadora ou de um super-herói. O negócio é feito de quem acorda todos os dias disposto a colocar mais um tijolinho, disposto a enfrentar a realidade dura de empreender no Brasil.