Como a GenAI reescreve o SaaS | Blip Cast #12

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Introdução: O Fim da Interface como a Conhecemos?

Neste episódio do Blipcast, o host Caio Calado reúne três especialistas em design e produto para discutir uma pergunta provocativa: a interface como a conhecemos vai morrer?. Participam Helena Bello (Diretora de Design na Blip), Juliana Proserpio (empreendedora e pesquisadora de futuros) e Thiago Nisvald (CPO da GH Brand e professor). A conversa explora como a IA generativa e agêntica está reescrevendo o software, ampliando a capacidade humana e transformando a relação entre pessoas e máquinas.

Novos Usos e Percepções sobre a IA

O episódio começa com um aquecimento sobre como cada um tem usado a IA de maneiras que nunca imaginariam. Juliana conta que, inicialmente, dizia que a IA era apenas uma ferramenta, mas hoje a vê como uma parceira de pensamento — algo que pode ser maravilhoso e perigoso ao mesmo tempo. Ela criou uma newsletter com uma imagem interativa no estilo Harry Potter em apenas 5 minutos, algo que antes exigiria superprodução.

Thiago, que é daltônico, compartilha como a IA tem sido um divisor de águas em seu trabalho. Desde a criação de design systems no Figma até a gestão de projetos com o Claude e ClickUp, ele consegue agora gerar backlogs completos, com tarefas detalhadas e estimativas de tempo, em minutos — algo que levava dias ou semanas. Helena menciona que usa a IA para curadoria de informação, resumindo dezenas de links em podcasts de 5 minutos, mas ainda tem receio de tratá-la como um ser humano para tarefas mais íntimas, como exames médicos.

Hiperpersonalização e o Risco da Alienação

Thiago observa que a IA pode gerar três ondas de valor: eficiência, qualidade e entregas completamente novas. A terceira onda, ainda pouco explorada, é a hiperpersonalização — experiências únicas para cada usuário. Helena alerta que, com a hiperpersonalização, as pessoas podem ficar cada vez mais isoladas em suas bolhas, perdendo a capacidade de compartilhar histórias e experiências coletivas, essenciais para a humanidade. Juliana complementa que a IA atual tende a concordar com o usuário, o que pode gerar um desconforto social — as pessoas estão se acostumando a interações sem fricção e podem estranhar o contato humano.

A Nova Experiência Cognitiva e o Design de Inteligências

Helena reflete sobre a nova experiência cognitiva que está emergindo: antes, demorávamos para processar informações; agora, a IA processa em segundos, mas será que conseguimos acompanhar? Thiago compara a evolução das interfaces com o exemplo do idioma islandês, que está sendo desculturalizado pelo inglês. Isso levanta a questão: como criar produtos que não apenas repliquem padrões eurocêntricos, mas que valorizem culturas locais e orais? Juliana reforça que os dados são sempre do passado, e a IA tende a reproduzir vieses históricos, como no caso de algoritmos judiciais que replicaram preconceitos raciais nos EUA.

O Conceito de AX: Novos Padrões de Interação Humano-Máquina

Juliana apresenta o AIX (Artificial Intelligence Experience), um novo campo que engloba a experiência com IA generativa e agêntica. Diferente do UX tradicional (baseado em telas, cliques e scroll), o AIX lida com novos padrões de interação: conversação, voz, gestos e até IA física. O manifesto AIX (disponível em ecos.cc/manifesto-ax) propõe princípios como intencionalidade, fricção controlada e proteção da agência humana. O objetivo é evitar que a interação se limite a caixas de prompt, explorando contextos mais ricos e culturais.

Esquemorfismo, Marcas e a Vaca Roxa

Thiago aborda a esquemorfização — o uso de metáforas do mundo físico para ensinar os usuários a interagir com novas tecnologias. Com a IA, esse processo é diferente, pois as pessoas já tratam a tecnologia como algo íntimo. Para se destacar, ele sugere o conceito da "vaca roxa" de Seth Godin: ser tão único no mercado que a marca se torne inconfundível. A diferenciação não vem da tecnologia, mas da identidade da marca traduzida em cada interação conversacional. Helena reforça que a confiança é construída com respeito ao processo cognitivo do usuário, explicabilidade e observabilidade, e não com um simples botão de feedback.

Desafios Práticos: O Caso da Distribuidora de Produtos de Limpeza

Thiago compartilha um caso real de um cliente distribuidor de produtos de limpeza. O desafio era criar um agente no WhatsApp para recomendar produtos para grandes pavilhões. Mesmo com uma base de conhecimento completa, a IA indicava produtos errados. A solução veio com loop de verificação: uma segunda IA checava a resposta da primeira, enriquecendo a base e retroalimentando o sistema. Isso mostra que criar produtos conversacionais de qualidade é muito mais difícil do que parece, e que a experimentação e o refinamento contínuo são essenciais.

O Papel do Designer e do Produto na Era Agêntica

Helena explica que a Blip está migrando de fluxos determinísticos para uma abordagem agêntica, permitindo que empresas orquestrem múltiplos agentes em diferentes canais. O contato inteligente evoluiu de um conceito de mapeamento de jornada para uma visão mais ampla, onde a marca está presente em todos os pontos de contato, centralizando informações e mantendo a coesão da experiência. O grande desafio é criar soluções para empresas de todos os tamanhos, integrando diferentes agentes e canais.

O Futuro do Trabalho: Maestros, Curadores e Designers de Inteligências

No encerramento, os convidados refletem sobre o futuro dos profissionais de design e produto. Thiago acredita que o papel será de maestro — orquestrando agentes, cada um com seu instrumento, e ajustando a partitura quando algo desafina. Helena vê os designers como arquitetos de experiência, que trabalharão mais com prompts, guard rails e personalidade de agentes, e menos com pixel-perfect. Juliana prevê um "design system of everything", onde humanos e IA terão sistemas separados, e a curadoria será a nova estética — a capacidade de filtrar, questionar e dar sentido ao que a IA produz.

Mensagem Final: Paciência, Resiliência e Pensamento Lento

As mensagens finais dos convidados são um convite à paciência e à resiliência. Juliana enfatiza que, em um mundo de dopamina rápida, é preciso desacelerar, usar o pensamento lento (slow thinking) e ultrapassar os vieses óbvios. Thiago reforça que, mesmo na era da IA, o aprendizado do processo (como fazer contas à mão antes de usar a calculadora) é essencial para desenvolver um "calo" criativo e crítico. Helena conclui que a curadoria é a nova estética — saber de onde vêm as referências, continuar lendo e questionando são as habilidades que manterão os designers relevantes.