Contratação e Formação de Times de Alta Performance
Alex Chapiro inicia a conversa destacando que o primeiro e mais importante diferencial para construir times de alta performance é gastar um tempo desproporcional na busca por pessoas. Ele afirma que sempre preferiu deixar uma vaga aberta por muito tempo até ter a certeza de que o candidato era o ideal. Na Amazon, ele vivenciou um mecanismo que considera fundamental para evitar vieses e garantir decisões de contratação de alta qualidade: todo candidato era entrevistado por seis a sete pessoas, e nem mesmo ele, como líder direto, tinha o poder de contratar sozinho. Existia um sistema onde cada entrevistador registrava seu voto (sim ou não) sem ver os votos dos outros, evitando a influência de hierarquias ou pessoas mais seniores.
Características Buscadas em Profissionais e o Fit Cultural
Alex compartilha o que buscava nas pessoas que contratava. O primeiro e mais importante critério era a afinidade com a cultura da empresa. Ele relata ter visto profissionais extraordinários, com currículos impecáveis, que não se davam bem na Amazon ou na Apple simplesmente porque não tinham fit com a cultura organizacional. Nas entrevistas, ele adota uma abordagem peculiar: mal olha o currículo. Prefere fazer perguntas que revelem como a pessoa lida com situações específicas, pedindo que o candidato conte sobre sua vida e coloque em situações reais. O objetivo é entender como aquele ser humano vai agregar ao time. Alex também pratica o princípio de contratar sempre acima da barra anterior, elevando continuamente o nível de exigência. Como ele afirma: 'um time bom chama gente boa'. Ele faz uma distinção entre o 'mercenário', que olha apenas para o curto prazo e o dinheiro, e o 'missionário', que também quer ganhar dinheiro mas tem uma missão, entende o jogo e quer deixar uma história.
A Importância Estratégica da Diversidade nos Times
Um dos pontos mais enfatizados por Alex é o valor da diversidade. Para ele, diversidade não é apenas uma pauta social, mas sim um fator que agrega valor à última linha do lucro. Ele argumenta que a perspectiva de qualquer pessoa é inerentemente limitada e enviesada. Portanto, ao trazer pessoas com vivências diferentes, o empreendedor passa a enxergar o mercado de uma forma mais completa e precisa. No contexto do varejo brasileiro, um país extremamente diverso em termos de raça, gênero, região e poder aquisitivo, a diversidade no time se traduz em entender melhor o consumidor e, consequentemente, aumentar as vendas. Alex sugere que empreendedores tragam para seus times pessoas que entendam as diferenças regionais do Brasil, as diferenças de consumo e de poder aquisitivo, pois isso é extremamente importante para definir a operação.
A Transição de Executivo para Investidor no SoftBank
Thiago pergunta sobre a grande transição de carreira de Alex: depois de 9 anos na Amazon e uma trajetória de sucesso em multinacionais, ele deixou o mundo da operação para liderar investimentos no SoftBank, um dos maiores fundos do mundo. Alex revela que a decisão foi motivada por dois fatores: primeiro, ele sentia que o desafio em seu papel estava diminuindo; segundo, ele havia montado um time fantástico e sentia que era hora de dar espaço para que essas pessoas ambiciosas crescessem. O convite surgiu como um acaso (ou 'sorte', como ele diz) e veio com um enorme 'frio na barriga'. Ele compara a transição a um jogador de futebol que de repente precisa jogar vôlei: são esportes diferentes, embora ambos exijam condicionamento físico. Ele precisou aprender projeções de valuation, o ecossistema de venture capital e alocação de capital. O maior desafio, no entanto, foi mudar seu mindset de 'pessoa de execução' (que está no dia a dia fazendo) para o papel de conselheiro, onde precisa ficar quieto, ouvir e permitir que os empreendedores cometam erros – mesmo quando sua intuição diz que algo dará errado. A chave para essa adaptação foi a capacidade de escutar, não ter medo de fazer perguntas (mesmo que bobas) e entender a fase de vida em que se encontrava (50 anos na época da transição).
Características dos Empreendedores e Empresas de Sucesso
Com sua visão ampliada sobre dezenas de empresas no Brasil e no mundo, Alex identifica duas características fundamentais dos empreendedores de sucesso. A primeira é a capacidade de evoluir o negócio e não se apegar a uma ideia fixa. Ele explica que a beleza do ser humano está em acreditar em algo hoje, mas estar aberto a novos dados que podem mudar essa opinião. Mudar de ideia não é errado, desde que seja baseado em um racional sólido. A segunda característica é a resiliência. Alex observa que, embora o Brasil tenha evoluído positivamente nas últimas décadas, o cenário é irregular e cheio de solavancos no curto prazo. O empreendedor brasileiro desenvolveu uma capacidade notável de ser rápido e se adaptar. Ele cita o episódio da ameaça de quebra de um banco americano: enquanto os americanos hesitaram, os empreendedores brasileiros agiram rapidamente para proteger seus recursos. Ele também menciona uma terceira qualidade: entender o tamanho do mercado brasileiro (TAM) e focar em resolver problemas locais complexos, como a Olist tem feito ao evoluir seus negócios em e-commerce, lojas e RP.
O Poder de Dizer 'Não' e a Lição de Steve Jobs
Alex complementa sua análise com uma lição inestimável que aprendeu trabalhando com Steve Jobs. Jobs dizia ter mais orgulho das coisas que disse 'não' do que das que disse 'sim'. A Apple é essencialmente uma empresa de quatro produtos (iPhone, iPad, Mac, App Store). A capacidade de focar em poucas coisas e se aprofundar nelas foi um fator crítico de sucesso. Para Alex, isso é um alerta para empreendedores que são constantemente tentados por 'objetos brilhantes' e distrações. Saber dizer 'não' é fundamental para manter a atenção no que realmente importa para o cliente e para o negócio no momento atual.
O Diferencial do Empreendedor Brasileiro e a Complexidade como Vantagem
Alex argumenta que o empreendedor brasileiro tem se destacado globalmente por sua coragem e pela capacidade de resolver problemas extremamente complexos. Ele critica o 'complexo de vira-lata' de acreditar que tudo que vem de fora é melhor, citando exemplos concretos de liderança do Brasil. O setor de pagamentos brasileiro está 'anos-luz' à frente da maioria dos países, incluindo os Estados Unidos. O Pix, embora não tenha sido o primeiro sistema de pagamento instantâneo do mundo, foi onde o modelo realmente decolou com sucesso. Alex explica que essa vantagem tecnológica no setor financeiro tem raízes históricas na hiperinflação das décadas de 80 e 90, que forçou o desenvolvimento de tecnologia de ponta. Ele também menciona o mercado de litigation (processos judiciais) como um exemplo de complexidade que gera oportunidade: uma empresa de Legal Tech do portfólio descobriu que 97% dos reclamações contra a American Airlines acontecem no Brasil, embora apenas 3% dos voos da companhia ocorram aqui. Isso criou um mercado gigante para soluções de IA que gerenciam esse risco. Da mesma forma, o Quinto Andar resolveu o problema complexo e 'amadoro' do mercado de aluguéis (como conseguir uma fiança) e hoje está exportando essa solução. A conclusão de Alex é que o Brasil, com sua legislação, impostos e desafios únicos, é um excelente 'campo de testes' para inovações que depois podem ser exportadas para o mundo.