Introdução: Quem é Dom Barbudo?
No episódio do podcast 'Confissões Consentidas', o apresentador Mestre Cruel (Renan) dá as boas-vindas a um convidado especial: Dom Barbudo, considerado uma lenda e um dos pioneiros da cena leather brasileira. A conversa começa com uma descrição visual: Dom Barbudo é loiro, careca em grande parte, com barba loira e ruiva, olhos azuis, branco, baixinho, vestindo uma camisa azul de couro com uma harness preta, boina e boné. Ele é gaúcho, natural de Porto Alegre, e atualmente é uma das figuras centrais na organização do concurso Mr. Leather Brasil.
Infância, Juventude e a Descoberta Tardia da Homossexualidade
Dom Barbudo relata que, em sua época, o acesso a informações sobre sexualidade era muito limitado. Ele sabia que sentia muito tesão e vontade de fazer muitas coisas, mas tinha poucos parceiros no Sul e não entendia bem o que queria. Sabia que era gay, mas num contexto onde tudo era meio proibido, a ponto de ele ter sua primeira ficada com um homem somente após os 19 anos.
Ele descreve um episódio emblemático dessa época: esperou um feriadão de Páscoa para ir a um bar gay, achando que não teria ninguém. Ao chegar, deu de cara com um colega do trabalho na porta. Sem saber o que dizer, inventou que tinha visto uma placa de Coca-Cola e entrado para comer um sanduíche. O colega agiu como um 'pavão', tapou a visão do bar e disse: 'Esse bar não é para ti'. Anos depois, Dom Barbudo descobriu que o colega também era gay – mas na época, o medo e a repressão eram enormes.
Em outro feriadão, ele conseguiu entrar em um bar gay. Ansioso, chegou oito horas antes da abertura. Um cara lindo chegou nele, ficaram juntos, mas um refletor iluminava o rosto de Dom Barbudo repetidas vezes. Após três tentativas de mudar de lugar, o rapaz revelou: 'Sou namorado do dono do bar, e ele está com raiva de eu estar ficando com outra pessoa'. Apesar das dificuldades, essas experiências marcaram o início de sua jornada.
O Primeiro Contato com o Fetichismo e a Descoberta do Couro
No início, Dom Barbudo não tinha ideia sobre fetiche. Ele frequentava locadoras, alugava fitas VHS no fim de semana e imaginava se aquelas cenas fetichistas eram cenários ou apenas 'historinhas para fazer vídeo pornô'. O grande ponto de virada aconteceu em uma viagem internacional com seu namorado e amigos. Em uma boate com duas entradas – um lado fetichista e outro não fetichista, separados por uma parede – ele entrou na fila que andou mais rápido e se viu em um bar com mesa de sinuca, todos vestidos de couro, exatamente o cenário dos filmes que assistira. 'Fiquei enlouquecido com aquilo'.
Ao voltar ao Brasil, ele procurou no Orkut por grupos relacionados e encontrou um em São Paulo com quatro ou cinco pessoas. Entrou em contato, encontrou-os em uma pizzaria, mas o grupo foi minguando – no segundo encontro eram três pessoas, e depois nunca mais se viram. Ele continuou frequentando lugares como o Station Bar (em Pinheiros), que tinha uma decoração fetichista com redes militares. Ia com sua roupa de couro, mas ficava em um canto enquanto as pessoas apontavam e riam dele. 'Era muito ruim aquela época. Parecia um ser alienígena'. No entanto, quando ia para um lugar escuro, vinham muitas pessoas. Concluiu: 'Então não estou tão errado assim'.
Os Primórdios da Cena Leather e a Criação do Concurso Mr. Leather
Dom Barbudo conheceu Carlos Leather (Leather Boy na época), que começou a fazer festas. Aos poucos, mais pessoas apareceram. Em uma das primeiras festas do Carlos, apenas ele e o organizador apareceram – em um salão de festas sujo de pós-carnaval, com uma piscina vazia. Essa cena é retratada no documentário 'Mr. Leather' (disponível na Amazon Prime Video, gravado durante a edição de 2018), que se tornou um filme cult, inclusive fora do país.
A ideia de criar o concurso Mr. Leather Brasil surgiu porque Dom Barbudo viajava bastante para o exterior e via muitos 'misters' em outros países. Ele pensava: 'A gente precisa fazer isso aqui, mas quem vai participar? Quem vai montar?'. Ele não queria se meter porque queria concorrer, então torcia e dava ideias. Até que o concurso saiu do papel, com muitos problemas iniciais (perfis derrubados, votações interrompidas). Na primeira fase, mais de 10 pessoas participaram; na segunda, cinco ou seis. Dom Barbudo venceu em todas as etapas: votação pública, votação popular pela internet, votação no dia e votação dos jurados, além da etapa de entrevista. Ele foi 'super eleito'.
O Site DomBarbudo.com: Pioneirismo na Educação BDSM
Quando as câmeras digitais surgiram, o namorado de Dom Barbudo lhe deu uma. Ele aprendeu que, ao fotografar um assunto, deveria salvar as imagens em pastas (sub 1, sub 2, sub 3). Começou a postar no Facebook, mas a plataforma derrubava seus perfis – ele perdeu mais de seis. 'Se hoje a gente posta metade de um mamilo perde a conta, imagine naquela época'.
Cansado de perder seguidores (chegou a 18.000 em um perfil que caiu), ele decidiu criar seu próprio site: dombarbudo.com. A princípio, a intenção era apenas numerar as sessões anonimamente (pessoa número 1, pessoa número 2), pois muitos não queriam mostrar o rosto. Mas o site cresceu e se tornou uma referência educacional. 'Renan 1, Renan 7, Renan 12...' – brinca Dom Barbudo, mostrando que muitos nomes se repetem pelo anonimato.
O Jantar Leather: Um Encontro Mensal de Acolhimento
Após se tornar Mr. Leather, Dom Barbudo quis fazer eventos educacionais gratuitos, mas não encontrou espaço. Ele não achava justo cobrar por uma simples roda de bate-papo. Foi então que surgiu a ideia do Jantar Leather, em parceria com o bar Castro. Por 8 anos consecutivos (com exceção do período da pandemia), o encontro aconteceu mensalmente. Dois meses antes da pandemia, cerca de 150 pessoas compareciam, todas numeradas em uma planilha Excel. Atualmente, o Jantar Leather continua em outro local (Sodoma, bar do Jeff e do Rod), completando 9 anos em 2026. Dom Barbudo descreve o evento como uma porta de entrada para quem tem medo de ir a baladas ou festas – um ambiente descontraído para comer um hambúrguer, sem obrigação de usar couro ou látex.
O Reconhecimento e o Pioneirismo no International Mr. Leather
Dom Barbudo se deu conta de sua importância na cena quando começou a ser convidado para palestras, entrevistas de rádio, jornal, TV, e para falar em faculdades para auditórios lotados. Ele também foi o primeiro brasileiro a representar o país no International Mr. Leather (IML) – o que é um benefício direto de vencer o concurso nacional. A experiência foi transformadora.
A Chegada em Chicago: Emoção e Reconhecimento Imediato
Dom Barbudo chegou a Chicago de madrugada, largou a mala e foi direto para a frente do hotel para tirar uma selfie com sua jaqueta de couro. Um homem de leather se aproximou e perguntou: 'Você é o Mr. Leather Brasil, né?'. Ao confirmar, o homem o levou pelo braço, correndo por todo o hotel (inteiro tomado por pessoas de couro), entrou no escritório e anunciou: 'Pessoal, parem. Estou aqui com o primeiro Mr. Leather Brasil'. As pessoas se levantaram e começaram a bater palmas. Dom Barbudo começou a chorar na hora – ele não imaginava que seria tão forte.
O Concurso: Último Colocado na Numeração e Top 20
Eram 63 concorrentes. Dom Barbudo era o número 63 (o último, o ímpar). Ele pensou: 'Brasil, primeira vez, ano 39 do concurso... não vou ter muita chance'. Não tinha amigos, ninguém falava sua língua. Ele levou 62 presentes para os outros concorrentes, além de presentes para jurados e equipe – cada presente dado aproximava alguém, e ele começou a ficar mais querido. Ele não foi às festas durante a semana, apenas àquelas obrigatórias para se apresentar. No dia do concurso, a plateia era gigante, com cerca de 1.000 pessoas. Subir ao palco e falar em inglês foi muito difícil, mas ele foi tranquilo porque não esperava passar.
Na formação, ele ficava no meio (entre os pares e ímpares), em destaque. Quando começaram a chamar os top 20, um eco das caixas de som o impedia de ouvir. Ele pediu ao colega ao lado (número 62) que lhe desse um toque se fosse chamado. Chamaram vários números, e ele não. Quando já estava no décimo chamado, ele teve um flashback de todas as dificuldades – as pessoas rindo dele na boate, as etapas do concurso. O colega bateu nele: 'É tu, é tu!'. Ele era o número 20, o último a ser chamado. Mais tarde, disseram que o deixaram por último para 'tirar sarro', já que ele era o último na numeração. Ao final, Dom Barbudo ficou em quarto lugar geral e no top 10, uma conquista histórica para o Brasil.
A Dica do Discurso
Dom Barbudo dá uma dica para quem for competir: há um relógio no palco e o tempo de discurso é de apenas 45 segundos. 'Americano já nasce fazendo discurso no berçário'. Ele não preparou o seu e se atrapalhou. No entanto, um conselho que ele recebeu do Mr. Chile (de dois anos antes) – 'Você está sendo muito falado aqui, prepare seu discurso' – se mostrou profético.
A Relação com a Faixa: Trabalhar pela Faixa, Não a Faixa Trabalhar por Você
Dom Barbudo enfatiza que ser Mr. Leather (ou qualquer título similar) só funciona se você trabalha pela faixa, e não faz a faixa trabalhar por você. O reconhecimento pessoal é uma consequência do ato, nunca o objetivo. Ele se envolve em eventos, está próximo da comunidade e sente uma responsabilidade por ter sido o escolhido. 'Outras pessoas queriam estar no meu lugar, então eu tenho que valer esse título'.
A Dicotomia entre a Persona Pública e a Vida Pessoal
Dom Barbudo conta que, apesar de ser muito reconhecido (já foi abordado no metrô, em uma sorveteria em João Pessoa com sua mãe, etc.), ele não busca holofotes. Ele é uma pessoa participativa, gosta de estar envolvido, mas ultimamente está mais quieto e recluso, focado na família. Ainda assim, todos os seus amigos sabem de sua vida fetichista – não há mais dicotomia entre duas personas. 'Não tem nem como ter dois papéis, duas figuras'.
Jogo Rápido: Perguntas e Respostas
- Cor: Azul.
- Sonho: Ir para mais eventos fetichistas fora do país.
- Medo: Agora não tem muitos medos.
- O que fazia falta no passado na cena fetista: Envolvimento das pessoas e não terem vergonha de serem fetichistas.
- O que tinha no passado e se perdeu hoje: Mais envolvimento fora dos eventos. Antes, as pessoas se conheciam mais fora do contexto de festas; as masmorras ficavam cheias com 10 pessoas em encontros mais frequentes, gerando amizades mais fortes do que com amigos 'baunilhas'.
- O que não pode faltar numa sessão para ele: Spanking e explorar o corpo do parceiro.
- Ator para interpretá-lo no cinema: Não sabe (pergunta difícil).
- Prática fetichista que não fez mas gostaria de fazer: Não lembra de nenhuma – já fez todas que queria. As que não fez é porque não gosta. Ele gostaria de ser mais habilidoso em Shibari, mas admite que não tem habilidade nenhuma (não sabe nem fazer um single column).
- Quem é Luiz pelo Dom Barbudo (como ele se descreve): 'Um cara participativo, gosto de ser muito amigo, gosto de estar envolvido nos eventos'.
Considerações Finais e Onde Encontrar Dom Barbudo
Dom Barbudo agradece o convite e deixa seus contatos: o site fixo é dombarbudo.com; o Instagram é @dombarbudo3; o Twitter é @dombarbudo (sempre que possível, sem números, mas quando o perfil cai, adiciona-se números). Ele também menciona o perfil do @jantarleather, que acontece todo mês no bar Sodoma (do Jeff e do Rod).
Mestre Cruel reforça o pedido para que o público curta, comente, compartilhe, siga o podcast (@confissoesconsentidas e @dommcsp) e, em caso de queda das redes, acesse o site mestrecruel.com ou a rede social fetichista Kinggram. O episódio termina com uma despedida emocionada e o reconhecimento de que Dom Barbudo é uma figura maravilhosa e fundamental para a comunidade fetichista brasileira.