Introdução: Quem é Dom PC, o Mr. Leather Brasil 2018?
No episódio do podcast 'Confissões Consentidas', o apresentador Mestre Cruel (Renan) dá as boas-vindas a um convidado muito especial: Rafael, conhecido como Dom PC, Mr. Leather Brasil 2018. A conversa começa com uma descrição visual detalhada: Rafael é um homem branco, cisgênero, gay, com cabelo castanho e mechas brancas naturais (que ele brinca estarem 'bem disfarçadas'), barba, 1,77m de altura. Ele veste uma camisa branca de couro com colete preto, luvas brancas com detalhes em preto, calça de couro, bota e gravata – completamente paramentado no leather, como convém a um homem que acredita que 'uma vez Mr. Leather, para sempre Mr. Leather'.
Infância e Descoberta Tardia da Homossexualidade
Rafael é natural do interior de São Paulo, da região de Ribeirão Preto, onde nasceu e foi criado até a época da faculdade. Ele se descreve como uma 'pessoa muito lenta para descobrir as coisas', tanto que só se entendeu gay aos 24 anos. Na época, ele estava praticamente noivo, em um relacionamento heterossexual de 6 anos, com casamento premeditado para o ano seguinte ou no máximo em dois anos.
A virada aconteceu quando um colega, que há anos o convidava para algo, finalmente conseguiu convencê-lo: 'Vai, três anos que você está me chamando, vamos ver isso'. Após essa experiência, Rafael teve a clareza: 'É isso que eu tinha que sentir todo esse tempo? É assim que funciona? Eu sou gay'. Ele conduziu o término do relacionamento de forma respeitosa, pois sua ex é uma pessoa maravilhosa pela qual ele ainda é apaixonado (como pessoa querida). Ela soube dos motivos, e Rafael se mudou para São Paulo para viver sua vida gay e, posteriormente, sua vida fetichista.
Os Primeiros Fetiches: Botas e Cowboys desde a Infância
Rafael relata que consegue identificar traços de fetiche em si mesmo desde criança, mesmo sem ter referências ou noção do que aquilo significava. Seu primeiro fetiche sempre foram botas e, em seguida, cowboys. Ele lembra que usava botas aos 5 anos de idade e já sentia algo especial, uma sensação de poder e diferença ao vesti-las. Hoje, adulto e com referências, ele compreende que aquilo já era fetiche – algo que o enfeitiçava, que o fazia sentir especial.
O couro, especificamente, veio depois dos 20 anos. A relação de Rafael com o couro é intensamente sensorial e material: não é apenas sobre o olhar ou a estética militarizada (como a referência Tom of Finland), mas sobre o uso, o toque, a sensação de ser 'abraçado' pelo couro, a limitação dos movimentos. Ele brinca que o couro proporciona 'duas alegrias': estar com ele e, ao chegar em casa, tirá-lo – não pelo alívio, mas pelo cheiro do próprio corpo impregnado na peça após horas de uso. 'Quando eu tiro, o cheiro do meu corpo fica ali, e você cheira sua pele e está cheirando couro'. A imagem que ele tem de si mesmo quando vestido de couro também é muito importante – uma autoimagem que o agrada profundamente.
A Primeira Calça de Couro e o Uso Cotidiano
Logo que se mudou para São Paulo em 2005, Rafael comprou sua primeira calça de couro. Naquela época, não havia tantos eventos ou comunidades organizadas como hoje (sem WhatsApp, com poucas referências). Ele usava a calça de couro em casa e para atividades cotidianas: chegava do trabalho, tomava banho, vestia a calça de couro para estudar; usava no fim de semana para ir ao shopping, ao cinema, a bares. Aos poucos, começaram a surgir os primeiros eventos fetichistas, e ele pôde usar o couro em contextos temáticos, mas sua relação com a peça sempre foi também de uso diário, não apenas performático.
A Descoberta do BDSM e a Internet como Portal
Rafael conta que, diferentemente de muitos, ele nunca foi uma pessoa ligada ao erotismo ou à pornografia. Não consumiu pornografia na adolescência ou na vida adulta – 'nunca tive esse hábito'. Por isso, suas referências de fetiche e práticas sexuais eram muito limitadas. Ele pensava em coisas como spanking, trampling (pisoteamento), CBT (tortura genital), pony play, bootshipping (lamber botas) e castidade, mas acreditava que só ele pensava naquilo, que eram 'coisas da sua cabeça' que deveria guardar para si.
Com o crescimento da internet (por volta de 2005-2006), ele descobriu que essas práticas existiam, que outras pessoas faziam, que havia um mundo inteiro organizado há décadas. 'Se tanta gente faz, o que eu não vou fazer?' – foi a partir dessa descoberta que ele passou a vivenciar o BDSM, sempre dando mais ênfase à vivência do que ao consumo de conteúdo.
Pioneirismo na Cena Leather Brasileira e o BDSM Camp
A trajetória de Rafael se confunde com a própria história da cena leather paulistana. Ele chegou a São Paulo em 2005 e, em 2006, começou a frequentar os poucos lugares que existiam: Station Bar (na rua dos Pinheiros, extinto há séculos) e o Projeto Luxúria (que continua até hoje). Foi a partir dali que ele foi conhecendo pessoas, mas ainda de forma mais fechada, dentro do seu próprio mundo.
O grande ponto de virada foi em 2015, quando ele se abriu mais e decidiu vivenciar o fetichismo de forma mais intensa. Nesse ano, ele estreitou amizade com Dom Barbudo e passou a frequentar o Estúdio 57, onde conheceu outras figuras importantes como Breno Furrier e Gutulemos. Essas pessoas, segundo ele, 'acrescentaram muito' e o ajudaram a sair do lugar de quem sabia 'muito pouco' para quem sabia 'um tanto razoável'.
BDSM Camp: A Experiência Pioneira de Servidão
No final de 2015, veio a primeira edição do BDSM Camp, um evento inédito no Brasil até então. O formato era inovador: os participantes (um grupo de dominadores e submissos inscritos) iam para uma mansão no Alto da Serra, onde os submissos viviam um regime de servidão durante um fim de semana inteiro. Havia exercícios matinais, sessões de BDSM em grupo e individuais, almoço, limpeza, organização – tudo de forma segura, sã e consensual. Os submissos pagavam uma quantia para cobrir custos de alimentação e aluguel do espaço.
Rafael era um dos seis dominadores (ao lado de Dom Barbudo, Breno, Guto, Luiz e mais um – ele brinca com a memória de 10 anos atrás). Ele relembra com carinho não apenas as práticas, mas os momentos de descontração e a admiração pelas habilidades dos colegas (como ver Breno fazer bondage, mesmo não sendo sua prática favorita). Foram três edições do BDSM Camp (2015 e duas em 2016), e até hoje as pessoas perguntam quando haverá uma nova edição – o que Rafael recebe como um sinal da importância do evento. O BDSM Camp gerou 'filhos' como o BDSM Experience e outros projetos.
Viagens Internacionais e a Decisão de Concorrer ao Mr. Leather
Rafael fez duas viagens significativas para a Europa. A primeira, para a Folsom Street Fair (em Berlim) e outras cidades como Praga e Viena, onde visitou bares leather e festas. Foi em Praga, em um cruzeiro-bar de dois andares, que ele viveu a experiência do 'melhor boquete da sua vida' – uma história que ele conta com bom humor, envolvendo um casal e uma descoberta surpreendente sobre a ausência de dentes. Essa viagem foi um marco inicial em sua sensação de pertencimento a algo maior do que o Brasil.
A segunda viagem, no final de 2017, foi para Portugal e Espanha. Nessa época, o primeiro Mr. Leather Brasil, Dom Barbudo, já havia sido eleito (início de 2017). Rafael foi assistir à eleição do Mr. Leather Espanha e já tinha alguns contatos por Facebook. Lá, ele sentiu um apoio de pessoas de fora que o incentivavam a se candidatar no ano seguinte. Voltou ao Brasil na véspera do Réveillon de 2017 e anunciou sua candidatura.
A Decisão de Mostrar o Rosto
Até aquele momento, Rafael aparecia sempre de máscara em seus conteúdos. Foi ao decidir se candidatar a Mr. Leather que ele mostrou o rosto pela primeira vez, pois entendeu que, para representar uma comunidade, é preciso 'dar a cara para bater'. 'Você não está mais falando por você, você está falando por uma comunidade, por um grande grupo de pessoas'. Ele respeita quem não mostra o rosto, mas para aquela situação específica, considerava essencial que as pessoas soubessem quem era o rosto que as representava.
O Reinado como Mr. Leather Brasil 2018: Um Ano Transformador
Rafael venceu o concurso e afirma que aquele foi 'um dos melhores anos da minha vida'. A proporção que a comunidade e sua colocação dentro dela tomaram superou todas as expectativas – tanto que seu discurso de aceitação ('step down') acabou sendo diferente do que ele havia planejado inicialmente.
Ele viajou para o exterior e percebeu que o mundo não tinha ideia de que existia uma cena leather forte no Brasil. As reações eram de surpresa: 'Brasil? É sério que vocês brasileiras, além de serem lindos, gostosos e quentes, estão no fetiche, curtem couro?'. Rafael se viu como um embaixador, colocando o Brasil no mapa da cena leather mundial. Depois de seu reinado, o Brasil passou a receber visitas de representantes internacionais, como o Mr. Berlim e o International Mr. Leather. Para ele, a imagem que o exterior tinha do Brasil era apenas de 'tropical, praia, carnaval', e ele ajudou a mostrar outra faceta.
O Carinho Internacional e o Viralatismo Reverso
Rafael reflete sobre como os brasileiros são queridos lá fora, algo que sempre surpreende – há um certo 'viralatismo' de achar que não somos vistos ou valorizados. Mas ele relata situações como estar na Folsom e ser abordado por pessoas que o reconheciam e elogiavam seu trabalho, ou ser convidado para jantares de diferentes nacionalidades (espanhóis, italianos, franceses). 'É sempre uma surpresa, mas eles gostam da gente'. Ele cita, por exemplo, um perfil de BDSM educativo que ele seguia no Instagram e que, quando se encontraram em uma festa em Berlim, veio falar com ele para dizer que admirava seu trabalho.
O Legado e o Futuro: Sonhos de um Evento Internacional no Brasil
Rafael acredita que, se não fosse a pandemia, o Brasil teria hoje um grande evento internacional de cultura leather. O crescimento da cena entre 2017 e 2019 foi 'exponencial' – festas como a Bluff chegavam a ter 80 pessoas. A pandemia quebrou esse ritmo, e a comunidade precisou 'engatinhar de novo'. Mas ele vê potencial: 'Quem sabe fazer festa é o brasileiro'. Ele sonha com uma Folsom brasileira, mas reconhece que ainda há questões políticas e estruturais a serem superadas. Mesmo assim, mantém a esperança, citando uma frase de Rod: 'O alemão sabe fazer estrada; quem sabe fazer festa é o brasileiro'.
Jogo Rápido: Perguntas e Respostas
- Cor: Vermelho.
- Medo: Sapo.
- Sonho não realizado: Conhecer a Xuxa.
- Sonho realizado: Representar o seu país em alguma coisa que fosse (o reinado como Mr. Leather).
- Superpoder desejado: Invisibilidade (igual ao marido João).
- Ator para interpretá-lo no cinema: Kaan Raymond.
- Pessoa que mais admira (viva ou morta): Sua ex-noiva.
- Prática fetichista para fazer a vida toda: CBT.
- Fetiche que não fez mas tem vontade: Um spanking 'nervosão', daqueles bem 'luminol' (intenso, mas sempre consensual).
- O que mudaria na sua história: Sua formação – sempre quis ser físico (teórico), e apesar de gostar da medicina, a física sempre foi sua primeira opção. Ele é louco por matemática e cálculo.
- Rafael por Rafael: (implícito) Um homem de 45 anos, médico, descendente de italianos e espanhóis, que se descobriu tarde, mas que ajudou a construir a cena leather brasileira e a projetá-la internacionalmente.
Considerações Finais e Onde Encontrar Rafael (Dom PC)
Rafael encerra agradecendo e deixando suas redes sociais: Instagram e X (antigo Twitter) como @mrleatherbrasil (com 'z'). Mestre Cruel reforça o convite para que o público curta, comente, compartilhe e siga o podcast (@confissoesconsentidas e @dommcsp), além de acessar o site mestrecruel.com ou a rede social fetichista Kinggram. A despedida é afetuosa, com a promessa de que Rafael voltará para contar bastidores do Mr. Leather e do International Mr. Leather. 'Uma vez Mr. Leather, para sempre Mr. Leather' – e a faixa será usada até com andador, se a coluna não aguentar mais. O episódio termina com um 'tchau' caloroso e a certeza de que histórias como a de Rafael são fundamentais para a memória e o fortalecimento da comunidade fetichista brasileira.