Ciência, desempenho e vida esportiva no Tênis, Beach Tennis e Pickleball.

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A Trajetória de Paula: Do Tênis ao Estrelato no Bit Tênis e Pickleball

Paula iniciou sua carreira esportiva no tênis aos 7 anos de idade no Clube Banespa em São Paulo. Apaixonada pelo esporte, ela progrediu rapidamente, participando de torneios juvenis e alcançando bons resultados, incluindo a classificação para torneios WTA nos Estados Unidos (Miami, Carolina do Sul e Carolina do Norte). Aos 17-18 anos, Paula enfrentou a difícil decisão de seguir carreira profissional. Ela destaca que o tênis é um esporte muito caro, exigindo viagens constantes para pontuar, o que a levou a optar pelos estudos. Formada em educação física, trabalhou como treinadora de tênis por 7 anos antes de migrar para a veterinária e se afastar das competições.

Em 2018, ao ver uma amiga postar sobre o Bit Tênis no Instagram, Paula decidiu experimentar. Segundo ela, o tenista possui facilidade em outros esportes de raquete, mas cada modalidade tem suas particularidades. Apaixonou-se imediatamente, tornando-se viciada e começando a competir. Em 2022, entrou no circuito mundial de Bit Tênis (ITFs), viajando pelo Brasil para pontuar. Simultaneamente, começou a dar aulas da modalidade. Sua ascensão no Pickleball foi ainda mais meteórica: em apenas 7 meses de circuito, conquistou 16 títulos, foi vice-campeã da Copa das Federações de 2024 e campeã brasileira de duplas femininas em 2025, integrando atualmente a seleção paulista da modalidade.

Desafios Financeiros e Estruturais no Esporte Brasileiro

Paula compartilha sua experiência sobre as dificuldades financeiras para atletas no Brasil, mencionando que seus pais bancavam seus custos no tênis. Ela observa que chega um momento em que viajar ao exterior e arcar com as despesas se torna extremamente caro, forçando muitos atletas promissores a interromperem suas carreiras. A atleta ressalta que o brasileiro que consegue despontar é um guerreiro, pois a falta de incentivo atinge até atletas olímpicos, que muitas vezes treinam em condições precárias. Este problema, segundo ela, não é exclusivo do tênis ou do pickleball, mas se estende a várias modalidades, olímpicas ou não, dependendo da 'estrela' do atleta ou da capacidade da família em sustentar a carreira.

A preparadora física Kelly complementa que a maioria dos atletas profissionais não vive exclusivamente do esporte, precisando dar muitas aulas e clínicas para se sustentar. Apesar do crescimento do Bit Tênis e Pickleball no Brasil, ainda há pouco investimento e incentivo, muito aquém do necessário. Ela nota que atletas italianos, por exemplo, vêm treinar e jogar no Brasil devido à alta quantidade de torneios, o que evidencia a força do cenário nacional, mas o apoio financeiro interno ainda é deficiente.

A Importância da Preparação Física e Prevenção de Lesões

No início de sua carreira no tênis, Paula relata que não havia preocupação com preparação física ou prevenção de lesões; os atletas passavam horas jogando sem qualquer cuidado. Somente por volta dos 15-16 anos, ao integrar uma equipe mais estruturada, ela passou a ter acesso a fisioterapeutas e preparadores físicos, com treinos divididos entre quadra (3 horas) e preparação física no período da tarde.

Kelly aponta que, hoje, tanto no Bit Tênis quanto no Pickleball, o mesmo problema persiste: pessoas começam a praticar o esporte, encantam-se pela jogabilidade e passam horas na quadra todos os dias, sem qualquer preparação específica. Ela observa que muitos são sedentários que viram atletas do dia para a noite e depois reclamam que o esporte machuca. A verdade, segundo Kelly, é que a lesão não vem do esporte em si, mas da falta de preparação e do tempo excessivo de prática sem suporte adequado. Isso tem gerado lesões comuns como epicondilite lateral (cotovelo), além de problemas em punho e ombro.

Lesões por Sobrecarga e os Sinais do Corpo

Paula admite que peca pelo excesso de treinos. Em 2022, sofreu uma tendinite no punho por sobrecarga, decorrente de sua rotina intensa: dava aula de manhã, treinava no almoço, trabalhava à tarde e treinava novamente à noite. Ela descreve que o braço chegava a inchar, com dor limitante, e que os atletas se acostumam a treinar com dor, recorrendo a anti-inflamatórios e alongamentos, sem conseguir parar totalmente. Seu corpo praticamente não descansava, e ela mantinha essa rotina durante a semana, competindo em torneios nos finais de semana.

Kelly reforça que as tendinites são sinais de sobrecarga ou de uso excessivo (overuse), podendo indicar também uma limitação funcional ou fraqueza muscular. É comum que as pessoas procurem ajuda apenas depois que as lesões aparecem, quando já é um pouco tarde. A preparadora física enfatiza que a tendinite pode ser simples de tratar com anti-inflamatórios e analgésicos, eliminando a dor por um mês ou mais, mas se a origem do problema não for corrigida (seja o desequilíbrio muscular, o grip inadequado ou a biomecânica errada), a dor certamente retornará. E mais: ao mudar a biomecânica para proteger o cotovelo, o atleta pode sobrecarregar o ombro e, subsequentemente, a região lombar, criando um efeito cascata.

Biomecânica, Desequilíbrios e a Cadeia Cinética nos Esportes de Raquete

A preparadora física Kelly explica que, em esportes de raquete, é comum haver uma hipertrofia do peitoral em detrimento da musculatura dorsal e dos estabilizadores da escápula, especialmente no membro dominante (destro). Isso leva a desequilíbrios musculares que afetam articulações como o ombro, que é naturalmente raso e instável. A falta de fortalecimento do manguito rotador e dos estabilizadores escapulares sobrecarrega o ombro, depois o cotovelo e, finalmente, o punho, desencadeando lesões em cadeia.

Kelly destaca a importância da geração de energia na cadeia inferior (quadril e core) para transferir potência à cadeia superior, evitando que ombro, cotovelo e punho absorvam toda a carga. Tanto no tênis, bit tênis quanto pickleball, a rotação de quadril é fundamental para o saque e para imprimir potência sem sobrecarregar os membros superiores. Ela nota que, principalmente no público masculino, há muita dificuldade de rotação de quadril, o que aumenta o risco de lesões. A preparação física focada em deslocamentos laterais, tempo de reação, fortalecimento do core (especialmente o transverso do abdômen) e da musculatura lombar e quadríceps é essencial, pois os atletas jogam muitas partidas em sequência (até 10-12 por dia), exigindo alta capacidade de recuperação.

Bit Tênis: Características, Crescimento e Lesões Específicas

O Bit Tênis explodiu no Brasil em 2018, vindo da Itália. A modalidade é jogada em areia, com quadra de 8x1m e rede na altura do vôlei de praia (1,70m para amadores, 1,80m para profissional feminino). O jogo mais característico é o de duplas (feminina, masculina e mista), sendo que na dupla mista o homem não pode sacar por cima, apenas por baixo. A pontuação profissional é de três sets, com dois sets de seis games e um super tie-break de 10 pontos. Atualmente, o Brasil concentra cerca de 80% dos torneios mundiais da modalidade, atraindo jogadores italianos e de outros países em busca de pontos.

As lesões no Bit Tênis são focadas na parte superior do corpo, com muitos smashes e ganchos que exigem grande rotação. Kelly observa que muitos atletas utilizam raquetes inadequadas – optam por cores bonitas sem considerar peso, distribuição de peso (peso na cabeça gera mais potência mas exige mais força) e grip. A espessura do grip e o posicionamento das mãos são crucialmente importantes para evitar epicondilites, e as pessoas frequentemente colocam grip sobre grip sem ajustar ao tamanho da mão, ou não modificam a raquete por comodismo, gerando lesões que poderiam ser evitadas. Além disso, o bit tênis impõe grande sobrecarga nos membros inferiores devido à areia, sendo especialmente perigoso para sedentários que iniciam a prática sem preparação.

Pickleball: Regras, Ascensão Meteórica e Particularidades

O Pickleball chegou ao Brasil por volta de 2018 através de uma americana (Janete) e seu parceiro Toninho em Governador Valadares, expandindo-se nacionalmente em 2022. Ao contrário do bit tênis, o pickleball é jogado em quadra poliesportiva, com rede baixa e uma bola plástica furada. A grande vantagem é que pode ser montado em qualquer lugar: basta usar fitas para demarcar a quadra sobre uma quadra de tênis, por exemplo, montando até 4 quadras de pickleball no mesmo espaço. Isso tem facilitado sua disseminação rápida em clubes e condomínios.

A pontuação tradicional do pickleball é complexa: o ponto só é marcado pela equipe que está sacando (com vantagem), e o jogo tem duplo serviço (ambos os jogadores da dupla devem sacar antes de perder o saque). Isso torna a contagem confusa para iniciantes. Para tornar o esporte mais atrativo para transmissões de TV e dar previsibilidade de tempo, alguns torneios adotam o sistema rally score (pontuação corrida, sem vantagem). O jogo possui uma área de 'cozinha' (não-voleio), onde o atleta não pode jogar a bola de voleio, obrigando a estratégia de forçar o adversário a ficar no fundo enquanto se avança para a rede. Paula descreve o pickleball como um esporte agressivo, que exige agilidade de pernas, tempo de reação apurado e intenso desgaste físico, com atletas chegando a jogar 10-12 partidas em um único dia.

A potência mundial do pickleball são os Estados Unidos, com 50 milhões de praticantes. O Brasil vem se desenvolvendo, com equipe competitiva para o mundial em outubro em Fort Lauderdale. O esporte é inclusivo, com categorias desde crianças até 80 anos, integrando famílias (avô e neto jogando juntos). Paula teve contato com o esporte por acaso, em uma sexta à noite, jogou e no dia seguinte já estava comprando sua raquete, apaixonando-se pela novidade de aprender algo diferente depois de tanto tempo no tênis e bit tênis.

Dicas de Prevenção: Aquecimento, Material e Acompanhamento Profissional

Kelly enfatiza que o aquecimento, a mobilidade e a preparação física específica são fundamentais e não devem ser negligenciados, apesar de serem 'a parte mais chata' do esporte. Ela recomenda procurar um profissional de educação física antes de iniciar a prática para identificar limitações físicas e estruturar um trabalho de prevenção. Além disso, o descanso e a recuperação são tão importantes quanto o treinamento, sendo parte crucial da periodização (pré-temporada intensa, período competitivo e regenerativo).

Paula complementa que iniciantes devem procurar um professor para aprender a técnica correta desde o início, especialmente a empunhadura, pois vícios motores se tornam cada vez mais difíceis de corrigir. Ela também destaca a importância do material adequado: no pickleball, o tênis de corrida não é apropriado para a quadra, podendo causar torções; no bit tênis, é essencial escolher uma raquete alinhada ao estilo de jogo, peso e tamanho da mão, e ajustar corretamente o grip. Para quem deseja migrar do amador ao profissional, ambas concordam que a preparação física e o entendimento da biomecânica são fatores decisivos para o sucesso.

Conclusão e Mensagem aos Atletas

Kelly e Paula deixam uma mensagem de incentivo: venham conhecer o pickleball e o bit tênis sem preconceito, pois são esportes maravilhosos, inclusivos e em franco crescimento no Brasil. Elas destacam que o mais importante é praticar esporte da forma correta, promovendo saúde, fazendo amigos e se divertindo. A preparação física deve ser vista como uma aliada para que o atleta não precise parar por lesão, conseguindo aproveitar o esporte ao máximo. Para quem já pratica ou quer iniciar, as profissionais se colocam à disposição nas redes sociais para tirar dúvidas e orientar. Torçam pelo Brasil no mundial de pickleball em outubro nos Estados Unidos.