Aline Andressa Martinez - Eu Não Nasci Herdeiro #3

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Quem Sou Eu?: A Busca Pelo Propósito e a Resposta Através da Ação

A grande resposta do 'quem sou eu' não está exatamente no ofício que exercemos, mas naquilo que nos move e que tem suas raízes em nossa história, família e crenças. A busca por propósito é uma jornada de autodescoberta que envolve ação e reflexão. A construção da identidade se dá através da edificação de múltiplas facetas, como arte, psicologia e atuação em organizações, respondendo à pergunta fundamental: 'quem sou eu e o que eu posso dar de mim?'.

É através de indagações e da ação que trilhamos nossos caminhos. Receber feedbacks que nos fazem perceber 'eu não sou isso' é um convite para explorar o que podemos ser. A resposta para a crise de propósito e insatisfação, comum na geração Y (nascidos entre 1980 e 1995), segundo pesquisas da Deloitte, está em reconhecer que muitos chegam aos 40 anos frustrados, pois cresceram com a expectativa de ter casa própria e estabilidade financeira, mas se deparam com um cenário de insegurança e ansiedade.

A Consciência sobre o Papel do Trabalho na Identidade

É fundamental ter consciência de que a identidade profissional não deve ocupar um espaço maior do que o desejado em nossa vida. Essa clareza pode vir cedo, impulsionada por estudos na área de psicologia do trabalho. Compreender os fenômenos que acometem as pessoas através do trabalho, como aposentadoria por invalidez ou o impacto na identidade de trabalhadores informais, amplia a visão sobre o assunto.

Toda escolha profissional é uma renúncia. Decisões como mudar de cidade para trabalhar envolvem deixar para trás uma base familiar sólida e o convívio diário. A frase 'sua bolha de amor te prepara pro mundo' ilustra como o conforto e o apoio familiar podem fornecer a força necessária para buscar novas oportunidades. No entanto, essa jornada não é isenta de sofrimento. É preciso ressignificar e dimensionar o que é mais importante para que não se perca, encontrando formas de manter conexões significativas à distância.

É um constante exercício de balanço, questionando se a escolha ainda vale a pena. Em momentos de dúvida e saudade, o retorno para si mesmo e a autoescuta nos silêncios revelam novos caminhos, como a criação artística, que também servem como forma de conexão com a família e manutenção dos valores essenciais.

Sucesso, Comparação e a Sociedade do Cansaço

A geração atual cresceu espelhando o sucesso de outras pessoas, principalmente dos pais que conquistaram bens em idades similares, mas com um poder aquisitivo diferente. Isso levou a uma projeção em um sucesso que não necessariamente é o nosso. A falta de silêncio para olhar para dentro e questionar o que realmente desejamos cria um desejo quase ideológico, uma busca pela perfeição e performance que nos cobramos de um lugar que pode não ser o ideal.

As redes sociais agravam esse cenário ao nos ensinar a mostrar apenas o melhor de nós, criando uma realidade distorcida que alimenta a frustração e a comparação. O autor Byung-Chul Han, em seu livro 'Sociedade do cansaço', explica que não são mais as figuras de poder externas que nos cobram performance, mas nós mesmos, baseados em crenças antigas de que só seríamos amados e aceitos se performássemos e fôssemos perfeitos.

É um equívoco simplista dizer que as novas gerações não querem trabalhar. Na verdade, elas querem trabalhar sem adoecer. O adoecimento mental ultrapassa limites e é uma preocupação latente, como demonstram os dados de afastamento por saúde mental.

Saindo do Automático: Escutando os Sinais do Corpo e as Emoções

A capacidade de sair do estado automático e perceber o impacto negativo do trabalho é um ato de coragem, que muitas vezes nasce do desespero. Parar um processo antes que o corpo ou a mente gritem de forma negativa é um grande passo. Para isso, é preciso legitimar as 'estranhezas' que sentimos.

O mundo corporativo, embora sedutor com seu status e dinheiro, muitas vezes convida à dissociação para manter um personagem. Quando não encontramos espaço para legitimar o que sentimos, o afeto acaba vazando de alguma forma: nas relações interpessoais, na performance congelada, na dúvida sobre a própria capacidade, ou pior, nas relações próximas e no corpo, através de sintomas como dores de cabeça, dores de estômago, ansiedade e angústia.

O convite é para que a gente se escute mais. Nosso corpo fala o tempo todo. As emoções aparecem para nos proteger. O problema é que fomos convidados a silenciar nossas emoções para não perturbar o outro em uma sociedade que precisa performar, onde o ócio é visto como preguiça. Como alternativa, muitos recorrem a vícios como forma de entorpecimento para se desligar de uma realidade dolorosa.

Avanços Legais e a NR1: Riscos Psicossociais no Trabalho

Um avanço significativo é a inclusão dos riscos psicossociais na Norma Regulamentadora 1 (NR1). Isso significa que todas as empresas têm até maio daquele ano para mapear e atuar frente a riscos como silenciamento de tarefas, forma de liderança e outras questões intrínsecas ao ambiente que podem afetar a saúde mental do colaborador.

Ao tratar o sistema e não apenas o indivíduo, há uma proteção maior para o trabalhador, com possibilidade de autuação pelo Ministério do Trabalho para empresas que não cumprirem a norma. Isso ajuda a combater o estigma de que a pessoa afastada por doença mental é 'fraca', ressignificando o sintoma como um limite e um alerta do corpo para não aceitar ser silenciado.

A psicodinâmica do trabalho está mudando, e as pausas estão sendo vistas como produtividade. Assim como atletas de alta performance precisam de sono e descanso para performar, no trabalho, a mente humana foi produzida para operar no silêncio e na organização, não no barulho constante.

Neurodivergência no Ambiente Corporativo

A discussão sobre neurodivergência dentro das organizações é recente, mas tem ganhado espaço através das pautas de diversidade, equidade e inclusão. É crucial reconhecer que neurodivergência não é só autismo, abrangendo um amplo espectro, incluindo altas habilidades.

Empresas mais maduras estão abrindo portas para treinamentos de liderança para identificar e acolher talentos neurodivergentes, preparando ambientes com menos ruído e atividades adequadas ao potencial de cada um. O desafio é que as pessoas partem de lugares diferentes para chegar ao mesmo lugar, e a equidade é fundamental. Embora ainda incipiente, é um caminho que está progredindo, desde que as empresas não abandonem as políticas de diversidade.

Abordagem Clínica EMDR: Desbloqueando Memórias para a Saúde no Trabalho

A abordagem EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing), com base em neurociência, é uma terapia de vanguarda que estimula o cérebro a encontrar memórias correlatas com sintomas que aparecem no presente. Muitas vezes, a busca pela perfeição e performance no trabalho está ligada a crenças formadas no passado, como a necessidade de ser perfeito para receber amor ou aceitação.

O ambiente de trabalho é um terreno fértil para que padrões de infância se repitam, pois atua sob pressão. Na clínica, o objetivo é resgatar onde está travado no cérebro e desbloquear biologicamente, reorganizando as memórias. O processo permite que o indivíduo diga para si que aquela crença não lhe pertence mais, possibilitando ser mais evoluído, organizado, eficaz e com clareza para encontrar seu próprio caminho de sucesso.

Esta abordagem é eficaz para adultos funcionais que passam por questões de identidade profissional e ansiedade relacionada ao trabalho, unindo a experiência clínica aos 15 anos de vivência no mundo corporativo.

Evolução para um Ambiente de Trabalho Mais Humano?

Os dados não mentem: mais de meio milhão de afastamentos por questões de saúde mental e a nova normativa do Ministério do Trabalho mostram que a saúde mental no trabalho precisa ser olhada, seja por preocupação genuína, pelos custos dos afastamentos ou pelas multas. Embora existam organizações mais maduras que já atuam nessa frente, principalmente após o choque psicológico da pandemia, a realidade é que existem microclimas e microculturas dentro das empresas.

Comparado a 10 ou 15 anos atrás, há mais espaço para vulnerabilidade e coragem dentro das organizações. Quando se legitima o sentimento e há espaço para falar, pode-se esgotar o tema em vez de esgotar o ser humano. A autenticidade permite ao profissional avaliar se é aceito ou se precisa mudar de lugar ou ofício. Os índices e alarmes atuais forçam um olhar para essa questão, criando oportunidades para que o melhor das pessoas, dos líderes e da cultura organizacional apareça, moldando um ambiente de segurança psicológica.

A Força dos Cenários Positivos e a Coragem para Prosperar

Nosso cérebro não distingue o que é real do que inventamos. Assim como criamos cenários catastróficos que nos deixam em estado de alerta, podemos criar cenários positivos. Ao criar e navegar em certezas positivas, fortalecemos nosso cérebro, diminuímos a ansiedade e aumentamos a coragem. Projetar-se em um futuro positivo, contando para o cérebro que tudo vai dar certo, faz com que ele navegue com muito mais segurança.