Introdução: O Podcast Alfaeja Transforma Brasil e a Conexão entre EJA e o Mundo do Trabalho
O podcast Alfaeja Transforma Brasil, inserido no contexto do projeto Alfaeja Brasil, é uma parceria entre o Instituto Paulo Freire e a Petrobras. Este episódio, que conta com a mediação do professor Paulo Roberto Padilha, diretor pedagógico do Instituto, reúne especialistas para discutir um tema central e urgente: a articulação entre a Educação de Jovens e Adultos (EJA) e o mundo do trabalho. Os convidados são Elisângela Santos Araújo, liderança nacional da agricultura familiar; Professor Antônio Almerico Bion de Lima, educador e pesquisador; e Professor Genuíno Bordeon, criador do termo “escola cidadã”. A discussão parte do princípio fundamental de que não faz sentido pensar uma EJA desarticulada da realidade laboral e produtiva dos estudantes.
Raízes Históricas: A EJA e o Trabalho na Perspectiva Freiriana
O professor Almerico inicia a reflexão afirmando que, diferentemente do que se possa imaginar, a EJA nunca esteve totalmente afastada do mundo do trabalho. Ele resgata que, desde sua origem com o Método Paulo Freire, o trabalho já era um elemento central. As palavras geradoras, que são a base do método, sempre apontam para o cotidiano do educando, e o trabalho é uma parte indissociável desse cotidiano. Portanto, a discussão sobre a profissionalização e os saberes gerados pelo trabalho sempre esteve presente, ainda que, com o tempo, os campos científico e pedagógico tenham criado uma separação artificial.
Almerico destaca um ponto crucial trazido por Genuíno: o trabalho gera conhecimento. No seu processo, o trabalhador constrói e move saberes oriundos de sua imersão cultural. Este é um elemento fundamental que precisa ser resgatado. Ele reconhece que houve um período de separação entre a EJA como escolarização básica (propedêutica) e a educação profissional e tecnológica. No entanto, avalia que o “tempo do afastamento já acabou”. Há um movimento de reaproximação, de “religare”, para juntar esses dois grandes campos da educação popular em um único currículo, materializado em iniciativas como o PROEJA, desde 2003. Ele cita experiências exitosas na Bahia, como um curso técnico de nível médio em agropecuária para lideranças sindicais, em parceria com a FETRAF.
O Paradigma da Escola Tradicional e os Desafios para a EJA
O professor Genuíno Bordeon faz uma análise mais crítica e estrutural sobre o grande problema da EJA: a sua concepção como uma escolarização tradicional. Para ele, a educação de jovens e adultos não pode ser uma mera adaptação do ensino feito para crianças e adolescentes. Os adultos possuem outra trajetória de vida, outras aprendizagens (o que ele chama de “dois currículos: o da escola e o da vida”), e já não se encontram na mesma fase de amadurecimento emocional e motor.
Genuíno reforça o pensamento de Paulo Freire de que a leitura de mundo precede a leitura da palavra. O adulto chega à escola com uma bagagem e uma leitura de mundo própria, construída no trabalho e na vida. Ignorar isso é aplicar um modelo inadequado, que leva à evasão. Ele critica o que chama de “encurriculamento” da EJA, defendendo um radicalismo: cada adulto possui um currículo próprio, com necessidades específicas. Citando o filósofo Alvaro Vieira Pinto, de 1989, ele afirma que a EJA não deve ser concebida como escolarização básica.
Além disso, Genuíno aponta a burocracia e o legalismo dos conselhos de educação como entraves à inovação. A cultura legalista e o “juridicismo pedagógico” tentam disciplinar e regular tudo para garantir a legalidade, mas isso sufoca a liberdade e a criatividade dos professores, que são essenciais para desenvolver metodologias atrativas para o público da EJA. Ele lamenta que a maioria das escolas públicas reproduza o paradigma tradicional, e não o que a lei determina: oportunidades educacionais apropriadas aos interesses, condições de vida e de trabalho do adulto.
A Experiência Transformadora do Reconhecimento de Saberes
Para exemplificar um caminho inovador, Genuíno relata sua experiência como assessor do SESI, após se aposentar, com uma metodologia de reconhecimento e certificação de saberes populares. Nessa abordagem, o adulto é tratado como um “sabedor” e não como um ignorante. A aprendizagem é contextualizada e não baseada na transmissão passiva de conteúdos. O resultado foi uma queda drástica da evasão escolar. Embora reconheça que essa não seja uma experiência de educação popular no sentido estrito, ela ilustra como um novo fundamento pode arruinar o antigo, como ensinava seu mestre Mário Osório Marques.
Experiências Inovadoras e o Papel da Intencionalidade Coletiva
Elisângela Araújo contribui com exemplos práticos e exitosos vindos da luta sindical e da agricultura familiar. Ela relata que os projetos de organização sindical da FETRAF sempre foram focados em educação profissional integrada à elevação de escolaridade. As necessidades econômicas, sociais e produtivas dos trabalhadores eram o ponto de partida. Projetos como o “Terra Solidária” (no Sul), “Semear”, “Flor do Mandacaru” (na Bahia) e “Saberes da Terra” são exemplos onde a prática produtiva (a horta, a visita a experiências) se unia à sala de aula. Essa metodologia formou lideranças que hoje ocupam espaços relevantes na política e nos movimentos sociais, como a presidente da CUT, Leni.
No entanto, Elisângela faz uma denúncia contundente: há um vazio e uma estagnação atuais porque muitos programas educativos, especialmente nos municípios, estão desconectados da vida. A matrícula se tornou um fim em si mesma, para cumprir metas numéricas, sem a qualidade que relaciona o conhecimento à evolução profissional e pessoal do aluno. Este desafio se torna ainda maior com as rápidas transformações tecnológicas, da inteligência artificial, que já chegam ao campo.
O professor Almerico, concordando com a necessidade de inovação, faz uma ponderação importante. Ele ressalta que o Brasil tem 7 milhões de pessoas não alfabetizadas com mais de 18 anos, sendo mais de 1 milhão só na Bahia e em São Paulo. Portanto, a escola pública é insubstituível para resolver este problema. A ideia, então, é “contaminar” a escola pública com a semente freiriana. Ele defende a importância da intencionalidade coletiva no processo educativo, que deve dialogar com o desejo individual, mas guiar os processos de formação. O currículo não deve ser uma grade fixa e prisional, mas algo fluido, plástico e que permita essa construção coletiva, abrindo espaço para saberes inesperados, como a etnoastronomia (a “estrela do umbu”) que ele descobriu ao trabalhar com agricultores.
Em Busca de uma Política Pública e de uma EJA Emancipatória
Ao final, os convidados direcionam suas falas para o futuro e para as soluções. Almerico expressa seu sonho: uma grande política pública de EJA com continuidade, formação de professores e diálogo com os movimentos populares e institutos que acumulam saber, como o Paulo Freire. O objetivo é uma EJA emancipatória, que permita aos sujeitos serem autônomos, decidirem seus caminhos e não serem reféns de um sistema. Ele também introduz o conceito de território (inspirado em Milton Santos) como categoria central, indissociável do trabalho e da educação, respeitando as diferenças regionais do Norte e Nordeste.
Genuíno, aos 85 anos, reafirma sua crença na escola cidadã municipalista. Para ele, é no município que se exerce a cidadania, e defende um sistema único de educação básica municipalizado. A saída é buscar um novo fundamento que arruíne a educação tradicional e fertilize a EJA com as experiências bem-sucedidas já existentes.
Elisângela reforça a necessidade de conectar essas políticas aos municípios, pois é lá que a vida das pessoas acontece. Ela defende que a educação deve tratar das questões na sua integralidade, combinando políticas sociais e econômicas, para que as pessoas compreendam a importância da cidadania e do acesso a direitos. Ela também faz um recorte fundamental para a questão de gênero, lembrando que as mulheres são mais de 50% da população e estão em todos os setores produtivos.
Almerico conclui pegando o gancho de gênero, mencionando que seu caderno dedica uma boa parte à discussão do trabalho invisibilizado das mulheres, incluindo o trabalho doméstico. Ele cita um projeto inovador de formatura para trabalhadoras domésticas no Instituto Federal da Bahia, a maioria mulheres negras. A mensagem final é de esperança e ação, convidando o público a acessar o site alfaejabrasil.org.br para dar continuidade ao debate e à construção de uma educação transformadora.