Kuntuala Oliveira: Uma Jornada de Autoconhecimento, Representatividade e Liderança no Mercado de Tecnologia
No episódio de hoje do podcast Women and Wealth, tivemos a honra de receber Kuntuala Oliveira, uma líder inspiradora que construiu uma carreira de destaque no mundo da tecnologia. Mais do que sua ascensão profissional, a conversa explorou sua missão de se tornar uma voz ativa para a diversidade, equidade e representatividade. Com uma trajetória que começou vendendo camisetas com os pais e a levou a liderar equipes de alta performance em uma das maiores empresas de tecnologia do mundo, Kuntuala compartilhou lições valiosas sobre autoconfiança, superação, maternidade e a importância de ocupar espaços de poder.
As Origens: A Escola de Vendas com os Pais e a Influência Materna
A história de Kuntuala começa em uma barraquinha de feira, onde seus pais, empreendedores, vendiam roupas da própria marca. Ela descreve essa experiência como sua "escola principal de vendas", onde aprendeu, na prática, lições de margem, negociação e gestão. Sua mãe, a visionária do projeto, era quem costurava e idealizava as peças, enquanto seu pai pintava as artes. Essa vivência a ensinou, desde cedo, o valor do trabalho e a resiliência, e plantou nela uma semente de liderança feminina.
A Importância do Exemplo dos Pais e a Luta pela Educação
Um dos momentos mais marcantes de sua infância foi ver seus pais, já com mais de 50 anos, realizarem o sonho de cursar uma faculdade através de políticas públicas de incentivo. Kuntuala estudou Letras junto com seu pai, uma experiência que descreve como um marco na vida da família. Esse exemplo de que "não existe hora certa para fazer as coisas" foi fundamental para moldar sua visão de mundo e sua determinação em buscar sempre mais, independentemente dos obstáculos.
Carreira Não Linear: De Letras à Tecnologia
A trajetória profissional de Kuntuala é um testemunho de que nem sempre a carreira é um caminho reto e planejado. Formada em Letras, ela nunca soube exatamente o que queria fazer. Trabalhou como recepcionista, auxiliar financeiro, passou pelo RH e, após muita insistência de seus líderes, aceitou o desafio de ir para a área de vendas. Foi nesse momento que se apaixonou pela atividade, descobrindo que vender não se tratava de ser o "legalzão", mas sim de ter escuta ativa e sensibilidade para entender o outro.
A Desmistificação da Tecnologia e a Descoberta de uma Paixão
O encontro de Kuntuala com o mundo da tecnologia aconteceu quase por acaso, quando foi contratada para vender um software de RH. Ela confessa que nunca se achou capaz de falar sobre tecnologia, associando a área a um perfil analítico e de exatas, muito distante do seu. No entanto, ao abordar a tecnologia como uma solução para problemas de negócio, ela desmistificou o campo e se apaixonou. Sua primeira certificação de produto foi um marco emblemático, quebrando o estigma de que ela, uma pessoa de "humanas", não poderia se destacar em um ambiente técnico.
Os Desafios de Ser Mulher no Mercado de Tecnologia
Kuntuala abordou um dos maiores desafios enfrentados por mulheres no ambiente corporativo: a falta de representatividade e a sensação de que nunca se está 100% pronta. Ela explicou que, historicamente, a mulher é educada para o cuidado e a preparação, enquanto o homem é incentivado a arriscar e ocupar espaços. Ela citou estudos que mostram que um homem se candidata a um cargo quando acredita ter 60% das qualificações, enquanto a mulher só o faz quando se sente 100% preparada.
Essa falta de representatividade, especialmente em cargos de liderança, gera uma insegurança profunda, pois a mulher não se vê refletida nas estruturas de poder. Para Kuntuala, a solução não está em imitar o comportamento masculino, mas em valorizar as características femininas, como a empatia e a capacidade de diálogo, que são cada vez mais valorizadas no mercado de trabalho.
A Maternidade como Transformação e o Apoio Corporativo
Um dos momentos mais emocionantes da conversa foi quando Kuntuala compartilhou sua experiência com a maternidade. Ela revelou que não planejava ser mãe e que a gravidez, que ocorreu logo após sua promoção a diretora, foi uma grande surpresa e motivo de pânico. Por seis meses, ela escondeu a gestação de quase todos na empresa, com medo do impacto na carreira.
No entanto, a experiência foi extremamente positiva, graças ao apoio de seu líder e de uma rede de amigas. Kuntuala destacou a importância de um ambiente profissional que acolhe a maternidade, citando que foi promovida pela segunda vez durante uma licença-maternidade. Ela brinca que a maternidade a tornou infinitamente mais poderosa, pois, se ela é capaz de educar e criar uma criança, nada no ambiente corporativo é mais difícil.
A Frase que Define: "Ser Mãe em uma Mesa de Decisão Muda o Jogo"
Kuntuala explicou que a maternidade trouxe para ela uma força, uma clareza e uma visão sistêmica que nenhuma outra experiência poderia proporcionar. Ela afirmou que a energia de uma mãe é extremamente poderosa e que isso se reflete em negociações e na tomada de decisão, tornando-a uma profissional mais segura, objetiva e estrategista. Ela enfatizou que a rede de apoio e um ecossistema favorável são fundamentais para que a experiência da maternidade seja positiva e não um fardo para a carreira.
Representatividade e o Projeto Conselheira 101
Kuntuala é uma defensora ativa da representatividade, algo que se reflete até na escolha do nome de seus filhos, Zuri e Malik, que têm significados em africano. Ela participa do projeto Conselheira 101, que prepara mulheres negras e indígenas para assumirem cadeiras em conselhos administrativos. Ela ressaltou que a falta de mulheres em conselhos não se deve à falta de preparo, mas à falta de espaço e indicação.
O projeto atua para abrir portas e criar networking, e já tem resultados expressivos, colocando mulheres em posições de poder. Para Kuntuala, esse é um trabalho de longo prazo e uma de suas missões de vida: aumentar a representatividade feminina e negra nos altos escalões das empresas.
Autoconhecimento e a Técnica de Hackear o Cérebro
Apaixonada por psicologia e autoconhecimento, Kuntuala trouxe uma técnica que chama de "hackear o cérebro". Ela explica que, devido à nossa formação social, muitas crenças limitantes são programadas em nós, especialmente nas mulheres. Para superar isso, ela pratica o exercício de se olhar com um "terceiro olho", analisando suas próprias atitudes de forma racional e saindo do automático.
Essa técnica a ajudou a questionar sua autoimagem e a construir uma autoestima mais sólida, permitindo que ela se arriscasse e ocupasse espaços que nunca imaginou ser capazes. Ela destaca que, para as mulheres, é fundamental entender que as barreiras são muitas vezes internas e que é possível reprogramar a mente para superar os medos e as inseguranças.
O Futuro da Tecnologia e o Papel da Inteligência Emocional
Com uma visão aguçada sobre o futuro do trabalho, Kuntuala acredita que, com a ascensão da Inteligência Artificial, as habilidades técnicas se tornarão menos exclusivas do ser humano. O que vai diferenciar os profissionais será a inteligência emocional, a capacidade de se adaptar, de gerenciar pessoas e de tomar decisões com valores e filtros morais.
Ela prevê um mundo onde a tecnologia executará tarefas e o líder humano será essencial para a gestão e a conexão entre as pessoas. Essa mudança, segundo ela, é positiva para as mulheres, que historicamente desenvolveram soft skills como empatia, diálogo e uma visão mais holística.
Conselhos Finais e a Mensagem de Legado
Ao encerrar, Kuntuala deixou sua mensagem para as mulheres que desejam seguir seus passos. Seu primeiro conselho é: venham para a tecnologia. Ela reforça que o mercado é plural e que há espaço para todos os perfis, desmistificando a imagem do profissional de tecnologia como um homem nerd e introvertido.
Ela aconselha a não ter medo, a acreditar que é possível e a ocupar o seu espaço. Seu legado, segundo ela, está em inspirar outras pessoas e mostrar que, com autoconhecimento, representatividade e uma boa rede de apoio, é possível quebrar barreiras e construir uma trajetória de sucesso. Sua história é um exemplo de que a carreira não é linear e que cada experiência, mesmo as que parecem um desvio, contribui para a formação de uma liderança autêntica e poderosa.