VitaUrbana Talks - Ep 4: Cidades Co.: Repensando Espaços com Marcelo Rebelo

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Introdução: O Desafio de Transformar Espaços Públicos no Brasil

Vivemos em um país onde a burocracia e a troca constante de gestões públicas frequentemente inviabilizam projetos de longo prazo para as cidades. Para muitos profissionais formados em áreas como arquitetura e urbanismo, o caminho natural seria o setor público ou grandes construtoras. No entanto, uma realidade frustrante tem gerado uma nova geração de empreendedores urbanos: a dificuldade de aplicar inovação dentro da máquina pública e a falta de um plano de carreira estruturado em governos que mudam a cada quatro anos.

Foi dessa angústia pessoal, da percepção de que as soluções importadas da Europa e dos Estados Unidos não se aplicavam diretamente à realidade brasileira devido ao déficit crônico de gestão, que nasceu uma das iniciativas mais inovadoras do país. Diante da ausência de empresas estruturadas de urbanismo no Brasil, a decisão mais 'ingênua' tornou-se a mais revolucionária: criar a própria empresa, focada não apenas em projetos pontuais, mas em soluções definitivas para a degradação dos espaços públicos.

A Gênese do Empreendedorismo Urbano: Da Dor Individual à Solução Coletiva

A trajetória de muitos empreendedores sociais começa com uma insatisfação profunda com o status quo. No caso do urbanista em questão, a 'dor' foi dupla: a impossibilidade de inovar dentro da estrutura pública, onde se via fazendo 'mais do mesmo', e a constatação de que não existia mercado para consultorias de espaço público no Brasil. Enquanto referências internacionais como Jan Gehl e a Project for Public Spaces (PPS) dominavam um mercado global consolidado, aqui o problema era mais primário: a falta de capacidade de gestão e manutenção.

A grande virada de chave foi perceber que, ao contrário do mercado externo, onde uma consultoria entrega um projeto e a prefeitura o mantém, no Brasil a gestão é o calcanhar de Aquiles. Sem uma solução de gestão perene, qualquer revitalização estaria fadada ao abandono em seis meses. Isso levou à criação de um modelo de negócio inédito, que não se limita a desenhar soluções, mas que acelera lideranças comunitárias para que elas mesmas se tornem as guardiãs do espaço público, garantindo sua sustentabilidade a longo prazo.

Metodologia Colaborativa: O Protagonismo da Comunidade na Revitalização

A essência do modelo desenvolvido está na palavra 'colaborativo', que foi incorporada até à marca da empresa. Diferente dos métodos tradicionais que partem do poder público ou da iniciativa privada de cima para baixo, a metodologia desenvolvida coloca os moradores como protagonistas absolutos da transformação. O primeiro passo é identificar os grupos de vizinhos inconformados com a degradação – aqueles que já possuem um grupo no WhatsApp e uma paixão pelo bairro, mas que não sabem como agir efetivamente.

O trabalho, portanto, não é o de executar, mas sim o de empoderar e acelerar. Através de uma metodologia estruturada (denominada 'cubo mágico urbano'), ensina-se grupos de vizinhança a criarem movimentos de bairro bem-sucedidos. Isso inclui desde o diálogo com a prefeitura até a captação de recursos. A premissa é clara: não se criam movimentos de pressão pública (exigindo algo que o poder público não tem capacidade de entregar), mas sim movimentos de cooperação pública, onde a comunidade complementa a ação do governo onde ele não consegue chegar.

Estudo de Caso: A Praça Vila Boim e o Financiamento Coletivo de Vizinhança

Para entender a aplicação prática dessa metodologia, é essencial analisar o case da Praça Vila Boim, iniciado em 2016 e ativo até hoje. Este foi o projeto piloto onde o modelo de negócio de protagonismo comunitário foi lapidado. A comunidade local já havia tentado pressionar a prefeitura por obras e conversado com grandes empresas para patrocínio, mas sem sucesso. Foi então que o grupo de vizinhos, os 'Amigos da Praça Vila Boim', aceitou testar uma nova abordagem: a própria comunidade adotar a praça.

A solução encontrada foi um sistema de captação de recursos recorrente, uma 'vaquinha de vizinhos' com mensalidades. Este financiamento coletivo misto envolve desde pessoas físicas (a padaria local, o morador da sogra) até empresas (universidades do entorno) e, complementarmente, recursos públicos via governo. A chave do sucesso foi a sustentabilidade financeira aliada à gestão compartilhada. Diferente de uma obra que se entrega e se abandona, a praça se mantém viva porque a comunidade decisora continua gerindo o espaço, decidindo se quer um parquinho, uma área para cachorros ou melhorias na iluminação.

Os Pilares da Sustentabilidade: Comunidade, Empresas e Governo

Um dos grandes aprendizados obtidos ao longo dos anos é que a revitalização de um espaço público não pode depender de uma única fonte de recursos. O modelo desenvolvido opera com três pernas de sustentação, garantindo resiliência financeira e política. A primeira perna é a comunidade, que através de mensalidades e eventos (como bazares e festas) gera a receita base para a manutenção diária. A segunda perna são as empresas, especialmente incorporadoras e comércio local, que patrocinam melhorias estruturais. A terceira é o governo, que entra com a contrapartida institucional e a execução de itens que estão dentro de sua alçada orçamentária.

Exemplos de sucesso dessa tríade incluem a 'Nossa Praça' em Santo Amaro, considerada a comunidade mais festiva. Lá, os moradores realizam quatro eventos por ano (bazares e confraternizações) que servem tanto para captar recursos quanto para fortalecer os laços sociais, transformando antigos estranhos em grandes amigos. Isso demonstra que o espaço público revitalizado deixa de ser um custo para se tornar um ponto de encontro gerador de capital social, onde as pessoas se divertem e se sentem seguras.

Tecnologia como Aliada: Automatizando a Gestão de Espaços Públicos

A tecnologia desempenha um papel crucial para escalar o modelo e evitar o burnout dos voluntários. Os líderes comunitários, que já possuem tempo escasso, não podem desperdiçar sua energia em tarefas burocráticas como controle de inadimplência, prestação de contas ou pagamento de fornecedores. Para resolver isso, foi desenvolvida uma plataforma digital própria, uma espécie de rede social de vizinhança que automatiza os processos 'chatos' da gestão financeira.

Essa ferramenta permite que o líder gaste seu tempo onde realmente importa: mobilizando pessoas e tomando decisões estratégicas para o espaço. A plataforma hospeda as vaquinhas, gerencia quem pagou o boleto, quem não pagou, e automatiza os repasses para os fornecedores (como empresas de limpeza ou manutenção). Com isso, a tecnologia ajuda a criar uma comunidade de 'cidadãos ativos', transformando a dor da gestão em um processo transparente, eficiente e escalável para várias praças e bairros simultaneamente.

O Papel da Iniciativa Privada e das Incorporadoras na Construção da Cidade

Historicamente, a relação entre construtoras e as comunidades de entorno era fria e distante. As empresas chegavam, causavam transtornos (barulho, sujeira) com suas obras, entregavam o prédio e iam embora, criando uma cultura de 'vilão da incorporadora'. Esse paradigma está mudando. Atualmente, principalmente no mercado de incorporação, empresas conscientes estão destinando verba específica em seus orçamentos para melhorias urbanas, substituindo o antigo 'agrado' (como bombons e brindes) por ações estruturais como iluminação de ruas e revitalização de praças.

Exemplos práticos dessa nova abordagem incluem a revitalização da Escadaria Timaia na Vila Madalena, onde a incorporadora propôs à prefeitura uma intervenção no entorno de seu empreendimento, e a criação de um calçadão na região da Santa Cecília. A visão de longo prazo é clara: uma empresa que planeja lançar seis empreendimentos em uma região nos próximos anos precisa ser vista como parceira, e não como incômodo. O entendimento é que o futuro de São Paulo está sendo construído pelas incorporadoras e, portanto, elas têm a responsabilidade de garantir que a cidade seja qualificada e agradável.

Conclusão: A Retomada do Espaço Público e o Legado para o Futuro

A sociedade contemporânea está vivendo um movimento de retomada do espaço público, impulsionado pelo período pós-pandemia e por uma demanda natural do ser humano por sociabilidade. Após décadas de 'cidade do medo' – que nos trancou em muros e shoppings – observa-se um desejo latente de voltar para as ruas, exemplificado pelo sucesso do Carnaval de rua, dos food trucks, da abertura da Avenida Paulista e do Minhocão. Este último é um caso emblemático: basta bloquear o trânsito com cones nos finais de semana para que as pessoas tomem conta, andem de patins, passeiem com cães e tomem sol, provando que o parque já existe, basta a vontade política e social.

Portanto, a mensagem final é de otimismo e ação. Para grupos de vizinhos inconformados com a degradação de suas praças, existe uma metodologia disponível para criar movimentos de bairro de sucesso. Para empresas e incorporadoras, a oportunidade é de ajudar a construir uma cidade mais qualificada, indo além da venda de apartamentos. O convite é para que todos se tornem cidadãos ativos, contribuindo para um legado urbano que promova qualidade de vida, segurança e pertencimento, transformando São Paulo em uma cidade tão inspiradora quanto as grandes capitais europeias.