Mestres da Obra - Episódio 3: Sustentabilidade na Construção com Blocos Cerâmicos

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Fala pessoal, sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Videoocast do Itacer. Eu sou o Gabriel Tavares e hoje nós vamos tocar em um assunto que não é apenas importante, mas urgente e essencial para o nosso futuro e para o futuro das nossas cidades. Nós já conversamos aqui sobre a eficiência da alvenaria cerâmica racional na prática da obra e sobre toda a tecnologia envolvida na produção dos blocos. Mas hoje nós vamos fechar esse ciclo falando sobre o meio ambiente. O nosso tema é sustentabilidade na construção com blocos cerâmicos.

Lá no engenharia civil, eu sempre bato na tecla de que a construção civil é um dos setores que mais consome recursos naturais no mundo. Por isso, escolher os materiais certos faz toda a diferença. Hoje nós vamos entender o impacto ambiental super positivo da alvenaria cerâmica desde o momento em que a argila é extraída da natureza, passando pela redução absurda de entulho e desperdício de obra até o momento do descarte e da reciclagem. Vamos descobrir porque construir com blocos cerâmicos é de fato construir de forma mais verde e consciente.

Para mergulhar fundo nesse tema tão relevante, eu tenho a honra de receber dois convidados que têm currículos impressionantes e uma bagagem incrível na área de sustentabilidade e inovação. Primeiro, quero dar as boas-vindas ao Constantino. Ele é arquiteto e urbanista com mestrado em habitação pelo IPT. Com mais de 20 anos de experiência, o Constantino é uma verdadeira referência nacional em alvenaria racional, sistemas construtivos e industrialização da construção civil. Atualmente, ele lidera a cerâmica City, promovendo o desenvolvimento tecnológico de soluções sustentáveis e ainda é coordenador nacional da norma de alvenaria sem função estrutural na ABNT. Para completar essa mesa de peso, recebo também a engenheira Dra. Clarice Reiter Minezes Degan. Clarice é engenheira civil, mestre e doutora em tecnologia e gestão da produção pela Escola Politécnica da USP. Desde 2008, ela atua como consultora para desempenho e sustentabilidade em grandes empreendimentos imobiliários e ela já foi assessora técnica em sustentabilidade no SECOV SP e na USP, e hoje é curadora, membro do conselho e diretora executiva do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável, além de ser professora em cursos de MBA da Poli.

Redução de Carbono: Por que os Blocos Cerâmicos Emitem até 66% Menos CO2?

Quando falamos em descarbonização, estudos mostram que blocos cerâmicos podem emitir até 66% menos CO2 do que alternativas como paredes de concreto armado. A engenheira Clarice explica que essa diferença significativa na pegada de carbono deve ser analisada de forma ampla, considerando o ciclo de vida completo de um edifício.

É importante entender desde a extração de materiais agregados e fabricados até a chegada do bloco e dos componentes. É necessário calcular o carbono emitido no processo de fabricação, as distâncias de transporte desses materiais até o canteiro de obras, pois existe um carbono emitido nesses transportes. Outro carbono é calculado dentro do canteiro de obras, onde o método construtivo das vedações é relevante do ponto de vista de execução.

Depois, existe uma etapa final que é o edifício pronto operando, analisando como esses componentes se comportam em termos de entrada e saída de carga térmica, desempenho do edifício e o carbono operacional do consumo de energia. É um pensamento holístico de ciclo de vida. Todas essas etapas têm que ser avaliadas para realmente fazer o cálculo de qual sistema é mais ou menos relevante, qual emite mais ou menos carbono, dependendo da localização do edifício.

Alinhamento com a Agenda ESG: Como a Alvenaria Cerâmica Atende às Metas Globais

Hoje a agenda ESG não é mais uma opção, é uma exigência de investidores e clientes. Constantino explica que a escolha da alvenaria cerâmica racionalizada ajuda uma construtora a melhorar seus indicadores ambientais e se alinhar com as metas globais de redução de emissões.

É preciso saber escolher o produto mais adequado para o sistema construtivo de acordo com a demanda da sociedade para aquela edificação naquele terreno. A cerâmica vermelha possui possibilidades muito eficientes, desde a fabricação, transporte, execução do edifício e depois de uso e ocupação. Não adianta fazer uma casa muito rápida e bonita se depois vai gastar uma enorme quantidade de carga térmica e dinheiro para manter o ambiente confortável.

A alvenaria racional cerâmica é eficiente nas questões térmicas, sustentáveis, atende à demanda da sociedade e considera a governança. O planejamento é fundamental, pois nada se sustenta sem governança e planejamento. A escolha correta deve ser baseada em critérios técnicos e não em achismos. O trabalho do CBCS (Conselho Brasileiro de Construção Sustentável) é extremamente relevante porque traz esses critérios técnicos de forma adequada para o consumidor, ajudando a entender o que é carga térmica, desempenho acústico, e o que representa 4 ou 5 decibéis a mais de ruído.

Economia de Água: Método Construtivo Seco e Eficiente

Dados apontam que uma casa construída com blocos cerâmicos consome cerca de 84% menos água em comparação com paredes de concreto. Clarice explica que estamos falando de um sistema seco no canteiro de obras. Esse dado vem do ciclo de vida completo, desde a produção, extração do minério, até a execução da obra.

O mais importante disso tudo é o planejamento. Com um bom planejamento do sistema de vedação, é possível consumir menos recursos naturais além da água, incluindo o próprio material. Quando se pensa em algo mais seco e mais pronto, é essencial ter um projeto modular e racional, onde já se sabe exatamente a quantidade de componentes que serão usados, tornando o processo menos consumidor de recursos naturais e de tempo.

O planejamento do canteiro também envolve a movimentação e armazenamento do produto. Dependendo da obra, os estoques são movimentados muitas vezes durante a construção. Um bom planejamento traz uma racionalidade financeira e de engenharia muito melhor, resultando em uma obra mais rápida que não desperdiça recursos. Na construção brasileira, muitas vezes se constrói uma parede e depois se quebra para instalar um chuveiro. Com o bloco de furo vertical, a tubulação passa por dentro do furo do bloco de maneira muito simples.

Redução de Desperdício e Economia Circular com Blocos Cerâmicos

Constantino explica que o bloco de furo vertical é muito parecido com o Lego. É possível modular os blocos de tal maneira que não há desperdício. Sabendo exatamente quantos tipos de bloco serão necessários para cada posição, quanto será gasto de argamassa, e se haverá reforço de grau vertical ou horizontal. Tudo isso é definido em projeto e depois replicado no canteiro.

Um grande avanço é a possibilidade de economia circular. Se uma peça quebrar no canteiro de obras, ela pode ser trazida de volta para a fábrica, beneficiada e transformada em bloco novamente. O caco que era bloco na obra é reciclado e volta a ser bloco. A indústria cerâmica já se adequou a esse tipo de realidade.

Produção Sustentável: Biomassa e Eficiência Energética nos Fornos

A sustentabilidade do bloco cerâmico começa muito antes dele chegar na obra. Constantino descreve como as indústrias modernas estão utilizando fontes de energia renovável, como a biomassa, e reaproveitando o calor dos fornos para tornar a produção mais limpa e eficiente.

Antigamente se usava lenha, que além de ser um recurso caro, hoje é mais adequada para outras finalidades. Atualmente, utiliza-se toda poda de árvore, restos da indústria moveleira, casca de coco, casca de nozes, palha, bagaço - tudo que é resto e não pode ser jogado em aterro sanitário comum. Esses produtos são transformados em energia térmica. Isso já é um ganho, pois se esse lixo fosse para um aterro, seria um custo muito maior devido à emissão de gases nocivos durante a decomposição.

Com as tecnologias atuais dentro do forno, o excesso de calor gerado é direcionado para o secador, eliminando a perda de energia térmica. Isso torna o processo extremamente eficiente, pois toda energia gerada em excesso no forno é complementar para secar o produto antes de entrar no forno. Esses ganhos foram conquistados pela indústria ao longo do tempo, não apenas por serem ecologicamente corretos, mas porque tornam o negócio mais eficiente, gastam menos dinheiro e, consequentemente, sobra mais dinheiro no bolso.

Extração Legal de Argila e Conformidade Ambiental

A extração da argila, matéria-prima do bloco, sempre gera preocupações ambientais. Clarice destaca que o consumidor não tem como saber, ao comprar um bloco, se está havendo preservação dos recursos não renováveis, pois argila não se planta.

A única forma de garantir que a preservação está acontecendo é adquirir material de construção de fornecedores em conformidade fiscal, trabalhista e com licenciamento ambiental. É muito importante consultar essas instâncias na hora de homologar o fornecedor de bloco. O CBCS possui uma ferramenta chamada "Seis Passos", onde se pode verificar CNPJ, se o fornecedor está isento de trabalho infantil e mão de obra escrava, entre outras conformidades preliminares à pauta da sustentabilidade.

O PSQ (Programa Setorial da Qualidade da Cerâmica Vermelha) traz uma lista de fornecedores que cumprem requisitos de conformidade técnica. Além de não operar com exploração irregular ou mão de obra irregular, o fornecedor deve ter um bloco que desempenha minimamente segundo a norma da ABNT NBT 15270. Essa certificação funciona como uma garantia para o projetista, cliente e construtor. Um bloco com menos carbono incorporado ainda é um diferencial, mas um bloco de um fabricante dentro do PSQ em conformidade terá o tamanho, a absorção de água e a resistência declarados.

Infelizmente, existe uma concorrência desleal brutal no mercado. Fabricantes não conformes agem de maneira ilegal em questões fiscais e financeiras, podendo baixar o preço artificialmente. O consumidor final muitas vezes busca apenas o preço mais baixo, sem consciência do impacto dessa escolha.

Mensagem Final para Construtoras e Consumidores

Para encerrar, Clarice e Constantino deixam recados importantes para os decisores de construtoras sobre o papel da alvenaria cerâmica na construção do futuro verde das nossas cidades.

Clarice recomenda consultar o SIDAC (Sistema de Informação de Desempenho Ambiental da Construção), que traz os indicadores de carbono incorporado nos materiais, fornecendo a pegada de carbono do bloco. Este é um sistema do Ministério de Minas e Energia que o CBCS opera. As jornadas setoriais de baixo carbono estão entrando no projeto do PBQPH (Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat) e do Minha Casa Minha Vida, criando uma corrente de fabricantes do bem que buscam descarbonizar e tornar seus sistemas mais eficientes.

Constantino enfatiza que o compromisso com a sustentabilidade vem de berço, sendo uma questão de educação. É preciso se educar para entender todo esse movimento e o quanto ele é importante para a sustentabilidade do país. Atualmente, estamos passando por um processo mais educacional do que efetivamente de ações mais pesadas.

Fica o apelo final: peça o PSQ, cobre o PSQ na sua loja de material de construção. Isso não deveria ser um diferencial, mas sim uma obrigação. Infelizmente, ainda é um diferencial no mercado brasileiro. Para mais informações, consulte cbcs.org.br e sidac.org.br.