Introdução: O Podcast Confissões Consentidas e a Senhorita G
No episódio do podcast Confissões Consentidas, o apresentador Mestre Cruel (Renan) recebe a Senhorita G. Seguindo o protocolo de acessibilidade, Renan se descreve como um homem branco de 33 anos (quase 34), cabelos castanhos com algumas mechas brancas, usando uma camisa de couro preta. Senhorita G então se descreve: mulher branca, cabelos cacheados vermelhos (não naturais), blusa preta com decote, alcinha de sutiã vermelha aparecendo, e uma coleira preta.
Quem é G? Masoquista, Designer, Artesã, Mãe e Escritora
A 'mini bio' de Senhorita G no Wikipédia incluiria: 'masoquista (mais masoquista do que submissa), designer, artesã, mãe, profissional de comunicação, especialista em quebrar floggers (não sou eu que quebro as coisas), araldo do caos, Dona Manda Chuva, CEO do GTinder, promoter da GPART e escritora fetichista meio relapsa'. Ela tem 52 anos (rumando para 53).
O Despertar nos Anos 80/90: Revistas, Catálogos e a 'História de Ó'
G despertou para a sexualidade no final dos anos 80 e começo dos 90, em uma época pré-internet. Era uma 'menina de classe média alta, colégio tradicional'. Sua única fonte de informação eram revistas como Cláudia, Marie Claire e Capricho, além das Playboys escondidas do irmão. Sua mãe assinava o Círculo do Livro, cujo catálogo tinha uma página de eróticos com obras como 'Vênus das Peles', '120 Dias de Sodoma' e a 'História de Ó'. Ela nunca teve coragem de pedir o livro, mas lia a sinopse repetidamente. Anos mais tarde, encontrou a edição de capa dura da 'História de Ó' do Círculo do Livro e a possui até hoje — tem um apego emocional pela capa. Para G, o livro (escrito por uma mulher desafiada por um editor homem) conta a jornada de uma masoquista que se entende como tal ao final, o que 'fala muito' com ela.
As Primeiras Práticas: Dor, Brincadeiras de Cinderela e a Injeção Premiada
G nunca apanhou dos pais e não tem histórico de violência doméstica. Sua lembrança mais antiga de desejo por dor vem de assistir a uma novela em que uma personagem era humilhada — algo que a marcou. Nas brincadeiras de Cinderela, sua parte favorita era quando as irmãs a humilhavam: 'O baile, tô nem aí. Eu gostava de ser a Cinderela da parte ruim.' Ela pedia aos parceiros que beliscassem, batessem, mordessem, usassem cinto — 'puxa, ficou roxa, acontece'. G também compartilha uma memória que sua mãe lhe contou: quando criança, teve bronquite e precisava tomar injeção todos os dias. Seus pais ficaram preocupados porque ela parecia gostar de ir à farmácia e acharam que se tornaria hipocondríaca. A própria G não lembra da dor da injeção, mas lembra da recompensa: cada vez que chegava, o farmacêutico trazia uma bandejinha com bijuterias (anéis com pedrinhas coloridas). Ela escolhia a cor, tomava a injeção sem chorar e colecionava os anéis. 'Não me lembro de nenhuma vez na minha vida de ter me masturbado sem fantasiar sofrimento desde que comecei a me explorar.' Para ela, a chave para descobrir o próprio fetiche é perguntar: 'O quê que você pensa quando se masturba? Porque é isso que a gente é, o nosso instinto, o desejo.'
Casamento Baunilha e a Virada de Chave na Agência de Publicidade
G casou-se em 2000 em um casamento baunilha que durou 17 anos ('acabou porque tinha que acabar'). Em meados de 2004-2005, ela tinha uma agência de publicidade e a equipe pegou uma conta de preservativos. Até então, as marcas de preservativo só comunicavam prevenção (devido à pandemia de HIV). O cliente pediu que a agência falasse de erotismo e prazer, não de prevenção. G, diretora de criação de uma equipe só de homens, precisou pesquisar como comunicar erotismo. Entrou em sites de contos eróticos e caiu no 'Desejo Secreto', no blog do Mestre J e no site do Verdugo. Ao ler, teve um estalo: 'Isso fala comigo. Agora entendi o que eu sou. Isso tem nome, tem jeito certo de fazer, tem protocolo de segurança.' Ela estudou obsessivamente, mas guardou esse conhecimento até se separar em 2017.
O Nascimento de 'Senhorita G' e o GTinder (Correio Elegante)
Ao se separar e entrar em aplicativos de relacionamento, G criou um perfil na rede social do 'Santo Verdugo' com seu próprio nome (Renata G). Em 2018-2019, uma pessoa com quem ela jogava abriu um Instagram para postar fotos de sessões. G só tinha Instagram de trabalho, então criou um perfil pessoal. Para o nickname, inspirou-se na 'História de Ó' (uma letra só) e na preguiça: pegou a inicial do sobrenome (G) e acrescentou 'Senhorita'. Durante a pandemia, sem conseguir praticar, começou a postar contos e o perfil cresceu. Ela também criou o GTinder (correio elegante): abre uma caixinha no Instagram onde as pessoas podem mandar recados para quem estão de olho; ela reposta fazendo um comentário engraçado ou irônico. 'É uma festa para acolher, conectar pessoas.'
A Escrita Fetichista: Contos, Inspirações e o Limite Autobiográfico
G escreve contos de ficção fetichista — nunca relatos autobiográficos. 'Acho que a minha vivência é minha para guardar e para compartilhar com quem viveu comigo.' No entanto, ela se inspira em amigos: o conto 'Meias Coloridas' foi inspirado no fetiche de um amigo podólatra assádico. Ela já sorteou contos como presente. Houve também o movimento contrário: leitores realizaram cenas inspiradas em seus contos. Uma pessoa recriou uma cena de needle play de um de seus contos e lhe mandou a foto. Em Curitiba, uma festa usou a dinâmica do conto 'Cadê meu Sorriso?' (a 'bunda da festa' — uma pessoa que circula com uma bandeja se oferecendo). Nas últimas edições da GPART, G tem mantido essa prática. Ela mesma ainda não viveu uma cena exatamente como escreveu, mas está nos planos.
Ser Reconhecida na Rua: 'Você é a Senhorita G?'
G lembra da primeira vez que foi reconhecida: saindo do banheiro do Dominatrix, uma pessoa gaguejou e perguntou se ela era a Senhorita G. Depois disso, aconteceu em aeroportos, outras baladas. 'É meio esquisito, mas hoje acho divertido.' Ela reflete que o reconhecimento vem não só dos contos, mas por ser 'uma bottom que tem voz' — uma submissa masoquista que fala de feminismo, se questiona e orienta pessoas (muito no privado). Ela é exibicionista e pratica em público porque a plateia também alimenta seu tesão: 'Se não quisesse ninguém me vendo, praticava no privado.'
A GPART: A Festa que Acolhe e Conecta no Dominatrix
A GPART nasceu quando G viu que o Dominatrix estava selecionando novos promoters. Sua proposta foi 'levar o que eu sou no Instagram para uma festa': acolher e conectar pessoas. G acredita que o Dominatrix é um lugar ideal para primeiras vezes, para quem nunca pisou em um evento fetichista, para ir sozinho (especialmente mulheres), pois a equipe e os frequentadores acolhem. A GPART privilegia a prática (não é uma 'casa de show' onde só se assiste). Sempre há uma monitoria ou degustação de alguma prática (shibari, impact play, vela). G sobe ao palco para apanhar em público (gosta de ser vista apanhando), mas incentiva que as pessoas pratiquem entre si fora do palco. A próxima edição será no sábado, 2 de maio, no Dominatrix (Fernando de Albuquerque, perto da Consolação), celebrando o aniversário de 53 anos de G (seu aniversário é 5 de maio). Haverá wax play com 'velas de aniversário'. Ingressos: entrada seca (valor menor) ou consumação (valor maior com nome na lista). Com nome na lista de G, os valores são R$30 ou R$60. O link da lista está nos destaques do Instagram de G.
Masoquismo, Feminismo e Submissão Ideológica vs. Submissão Consentida
G reflete sobre o conflito entre ser masoquista submissa e feminista. Ela passou por um período de questionamento intenso nos anos 80/90, em um contexto de heterossexualidade compulsória. 'A hora que realmente assinei o papel de que estou OK com isso foi a primeira vez que joguei com mulher. Aí falei: não tô só gostando de apanhar de homem, gosto de apanhar de mulher também. Sou masoquista erótica mesmo.' G diferencia a submissão do fetiche (escolhida, negociada, com palavra de segurança) da submissão ideológica (a que vem carimbada na certidão de nascimento de quem nasce mulher, educada para servir dentro da estrutura patriarcal). 'A gente pode entregar a coleira a hora que quiser ou pedir a palavra de segurança. A gente escolheu estar aqui.' Mas ela ressalva: BDSM não é terapia (pode ser terapêutico, mas não substitui terapia). 'Façam terapia' — não adianta ter apanhado do pai e querer que o parceiro bata sem consciência.
Jogo Rápido: Cores, Sonhos, Medos e a Coxinha pela Bunda
No quadro de perguntas rápidas, G declara que a única cor de que não gosta é marrom (e bege). Seu sonho fetichista: estar em um castelo vivendo a 'História de Ó'. O sonho de vida: ver seu filho crescer saudável. Seu medo: 'medo de mãe' — olhar para o filho e pensar que errou a mão. Indica o filme Star Wars (a princesa que toma as rédeas do próprio resgate e mata o sequestrador com os próprios grilhões). Indica o livro 'Cisnes Selvagens' (três gerações de mulheres na China). Para interpretá-la no cinema, escolhe Carrie Fisher escrevendo o roteiro. Uma prática fetichista que ainda não fez: mumificação (embrulhadinha), desde que não atrapalhe totalmente a respiração. Define a relação entre Renata e Senhorita G: 'Renata é uma pessoa que mesmo em situações muito difíceis é capaz de achar o lado divertido das coisas, muitas vezes com certa acidez. A G leva isso ao limite.' E a pergunta que faltou: 'A coxinha é pela ponta ou pela bunda?' Resposta de G: pela bunda.
Considerações Finais e Redes Sociais
G divulga seu link tree: stabilo.cc/senhoritag (senhorita por extenso, letra G, tudo junto). Lá estão links para ler seus contos, baixar ebook, entrevistas, textos no portal do Dom Barbudo, Twitter e Kink Grun. Mestre Cruel divulga @confissoesconsentidas, @domcsp, www.mestrecruel.com e a rede social fetista brasileira Kink Grun.