ViMoCast 48: Cuidar em Cenários Difíceis: Resistência, Propósito e Legado

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Introdução: Um Encontro com a Mestra do Cuidado Paliativo no Brasil

Neste episódio histórico do Vimocast, recebemos a Mia Olsen de Almeida, psicóloga especialista em psicologia hospitalar e psicooncologia, referência fundamental nos cuidados paliativos no Brasil. Mia é reconhecida por sua atuação pioneira no Hospital Sírio-Libanês, onde implantou o serviço de psicooncologia e supervisiona a equipe multiprofissional de cuidados paliativos. Docente e facilitadora da pós-graduação em cuidados paliativos da Faculdade Sírio-Libanês, seu legado é tão significativo que o Centro Acadêmico de Psicologia da instituição leva seu nome.

A conversa aborda a trajetória de uma vida dedicada ao cuidado do outro, desde sua infância marcada por mudanças culturais e desafios pessoais, até a descoberta dos cuidados paliativos como uma filosofia de vida. Mia compartilha suas experiências, lições e a sabedoria acumulada ao longo de mais de 50 anos de prática, revelando os bastidores da implantação do cuidado paliativo no Brasil e a importância de transformar o sofrimento em instrumento de trabalho.

A Trajetória Pessoal e Profissional: Da Psicologia Infantil à Psicooncologia

Mia começou sua carreira na psicologia trabalhando com crianças com problemas de aprendizado, como dislexia, em uma época em que o tema era pouco conhecido no Brasil. Ela relata que a escola e os pais exigiam resultados rápidos, mas o processo de ajudar uma criança a entender que não era "menos amável" por ter uma dificuldade específica era longo e profundo. Esse trabalho inicial já a conectava com questões emocionais e de autoestima, preparando o terreno para sua futura atuação.

Após um período de afastamento dedicado à arte (curadora da galeria do Memorial da América Latina), ela foi redirecionada aos cuidados paliativos por uma amiga capelã sueca que lhe apresentou os livros de Cicely Saunders, fundadora do movimento moderno de cuidados paliativos. Foi então que ela descobriu a psicologia hospitalar, uma área que não existia em sua época de formação. Aos quase 50 anos, Mia buscou especialização, enfrentando desafios e preconceitos, mas com a convicção de que encontrou sua missão.

O Encontro com o Sofrimento: Experiência Pessoal como Ponto de Virada

Um momento crucial na vida de Mia foi sua própria experiência com o câncer. Aos 20 e poucos anos, ela teve um tumor no lábio, passou por cirurgia e radioterapia, enfrentando isolamento, perda de peso e depressão. Essa vivência lhe deu uma compreensão visceral do que é ser paciente, acordar no meio da noite suando frio e sentir medo. Ela conta que uma amiga, ao ter um melanoma, a procurou para ser sua psicóloga, mas Mia recusou, oferecendo amizade. Foi ao acompanhar essa amiga até o fim da vida que Mia teve a certeza de que queria trabalhar com pessoas em sofrimento grave, apesar da advertência de seu terapeuta de que ela ainda tinha questões pessoais a elaborar.

Mia reflete sobre o debate sobre a necessidade de ter tido uma doença para atuar em oncologia. Uma colega orientanda, inicialmente contrária a essa ideia, depois de ter câncer, reconheceu que a experiência muda tudo. Mia concorda que a vivência dá uma percepção única, mas acredita que a capacidade de empatia pode ser desenvolvida e que a linguagem não verbal muitas vezes revela ao paciente se o profissional "já passou por isso".

Liderança e Implementação de Serviços

Mia relata o início de sua atuação no Hospital Sírio-Libanês há 28 anos, quando foi contratada para implantar a psicooncologia. O ambiente era hostil, com oncologistas céticos e um sistema hierárquico que a tratava como "móvel". Sua estratégia foi trabalhar com a enfermagem, circulando pelos postos e ganhando a confiança das equipes. Ela introduziu o conceito de "sofrimento total" sem nomeá-lo como cuidados paliativos, pois na época falar abertamente sobre o tema poderia levá-la à demissão.

O Trabalho com a Enfermagem e a Pesquisa Qualitativa

Com uma psicóloga voluntária, Mia realizou uma pesquisa qualitativa com a equipe de enfermagem do ambulatório, que revelou que 100% das profissionais se sentiam despreparadas para lidar com pacientes e com suas próprias emoções, além de terem medo da morte e de levar a morte para casa. A devolutiva desse trabalho uniu a equipe, pois perceberam que todas estavam no mesmo barco. A partir daí, grupos de suporte foram formados, abordando temas como tristeza, luto, depressão e delírium. Esse modelo se expandiu para outros setores, até que Mia, sobrecarregada, pediu demissão. Ela também atuou no Hospital Vieira de Carvalho (Santa Casa), onde o ambiente colaborativo e a ausência de competição permitiam um trabalho mais horizontal e transformador.

A Implantação da Pós-Graduação e o Legado Educacional

Em 2008, com a Joint Commission (JCI) exigindo cuidados paliativos, o médico Daniel Neves Forte foi chamado para implantar o serviço no Sírio. Mia, então, uniu-se a ele e a Valéria (enfermeira-chefe) para estruturar a iniciativa. Em 2011, juntos, com outros profissionais (Saporete, Tânia, Vladimir), eles fundaram a pós-graduação em cuidados paliativos da Faculdade Sírio-Libanês. O curso, que começou com uma reunião em uma pizzaria, hoje já formou mais de 25 turmas entre as modalidades adulto e pediátrica, em São Paulo e Brasília.

Mia destaca a importância da narrativa em primeira pessoa no curso, um método que ela defendeu por três anos contra a resistência dos médicos. A narrativa não é a dos manuais, mas uma reflexão pessoal que integra autoconhecimento, experiência clínica e síntese. É o principal instrumento de avaliação, pois revela se o aluno conseguiu fazer uma transformação interna. Ela enfatiza que o curso é de cuidados paliativos (multiprofissional) e não apenas de medicina paliativa, e que muitos alunos vêm por indicação de ex-alunos, buscando uma formação que os transforme como pessoas e profissionais.

A Filosofia do Cuidado: Presença, Vulnerabilidade e Hierarquia Horizontal

Para Mia, o coração dos cuidados paliativos é a presença. Ela cita Madre Teresa de Calcutá: "Eu amo as pessoas quando eu estou com elas". Estar verdadeiramente presente, sem se deixar carregar pelo sofrimento do outro após o atendimento, é uma habilidade essencial. Ela recomenda que os profissionais conheçam seus limites e saibam pedir ajuda, respeitando os limites dos colegas para que os próprios limites sejam respeitados. A terapia, com profissionais que entendam a realidade hospitalar, é fundamental.

Autocuidado como Obrigação Moral

Mia é enfática: autocuidado não é luxo, é obrigação moral. Cada pessoa precisa descobrir o que a ajuda a focar e desfocar, seja correr, cozinhar, ouvir música ou assistir a doramas. Ela adverte que trabalhar exclusivamente em cuidados paliativos, em regime integral, é insustentável, pois exige um nível de presença muito alto. A frase que define seu pensamento é: "O preço do amor é a perda", de Colin Murray Parkes, que resume a inevitável dor de cuidar e se despedir, mas também a imensa gratificação de estar presente.

A Hierarquia e a Comunicação com o Paciente

Mia defende uma hierarquia horizontal, em que o profissional é um ser humano cuidando de outro ser humano, colocando seu conhecimento a serviço, mas reconhecendo que o paciente sabe mais sobre si mesmo do que o profissional jamais saberá. Ela recomenda que os psicólogos hospitalares realizem uma análise institucional para identificar as hierarquias formal e informal, que muitas vezes são diferentes, e aprendam a se comunicar com os médicos de forma cuidadosa, nunca afirmando, mas sugerindo: "Estou preocupada com isso, o que o senhor acha?"

O Mercado, a Cultura e o Futuro dos Cuidados Paliativos

Mia analisa o cenário atual de forma crítica e otimista. Ela acredita que as instituições de saúde, especialmente as particulares, ainda não compreendem plenamente o valor econômico do cuidado paliativo, que reduz internações, procedimentos onerosos e afastamentos por doença (como lombalgia de origem emocional). No entanto, ela vê uma mudança cultural impulsionada pela pandemia de COVID-19, que aumentou a demanda por psicólogos e o reconhecimento da saúde mental.

Ela cita como exemplo a Bahia, onde ex-alunos implantaram 54 centros de cuidados paliativos, um número superior ao de São Paulo. Mia percebe que o boca a boca está mudando a percepção da sociedade, com pessoas que tiveram boas experiências recomendando o cuidado paliativo para parentes e amigos. Ela acredita que, quando os convênios perceberem a vantagem econômica – menos quimioterapia, menos internações, mais qualidade e tempo de vida – o cuidado paliativo se tornará um investimento valorizado.

A Arte como Cuidado e os Doramas como Autocuidado

Mia, que tem uma forte formação em artes plásticas, valoriza a linguagem não verbal como ferramenta de cuidado. Ela recomenda leituras técnicas e literárias, como as obras de Colin Murray Parkes, Elisabeth Kübler-Ross, Irvin Yalom, Maria Helena Franco, Breybard e Cassel. No entanto, seu grande segredo de autocuidado durante a pandemia foram os doramas coreanos, que a transportam para um mundo totalmente diferente, em coreano com legendas em inglês, proporcionando relaxamento e fuga necessários.

Mensagem para os Profissionais Iniciantes

Para psicólogos e outros profissionais que estão começando na área hospitalar e de cuidados paliativos, Mia deixa uma mensagem de persistência e humildade: "É um trabalho de formiga", que requer paciência, cuidado para não criar anticorpos e uma análise aguçada da cultura institucional. Ela reforça que, se algo vale a pena, vale a pena ser feito, mesmo que o caminho seja difícil. Seu legado é um exemplo vivo de que é possível transformar o sofrimento em instrumento de trabalho e construir, aos poucos, um mundo melhor, com mais humanidade e presença.