Introdução e Recepção: A Jornada de Samuel no Mundo Corporativo
No episódio da Confraria dos CEOs Cast, Manuel Edésio, presidente do grupo Edesoft, recebe Samuel, um executivo com 18 anos de experiência ajudando empresas de software a crescer. A conversa explora a trajetória pessoal e profissional de Samuel, destacando a importância do networking, da superação de adversidades e do desenvolvimento de uma mentalidade de crescimento desde a infância. Samuel compartilha insights valiosos sobre como pequenas decisões diárias e a disposição para pagar o preço pelas oportunidades são determinantes para o sucesso.
Origens e Primeiros Passos: A Infância e as Primeiras Lições de Comércio
Samuel nasceu em um bairro periférico de São Paulo, além do Ipiranga, em um lar estruturado, embora sem posses. Seus pais sempre o apoiaram nos estudos, e desde cedo ele foi incentivado a correr atrás, nunca tendo mesada. Sua primeira experiência com comércio ocorreu por volta dos 7 ou 8 anos, quando ajudou a vender uma caixa de carrinhos de fricção na porta de um supermercado. Mais tarde, seu pai, que era metalúrgico, foi demitido e abriu uma mercearia, onde Samuel começou a lidar com caixa e estoque.
Aos 10 anos, Samuel já demonstrava iniciativa ao sugerir ideias de marketing, como sortear um fogão para atrair clientes. Frustrado com o trabalho na mercearia do pai, ele pediu para trabalhar. Um amigo do pai, que fazia manutenção de ferramentas elétricas, ofereceu-lhe uma oportunidade, mas Samuel acabou sendo direcionado para a parte administrativa. A experiência o levou a um impasse: ele precisava pagar R$ 50 por mês para aprender o ofício com outro profissional. Este foi um momento marcante: Samuel pagou para trabalhar. Após três meses, ele renegociou e passou a ser pago. Essa fase do SENAI e os primeiros passos no mercado de trabalho marcaram o início da trajetória de “ralação” e busca incessante por crescimento.
O Papel do Networking: Construindo Créditos para o Futuro
Um dos pilares da história de Samuel é o entendimento profundo de que 80% do resultado que você não tem está ligado ao network que você não fez. Ele compara o networking a um caixa eletrônico: você vai fazendo relacionamentos, alimentando conexões e gerando créditos. A diferença é que nunca se sabe quando poderá sacar, mas sem créditos, não há saque. Samuel enfatiza que networking não é explorar relações para obter benefícios, mas sim cultivar boas relações genuínas, ter um sorriso no rosto, vontade de ajudar e curiosidade sobre o trabalho do outro.
Foi através de seu círculo de relacionamento (amigos da igreja, amigos do pai) que Samuel conseguiu seu primeiro emprego com carteira assinada em 2004, como ajudante de manutenção no Hotel Renascense, na Avenida Paulista. Mesmo em funções simples, como trocar lâmpadas e desentupir vasos, ele extraiu oportunidades, como aulas de inglês oferecidas pelo hotel. Samuel destaca que as pequenas decisões diárias (acordar cedo, cumprir compromissos, aprender um pouco a cada dia) fazem mais diferença do que grandes decisões.
Transição de Carreira: Da Mecatrônica para a Administração e a Viagem ao Canadá
Inicialmente, Samuel fez um curso de mecatrônica no SENAI. No entanto, após ler os livros “A Meta” e “Corrente Crítica” (sobre teoria das restrições), ele descobriu sua verdadeira paixão: trabalhar com administração e organização. Mesmo com o pai pagando a faculdade de mecatrônica, Samuel decidiu mudar de área. Ele trabalhou como ajudante de torneiro mecânico (onde ganhou uma cicatriz na mão), ajudante de pedreiro e jardineiro.
Um marco em sua carreira foi a decisão de fazer um intercâmbio no Canadá. Ele viu uma reportagem que dizia ser possível ir ao Canadá com R$ 10.000, e ele tinha R$ 12.000 na conta. Conseguiu 30 dias de férias do hotel, comprou passagem e hospedagem, e foi para o Canadá, onde viu neve pela primeira vez. Durante o intercâmbio, economizava até pegando moedas do chão para comer pizza. Ele negociou mais 15 dias de férias e prolongou sua estadia, o que fez uma diferença enorme em sua carreira. Essa fase foi a de “tirar leite de pedra”, aproveitando pequenas oportunidades que surgiam.
A Virada no IDC: Aceitando Menos Dinheiro por Maior Aprendizado e a Bolsa da Fundação Estudar
A grande virada em sua carreira aconteceu quando um colega de faculdade o indicou para uma vaga de estágio na IDC, uma empresa de pesquisa de mercado de tecnologia. Samuel já tinha uma carreira consolidada na empresa alemã, ganhando quatro vezes mais que seu pai, com carro e benefícios. A proposta da IDC pagava quatro vezes menos, apenas o suficiente para pagar a faculdade. Mesmo assim, Samuel aceitou o desafio, usando suas reservas de emergência para se sustentar por um ano, com a promessa de que seria efetivado se mostrasse serviço.
Na IDC, Samuel demonstrou garra e resiliência. Quando uma equipe precisava produzir 14 relatórios e os outros analistas pediram ajuda com um ou dois, Samuel fez 13 sozinho, sendo efetivado em 11 meses (algo inédito na empresa). Paralelamente, ele foi aprovado em um processo seletivo da Fundação Estudar, uma ONG ligada aos donos da AMBEV (Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira). Na entrevista final, sem saber quem era Jorge Paulo Lemann, Samuel respondeu com naturalidade, usando um repertório recém-adquirido em uma revista Veja sobre “choque de gestão”. Essa curiosidade intelectual lhe rendeu uma bolsa de estudos.
Um bom indicador de onde você vai chegar é ver de onde você saiu e onde você está. A fundação proporcionou a Samuel acesso a mentores como principais líderes de tecnologia do país e, fora do expediente, eventos com grandes nomes do empreendedorismo brasileiro, transformando-o de alguém que serve (nos bastidores do hotel) para alguém que constrói seu próprio caminho.
Experiência na LINX: Portfólio, Governança e a Bolha da Mediocridade
Samuel foi para a LINX, uma empresa de software brasileira, através de uma aquisição. Seu papel era fazer gestão de portfólio, documentar produtos e organizar o go-to-market. Ele destaca que um dos grandes desafios foi lidar com pessoas internamente. Ele sentiu olhares tortos de colegas que se conformavam com a mediocridade e não queriam que ninguém se destacasse. Samuel chama isso de “bolha da mediocridade”: onde estagiários e juniores tentam barrar quem quer elevar a régua.
Samuel sempre foi inquieto. Se vê um problema, ele o resolve. Ele acredita que pessoas são pagas para resolver problemas, e os problemas maiores pagam mais e têm menos concorrência, pois ninguém quer resolvê-los. Além disso, Samuel fala sobre outra bolha: a do círculo de pessoas que te amam, que muitas vezes tentam te proteger e te impedir de ousar, com medo do fracasso. Romper essas bolhas é necessário para o crescimento. A estratégia de crescimento da LINX por aquisição é um exemplo de superação de ego e abertura para novas possibilidades.
Parcerias e Terceirização: O Pulmão Extra e a Relação de Confiança
Samuel discute a importância da terceirização como um pulmão extra para empresas de software, especialmente para aproveitar oportunidades rápidas. Ele enfatiza que o que não pode faltar em uma terceirização é uma relação de parceria e confiança, e não uma relação puramente contratual. Projetos sempre dão problemas; a diferença está na disposição de ambas as partes em fazer dar certo.
Samuel critica o erro de colocar toda a “galinha dos ovos de ouro” nas mãos de um único técnico. Um parceiro de confiança tem preocupação com documentação e processos, permitindo a substituição de pessoas sem paralisar o projeto. Ele aconselha as empresas a terem uma mentalidade aberta para ouvir clientes, equipes e fornecedores. A autolimitação imposta pelo dono da empresa é a principal razão para o negócio não decolar. Samuel pergunta retoricamente: o que fez a empresa chegar onde está, e o que a impediu de ir além? As respostas geralmente já estão dentro da empresa.
Projeto Atual: Canol CRM – Fidelização no Setor de Alimentação
Atualmente, Samuel está envolvido com a Canol CRM, uma plataforma de fidelização focada no setor de food service (restaurantes). Ele observa que, no varejo farmacêutico e de supermercados, é comum dar descontos mediante CPF ou aplicativo, mas no segmento de restaurantes (que tem a maior frequência de compra), a venda é anônima. O garçom pode saber o nome do cliente, mas não há um sistema estruturado para recuperá-lo caso pare de frequentar o local.
A Canol ajuda restaurantes a cadastrarem sua base de clientes, entenderem seu comportamento e criarem campanhas de relacionamento automatizadas. Por exemplo, se um estudo mostra que clientes se fidelizam após a quinta compra, o sistema automaticamente envia um cupom de desconto para o cliente na quarta compra. As taxas de conversão dessas campanhas chegam a 17-18%. Samuel ressalta que o empresário do setor é low-tech, por isso a plataforma foi desenhada para ser de alto serviço e automatizada, contando com apoio de agências de marketing.
Recado Final: A Confraria dos CEOs e o Poder das Conexões
Samuel encerra com um recado sobre a importância de participar de comunidades como a Confraria dos CEOs. Ele destaca que, em eventos da confraria, há sempre um empresário diferente fazendo algo diferente, proporcionando aprendizado contínuo. Ele menciona a teoria dos seis graus de separação: com seis conexões, é possível conversar com qualquer pessoa no mundo, de Bill Gates a um indiano no interior da Índia.
Samuel incentiva o público a merecer o acesso a essas redes de alto nível, abrindo espaço na agenda para novas relações, não de maneira egoísta (para conseguir contratos), mas para expandir horizontes. Ele conclui agradecendo o convite e reforça que a Confraria dos CEOs é uma plataforma de conexões com boa comida, boa bebida e boas relações, e espera encontrar os ouvintes nos próximos eventos.