Neste 15º episódio do Podcast Podlalaiá Samba Clube, o apresentador Rafael nos presenteia com uma entrevista histórica e profundamente emocionante. Celebrando o primeiro ano de existência do canal, o programa recebe ninguém menos que Thobias da Vai-Vai, uma verdadeira instituição e um baluarte vivo do samba paulista. Cantor, ator, radialista, presidente de honra da escola de samba Vai-Vai e presidente de honra da Faculdade Zumbi dos Palmares, Thobias compartilha ao longo de quase uma hora dezenas de histórias de vida, de superação da morte e de muita resistência cultural, provando por que é uma das vozes mais emblemáticas e respeitadas do Carnaval brasileiro.
Solidariedade e Homenagens Iniciais
O episódio se inicia com um forte apelo social e tom de solidariedade. O apresentador Rafael utiliza o espaço do podcast para pedir doações à organização Doutores da Alegria, uma ONG vital que atua há mais de 33 anos levando arte e conforto a crianças em leitos de hospitais, mas que recentemente anunciou o risco de encerramento de suas atividades devido à escassez de recursos financeiros. Logo em seguida, o programa é afetuosamente dedicado ao compositor e amigo Xandinho Nocera, que se encontra internado no Hospital São Camilo recuperando-se de um AVC.
Embalado por essa introdução, Thobias da Vai-Vai, com toda a sua sabedoria adquirida, reflete sobre a crescente falta de fraternidade na sociedade atual. Ele compara o excessivo materialismo, a ostentação e o egoísmo dos tempos modernos com passagens bíblicas clássicas — citando como o povo de Moisés construiu um bezerro de ouro, ou a luta de Jesus Cristo contra a dura opressão financeira do Império Romano. Para Thobias, isso evidencia que a humanidade, mesmo após milênios de evolução tecnológica, continua a repetir os mesmos erros morais e a se afastar sistematicamente da caridade e do amor ao próximo.
O Renascimento: A Dura Batalha Contra a COVID-19
Um dos momentos mais viscerais e dramáticos da entrevista é o relato de Thobias sobre a sua experiência de quase morte durante o ápice da pandemia de COVID-19. Ele descreve com detalhes os sombrios 35 dias em que esteve internado no mesmo Hospital São Camilo (citado na homenagem a Xandinho), dos quais 9 dias foram passados sob profunda intubação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Com uma franqueza comovente e toques de humor peculiar que ajudam a aliviar a tensão da história, ele recorda como, logo após ser internado em um quarto regular e ser submetido à dolorosíssima coleta de sangue arterial (gasometria), assistia à televisão e deparou-se com a notícia do falecimento do Senador Major Olímpio, que estava internado naquele exato hospital. Aquele momento o aterrorizou: Thobias pensou imediatamente que seria "a bola da vez", raciocinando que se um homem mais jovem e atleta havia falecido, ele, com comorbidades como diabetes e hipertensão, teria poucas chances.
Após acordar do coma induzido em uma UTI completamente diferente do quarto onde estava, a confusão mental provocada pelos potentes sedativos o fez acreditar, por alguns instantes aterrorizantes, que havia morrido e estava aguardando "São Pedro". O vírus foi implacável com seu corpo, paralisando temporariamente os seus rins e obrigando-o a passar por quatro duras sessões de hemodiálise. Thobias recebeu alta hospitalar precisando usar uma cadeira de rodas e dependeu de cuidadores em casa por um bom período. Embora lide até hoje com algumas pequenas sequelas, como falhas de memória ocasionais (esquecendo o nome das filhas e da bisneta) e fraqueza nas pernas, ele celebra de forma vibrante sua recuperação, vendo cada novo dia como um milagre inestimável.
Educação Antirracista, Faculdade Zumbi dos Palmares e a Falsa Meritocracia
Na qualidade de Presidente de Honra da prestigiada Faculdade Zumbi dos Palmares, Thobias transforma o podcast em uma verdadeira aula de história, sociologia e consciência de classe. Ele desanca e critica abertamente o raso conceito de "meritocracia" propagado no Brasil, apontando que é completamente irracional exigir uma competição justa quando os pontos de partida dos indivíduos são tão drasticamente desiguais.
Thobias resgata os cruéis fatos históricos que sucederam a Abolição da Escravatura: enquanto os grandes latifundiários e "senhores de escravos" da época foram polpudamente indenizados através de financiamentos estatais pelo Banco do Brasil, a enorme população negra recém-liberta foi atirada ao relento, sem direito a propriedades, acesso à educação ou mercado de trabalho formal, e logo após foi criminalizada de forma absurda pela infame "Lei da Vadiagem".
Ele sublinha que o racismo estrutural tenta encurralar o negro brasileiro, forçando-o a ocupar unicamente espaços voltados ao entretenimento físico, como o esporte (futebol) ou a música (samba, pagode e mais recentemente o funk). Quando uma pessoa preta ousa ascender socialmente, estuda profundamente e passa a ocupar posições intelectuais e de poder real, isso gera um incômodo imediato na estrutura conservadora elitista. É exatamente por essa razão que a principal bandeira levantada por Thobias é investir de forma radical e ininterrupta na educação, empoderando a juventude a reescrever sua história e combatendo veementemente aqueles que, por pura ignorância ou maldade, rotulam o sofrimento histórico e a luta racial como "vitimismo" ou "mimimi".
A Criação de um Ícone: A Origem do Chapéu Panamá e da Letra 'H'
Aliviando um pouco a densidade dos temas políticos, Thobias revela de forma descontraída como nasceu o seu visual clássico e absolutamente inconfundível. Na transição dos anos 80 para os anos 90, o famosíssimo produtor musical César Augusto (conhecido por estourar grandes sucessos da música sertaneja) estava produzindo Thobias e insistiu muito para que ele gravasse a canção "Me Leva".
Para a sessão de fotos da capa do disco compacto, a equipe idealizou um visual inspirado nos antigos "gângsteres". A locação foi no bairro da Santa Cecília, ao lado de um Cadillac majestoso. Como Thobias já sofria com a calvície precoce (brincando no podcast que "já lhe faltava o telhado"), a produção de figurino colocou um chapéu panamá nele. O resultado estético foi tão impactante e combinou tanto com a sua persona que o chapéu virou sua identidade visual definitiva. Outra curiosidade revelada é a adição da letra "H" ao seu nome de batismo artístico, que originalmente era grafado apenas como Tobias. Ele fez essa mudança estilística da própria cabeça. Tempos depois, um amigo estudioso de numerologia explicou que a letra "H" é a oitava do nosso alfabeto, um número que carrega uma forte simbologia de prosperidade e fluxo infinito de energia. Coincidentemente ou não, foi logo após adotar a grafia "Thobias" que a sua carreira atingiu o auge e ele chegou à cadeira máxima de presidente da Vai-Vai.
A Épica Trajetória no Samba: Da Sabesp à Presidência da Saracura
A entrada de Thobias no ecossistema do samba e sua espetacular ascensão até o ápice do Carnaval parecem ter sido retiradas do roteiro de um filme. No começo dos anos 80, sua vida era distante do estrelato; ele trabalhava na Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) como um simples entregador de contas de água nas ruas. Após ganhar o primeiro lugar em um festival interno de intérpretes promovido entre os funcionários da estatal, sua voz avassaladora chamou a atenção de um homem chamado Zé Roseli, que era chefe da segurança da Sabesp e, de forma providencial, vice-presidente da escola de samba Vai-Vai, além de ser o braço direito dos lendários bambas Pé Rachado e Chiclé.
Foi esse o seu passaporte de entrada para a ala de compositores do Bixiga, onde começou a burilar os sambas e ajudar os compositores antigos que não tinham muita afinação vocal. Um detalhe curioso de sua carreira é que a sua primeiríssima gravação profissional de estúdio não foi pela Vai-Vai, mas cantando um samba-enredo para a escola Acadêmicos do Tucuruvi, então pertencente ao grupo de acesso. Além disso, antes de se consolidar como o intérprete absoluto da Saracura, Thobias foi a primeira voz oficial do Bloco Carnavalesco Gaviões da Fiel (que ainda não era escola de samba), conduzindo os corintianos por dois anos seguidos na Avenida São João.
Em 1985, Thobias foi efetivado como a voz principal da Vai-Vai, um posto sagrado que ocupou por ininterruptos 15 carnavais, construindo uma era de ouro. Seu amor incomensurável pela comunidade do bairro do Bixiga não se restringiu à quadra de ensaios: no âmbito social e religioso, ele foi um dos grandes fundadores da Pastoral Afro da Igreja de Nossa Senhora Achiropita, no ano de 1988, ao lado do saudoso e valente Padre Toninho. Juntos, enfrentaram um racismo escancarado, mas triunfaram ao integrar de forma belíssima a cultura negra à tradicional festa italiana do bairro. A sua impressionante liderança natural o alçou ao cargo de Presidente Executivo da Vai-Vai entre 2006 e 2010. O ponto alto da sua administração foi a grandiosa conquista do campeonato de 2008, com o enredo "Acorda Brasil, a saída é ter esperança", que exaltava o brilhante trabalho de inclusão do Instituto Baccarelli e da Sinfônica de Heliópolis.
A Batalha pela Memória: O Futuro da Estação Saracura/Vai-Vai
Um dos temas de maior relevância política debatidos no episódio é a angustiante situação da Vai-Vai, que perdeu a sua lendária sede na Rua São Vicente, no epicentro do Bixiga, por conta das implacáveis obras de escavação da nova Linha 6-Laranja do Metrô paulistano. Durante o processo de remoção de terra, foram encontrados imensos sítios arqueológicos repletos de artefatos da antiga população negra (pertencentes ao Quilombo da Saracura) e de grupos indígenas que habitavam a região muito antes da urbanização.
Thobias levanta a voz para denunciar a clara tentativa do governo estadual e da empreiteira de apagar e sufocar essa história fundamental. A comunidade organizou um forte movimento social chamado "Saracura/Vai-Vai", que exige não apenas a construção de um memorial digno no local, mas também que a futura estação de metrô seja oficialmente batizada com o nome do antigo quilombo e da escola de samba. No entanto, ele lamenta o fato de que a ganância dos interesses do mercado financeiro e do capital imobiliário prefira vender os direitos de nome (naming rights) da estação para corporações privadas ou bancos, agindo como um rolo compressor que destrói e enterra a rica identidade cultural e o suor do povo que efetivamente construiu as bases da cidade de São Paulo.
Conclusão e Um Encerramento de Arrepiar
O episódio se aproxima do fim com Thobias deixando ensinamentos profundos. Ele reitera de forma veemente que a busca pela educação e pelo conhecimento é a única saída verdadeira para desmantelar o racismo, a pobreza e a opressão. Ele incentiva as novas gerações a não recuarem, a não aceitarem passivamente a submissão desenhada por um sistema capitalista que prefere a exploração à distribuição de oportunidades.
Para selar essa verdadeira aula magistral e presentear a audiência do Podlalaiá, o apresentador Rafael pede a Thobias que solte a voz. E a lenda não decepciona: cantando de forma brilhante e a capella, ele entoa o clássico "Tradição" (samba imortalizado por Geraldo Filme e pela madrinha Beth Carvalho, mais conhecido pelo icônico verso "Vai no Bixiga pra ver"). A potência vocal e a emoção de Thobias ecoam de forma arrepiante, concluindo um episódio que não é apenas uma simples entrevista, mas um registro documental vital sobre a dignidade, a memória negra e a imortalidade do Carnaval de São Paulo.