O 28º episódio do Podcast Podlalaiá Samba Clube, apresentado por Rafael, trouxe uma celebração histórica e emocionante para o mundo do samba. Gravado no dia 7 de outubro, Dia do Compositor Brasileiro, o programa homenageou as bodas de prata de um dos movimentos culturais mais importantes de São Paulo: o Samba da Vela, que completa 25 anos de resistência, tradição e amor à cultura popular. A bancada contou com a presença ilustre de seu fundador, o mestre Chapinha, além de membros fundamentais como William Fialho, Caio Prado e Bebeto (filho de Chapinha), que compartilharam memórias, regras, filosofias e muita música ao vivo.
A Origem: O Porquê da Vela e a Escolha da Segunda-Feira
Durante o bate-papo, Chapinha relembrou com riqueza de detalhes como tudo começou no ano 2000. Ao lado de seu parceiro Paquera e de outros sambistas como Magno e Maurílio (do Quinteto em Branco e Preto), eles fundaram o Espaço Cultural Ziguidum, em Santo Amaro. A ideia inicial era criar uma roda de samba de segunda-feira para preencher uma lacuna deixada pelo fim de outras rodas tradicionais, cantando clássicos de Cartola, Geraldo Filme e Candeia.
Entretanto, após uma reunião no dia 11 de julho daquele ano, eles passaram a madrugada cantando apenas composições próprias. Foi nesse momento que surgiu o "estalo" de Chapinha: fazer uma roda exclusivamente de sambas inéditos. Como precisavam de um limite de tempo para que as pessoas pudessem ir embora antes da meia-noite, surgiram várias ideias de "cronômetros", como ampulhetas e até um galo. Foi o saudoso Paquera quem sugeriu acender uma vela: enquanto a vela queimasse, o samba rolaria; quando a chama se apagasse, o samba estaria encerrado (o famoso "Zé Fini"). A tradição pegou de tal forma que, no primeiro dia, por conta do vento, eles chegaram a queimar um pacote inteiro de velas. Hoje, a vela possui o tamanho exato para durar as duas horas do evento.
A escolha da segunda-feira também carrega um forte simbolismo espiritual. No sincretismo e nas religiões de matriz africana, a segunda-feira é o Dia das Almas. Em sinal de respeito a essa egrégora, a mesa central do Samba da Vela possui uma regra inquebrável: não entra bebida alcoólica, apenas água. Chapinha ressaltou o orgulho de ter mais de 50 anos de samba sem nunca ter consumido álcool, provando que a alegria e a inspiração do sambista vêm da alma e da arte, e não da embriaguez.
O Fenômeno Beth Carvalho e a Criação do "Caderno" e das Cores
A roda começou modesta, com cerca de 20 compositores apresentando suas obras. Porém, tudo mudou quando a lendária madrinha do samba, Beth Carvalho, visitou o espaço a convite do Quinteto em Branco e Preto. A presença da cantora transformou o Samba da Vela em um fenômeno instantâneo. Na semana seguinte, o público saltou de 80 para cerca de 600 pessoas, e mais de 50 compositores chegaram com letras debaixo do braço para cantar.
Para organizar essa demanda gigantesca e evitar o constrangimento de deixar compositores sem cantar, surgiu o famoso Caderno do Samba da Vela, pautado pelas cores observadas na própria chama da vela (azul na base, rosado/amarelado no meio e o fundo branco). O processo de seleção tornou-se uma verdadeira instituição:
- Vela Rosa: Um período de cerca de três meses no início do ciclo em que qualquer compositor pode apresentar suas obras inéditas, sem ser avaliado ou julgado. O objetivo é apenas dar a oportunidade de mostrar a arte.
- Vela Azul: O compositor que apresentou vários sambas deve escolher apenas um para defender. É a fase de avaliação da comunidade e da curadoria.
- Vela Branca: Os sambas aprovados entram oficialmente no Caderno (cerca de 26 obras por ano) e passam a ser cantados todas as segundas-feiras, garantindo a continuidade e a popularização das letras entre o público.
Gerações, Legado e o "Chamado" do Samba
Os outros convidados ilustraram como o Samba da Vela transformou suas vidas. William Fialho contou que conheceu o projeto quando ainda estava no colegial. A experiência de ver o silêncio absoluto para ouvir um poeta recitar, sob a luz de velas, foi tão impactante que ele passou a cabular aulas para estar lá. Fialho absorveu tanto a filosofia que fundou seu próprio projeto nos mesmos moldes, o Quilombo Cultural e Bira Samba, no Jardim Ibirapuera.
Caio Prado, oriundo de Osasco e com vasta experiência musical, uniu-se ativamente à coordenação do Samba da Vela em 2015, a convite de Chapinha, após o falecimento de Paquera, ajudando a reestruturar o movimento. Já Bebeto, filho de Chapinha, relembrou que começou a frequentar o espaço com apenas 13 anos. Após um período de afastamento típico da adolescência, o samba o "chamou de volta". Ele destacou uma das grandes lições de seu pai: não somos nós que escolhemos o samba, é o samba que nos escolhe.
O Embate: Tradição versus Redes Sociais e Tecnologia
Um dos momentos mais ricos do podcast foi o debate franco sobre o impacto da tecnologia no samba. Bebeto destacou que as redes sociais foram a salvação do Samba da Vela entre 2018 e 2019, quando o público presencial começou a cair devido ao surgimento de outras rodas de samba às segundas-feiras. O Instagram e o YouTube permitiram que o projeto alcançasse mais de 70 mil seguidores, conectando compositores de Brasília, Ceará e até espectadores do Japão e da Califórnia.
Em contrapartida, Chapinha levantou críticas incisivas aos reflexos negativos da tecnologia na valorização do compositor. Ele relembrou que, há 20 anos, um compositor recebia um bom dinheiro (cerca de 15 mil reais) quando alguém gravava e editava sua música, algo que hoje foi engolido pelas plataformas de streaming que pagam centavos. Além disso, criticou a diluição do gênero: hoje, pessoas gravam qualquer música na cozinha de casa, colocam uma percussão por cima e chamam de samba, desrespeitando os fundamentos rítmicos forjados pela Velha Guarda da Portela e de outras escolas tradicionais.
Política Cultural: A Periferia como Patinho Feio
O mestre Chapinha não poupou críticas à forma como o poder público trata a cultura, chamando-a de "o patinho feio do parlamento". Ele denunciou a hipocrisia dos editais de cultura, apontando que 80% das verbas públicas acabam nas mãos de artistas consagrados que realizam eventos em grandes teatros no centro da cidade, cobrando ingressos caros. Enquanto isso, os centros culturais da periferia ficam com as sobras e ainda são proibidos pelo sistema de cobrar pequenos valores ou até mesmo arrecadar alimentos para sobreviver.
Ele frisou que "levar cultura para a periferia" é uma falácia governamental, pois a periferia já respira e produz cultura; o que falta são ferramentas e fomento. A cultura, segundo ele, é o maior complemento da educação, da segurança e da saúde mental, formando cidadãos plenos e afastando os jovens da criminalidade.
Música ao Vivo: A Cartilha do Samba e o Hino da Vela
Fugindo de ser apenas um debate teórico, o episódio foi coroado com palhinhas musicais antológicas. William Fialho cantou a obra "Cartilha do Samba" (de Emerson Ulsono), que deveria ser emoldurada em qualquer roda de samba. A letra ensina regras básicas de respeito: não pedir para cantar, esperar ser convidado, não fazer malabarismos vocais exibicionistas ("fazer o simples") e exaltar sempre a velha guarda. Caio Prado cantou "Para Quem Teve Paciência", um samba que retrata a época de ouro dos anos 2000, quando fileiras de compositores esperavam ansiosamente com envelopes nas mãos para mostrar suas obras na vela.
Chapinha também deu uma pequena amostra de sua versatilidade, cantando um samba romântico com linguagem moderna, mas brincou: "Um samba desse jamais entraria no caderno do Samba da Vela", reafirmando o compromisso estrito do projeto com a métrica e a poesia do samba tradicional de raiz.
O episódio chegou ao seu ápice emocional no encerramento. A pedido de Rafael, e saudando a memória da imortal madrinha Beth Carvalho, todos os presentes se uniram para cantar a capela o hino oficial do movimento: "Quando a vela acender, pode vir gente, toda segunda-feira a gente tá... Eu rezo para essa chama tão crepuscular durar mais um minuto nessa hora, porque senão a comunidade chora". O podcast Podlalaiá cravou, com este episódio 28, um documento histórico indispensável para a preservação e o entendimento da resistência cultural paulistana.