Podcast Podlalaiá #Ep13 - Fernandinho SP

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Neste 13º episódio do Podcast Podlalaiá Samba Clube, o apresentador Rafael recebe uma figura icônica e carismática do carnaval e do samba paulistano: Fernandinho SP. O programa, gravado nos estúdios Yourcast na Avenida Paulista, foi marcado por muita música ao vivo (com Fernandinho empunhando seu inseparável cavaquinho), memórias hilárias, desabafos profundos sobre o mercado musical e histórias de superação na vida e na avenida.

A Arte de Encantar e o Poder Curativo da Música

Fernandinho SP não é apenas um intérprete de samba-enredo; ele é um entertainer nato. Durante a conversa, ele revela que sua facilidade de dominar o palco e interagir com o público vem de sua formação em Artes Cênicas. Ele estudou na escola Emílio Fontana, onde chegou a ganhar um prêmio de melhor ator entregue pelo renomado Osmar Prado, e depois se aprofundou no Teatro Escola Macunaíma, obtendo seu DRT profissional.

Essa bagagem teatral reflete-se na sua forma de conduzir shows de até três horas de duração nos finais de semana. Ele relata que seu maior prazer é descer do palco, sentar nas mesas e cantar olhando nos olhos das pessoas. Um dos momentos mais emocionantes do podcast ocorre quando ele conta a história de uma apresentação recente: ao cantar o clássico "Naquela Mesa" (de Nelson Gonçalves), ele percebeu uma senhora em uma cadeira de rodas prestando atenção. Ao se aproximar para cantar para ela, a senhora — que sofria de demência severa — começou a cantar a letra perfeitamente junto com ele, levando a neta às lágrimas. Para Fernandinho, levar alegria e conforto emocional às pessoas através do samba não tem preço e é o que o motiva a continuar cantando aos 55 anos.

O Verdadeiro Significado de "Fernandinho SP"

Um dos maiores mitos sobre a carreira do cantor foi desvendado neste episódio. Rafael comenta que 99% das pessoas no mundo do samba acreditam que a sigla "SP" em seu nome artístico significa "São Paulo", em homenagem ao estado ou à cidade. Fernandinho, no entanto, explica a verdadeira e emocionante origem do nome.

O "SP" é uma abreviação de Sebastião do Prado, o nome de seu falecido pai. Sebastião foi um homem simples, funcionário público, que sustentou quatro filhos com muita dignidade e ensinou a Fernandinho os primeiros acordes no cavaquinho. Adotar a sigla "SP" foi a maneira que o cantor encontrou de eternizar o legado de retidão, hombridade e amor à música que herdou do pai. Ele relembra que, certa vez, ao contar essa história para um repórter, o jornalista caiu no choro com a profundidade da homenagem.

Os Bastidores do Carnaval: Vaidade, Traições e Preconceito

Com passagens marcantes por diversas agremiações do carnaval paulistano — como Unidos de Vila Maria, Morro da Casa Verde, Vai-Vai, Imperador do Ipiranga e Águia de Ouro —, Fernandinho SP não teve papas na língua ao criticar o lado sombrio dos bastidores das escolas de samba. Ele lamenta profundamente a vaidade exacerbada que toma conta de diretores e intérpretes durante a época do carnaval.

"Tem gente que ganha um cargo na escola de samba e acha que é o Presidente da República. O carnaval acaba, a pessoa volta para a realidade e ninguém mais lembra dela. Falta humildade."

Ele relatou traições de colegas que ele mesmo ajudou a colocar no carro de som e que, ao conseguirem algum destaque, viraram as costas. Além disso, relembrou um perrengue tenso em que foi empurrado fisicamente por um diretor traíra em pleno desfile na avenida, precisando de muita serenidade para não revidar a agressão física e prejudicar a escola.

Outro ponto tocante foi o preconceito que enfrentou. Sendo um homem branco e de olhos claros no universo do samba-enredo (um ambiente de fortíssima raiz negra), Fernandinho relata que muitas vezes foi subestimado e olhado com desdém ao chegar nas quadras. Ele conta que já foi ignorado ao pedir o microfone, mas que o "choque" vinha assim que ele abria a voz, conquistando o respeito da comunidade através do talento inquestionável.

O Retorno Triunfal: A Contratação pela Mocidade Alegre

A grande novidade celebrada no podcast foi a recente contratação de Fernandinho SP pela Mocidade Alegre, a atual bicampeã do carnaval de São Paulo. Ele conta que, após um ano afastado dos desfiles oficiais por não concordar com propostas que feriam seus princípios, recebeu uma ligação inesperada da diretoria da "Morada do Samba". Ele aceitou o convite imediatamente, sem sequer discutir valores financeiros, pela honra de integrar a ala musical de uma escola tão organizada e respeitada, liderada pela presidente Solange Cruz.

Essa nova fase trouxe à tona memórias incríveis de sua infância. Fernandinho revelou que desfilou pela Mocidade Alegre nos idos de 1983/1984, quando o carnaval ainda acontecia na Avenida Tiradentes. Com apenas 12 anos, ele fazia parte de uma ala de pandeiros (a Ala Garotos de Ouro) comandada pelo lendário Luizinho do Pandeiro, dividindo espaço com gigantes como Eliana de Lima e Jamelão. Ele contou uma história hilária de quando a ala foi se apresentar no programa de TV "Festa Baile", de Agnaldo Rayol: uma baiana rodou a saia, bateu no seu pandeiro, que voou longe pelo palco ao vivo, rendendo-lhe um enorme esporro do mestre Luizinho.

Críticas à Indústria da Música e ao "Jabá"

Longe da passarela do samba, Fernandinho também fez duras críticas ao mercado musical contemporâneo. Ele explicou que, atualmente, o talento puro raramente é suficiente para que um artista estoure nacionalmente. A indústria é dominada pelo poder financeiro.

Segundo o cantor, gêneros como o sertanejo monopolizam as rádios do país inteiro porque os investidores injetam milhões de reais ("jabá") para garantir que as músicas toquem exaustivamente. Em contrapartida, o samba e o pagode sofrem com a falta de espaço nas grandes mídias. Ele questiona quantas rádios na gigantesca cidade de São Paulo tocam samba de verdade (citando apenas a Transcontinental e a 105 FM como raras exceções). Para Fernandinho, o sucesso hoje é "comprado" e não conquistado organicamente, o que frustra muitos talentos genuínos que acabam cantando apenas em bares locais.

A Batalha Pela Vida e Homenagens aos Amigos

A parte final do bate-papo trouxe à tona as dificuldades impostas pela vida e pela saúde. Fernandinho relatou que contraiu COVID-19 quatro vezes, sendo a primeira infecção a mais devastadora. Ele passou 26 dias internado em uma UTI, lutando pela vida em um momento onde não havia vacinas e as informações sobre o vírus eram escassas. "Era para eu ter morrido, mas vaso ruim não quebra", brincou ele, celebrando a segunda chance que recebeu.

Ele também prestou uma linda homenagem ao seu amigo "Panda", um grande compositor e intérprete que infelizmente faleceu. Fernandinho contou que, ao ser contratado pela Mocidade Alegre, sentiu a presença espiritual de Panda ao seu lado, como se o amigo estivesse abençoando essa nova e grandiosa etapa de sua carreira no carnaval.

Encerramento

O episódio foi encerrado em clima de festa e gratidão. O apresentador Rafael cumpriu a tradição do Podlalaiá e presenteou Fernandinho com um pão caseiro feito por sua esposa, além da caneca e do boné oficiais do podcast. Em retribuição, Fernandinho SP pegou seu cavaquinho e tocou clássicos, fechando o programa cantando o poderoso refrão de exaltação à Mocidade Alegre: "Abra a roda, a Mocidade chegou!".