OS BASTIDORES DA ESTILISTA QUE VESTE OS MAIORES NOMES DO BRASIL | CERBERUSCAST #12

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Da Arquitetura à Moda: A Transformação de Isadora

Infância e Primeiros Contatos com a Moda

Desde muito cedo, Isadora Barbosa já demonstrava inclinação para o mundo da moda. Ainda pequena, desmanchava roupas prontas para tentar recriá-las, comprava tecidos com o dinheiro que guardava e, aos oito ou nove anos, já experimentava a costura de forma autodidata. Esse fascínio a acompanhou durante toda a juventude.

Arquitetura como Ponte

Formada em arquitetura pela Universidade de Coimbra, em Portugal, Isadora usou a formação inicial como um caminho indireto para alcançar seu verdadeiro objetivo. Vinda de uma família sem condições financeiras, a faculdade de moda em São Paulo era inviável. Assim, a arquitetura, que considerava o curso universitário mais próximo da moda, abriu as portas para uma carreira que a levaria, posteriormente, ao universo fashion.

A Virada de Chave

Após atuar como coordenadora do programa Minha Casa, Minha Vida em Roraima e estabelecer um escritório de arquitetura com contratos em execução, Isadora tomou a decisão de largar tudo e se mudar para São Paulo. “Eu sempre tive certeza de para onde eu queria ir. Eu não era feliz e precisei buscar isso”, relembra. A mudança representou a ruptura com a estabilidade de um cargo público para se aventurar no competitivo mercado da moda paulistano.

O Primeiro Emprego na Moda e os Bastidores do Bom Retiro

A Dificuldade de Inserção

Chegar a São Paulo sem contatos na área foi uma barreira imensa. Isadora distribuiu currículos e portfólios por lojas e confecções, mas ouvia constantemente que ali não era escritório de arquitetura. Após um ano e quatro meses de tentativas frustradas e passagem comprada para Brasília, um encontro casual em um restaurante mudou seus rumos. Um empresário do Bom Retiro, ao ver algumas peças que ela produzia, convidou-a para ser estilista de sua marca de fast fashion.

Aprendendo o Básico do Negócio

Embora o desejo de Isadora fosse trabalhar em um ateliê de alta-costura, a experiência no Bom Retiro foi transformadora. Em uma empresa com apenas oito funcionários, ela aprendeu na prática como fabricar, produzir, etiquetar e precificar uma roupa. “Ali não haveria escola maior”, afirma. Apesar de se sentir engessada com a produção de roupas de “bate-caixa”, Isadora introduziu ideias de design que, segundo o ex-patrão, se tornaram os produtos mais vendidos da marca.

Conflitos e a Armadilha das Empresas Familiares

À medida que a empresa crescia – saindo de 40 para 400 peças por modelo –, os conflitos internos se intensificavam. A presença de parentes do dono na gestão tornava o ambiente profissional confuso. Isadora destaca um problema recorrente: nepotismo sem critério de competência. “A pessoa está ali porque é parente, e não por mérito. Isso é um tiro no pé para quem empreende”, avalia. A falta de profissionalismo e as disputas de poder a levaram a deixar a marca após um ano e meio.

Empreendendo na Pandemia: Sonhos, Celebridades e Desafios Financeiros

A Primeira Tentativa de Negócio Próprio

Com a experiência adquirida e algum dinheiro da venda de bens herdados, Isadora decidiu abrir seu próprio negócio em novembro de 2019. Montou um esquema de produção em casa, contratou pilotagem terceirizada e apostou em peças autorais. Nesse período, conseguiu que Rafa Kalimann e Boca Rosa usassem suas roupas, gerando vendas expressivas. “Elas me ajudaram muito. A Rafa Kalimann usou uma peça minha em um evento e, no dia seguinte, zerei o estoque”, conta.

O Impacto do Lockdown

Em março de 2020, a pandemia de Covid-19 interrompeu bruscamente os planos. Com o fechamento do comércio, as peças extravagantes de paetês, plumas e brilhos ficaram encalhadas. Isadora viu seu investimento virar prejuízo e enfrentou uma crise financeira profunda. Sem renda fixa e sem conseguir enxergar uma saída, pensou em desistir. “Eu olhava para as caixas e caixas de roupa sem ter para quem vender. Foi um desespero”, desabafa.

O Retorno ao Ex-Empregador e a Sobrevivência

Diante do desastre, o ex-patrão a convidou para voltar à antiga empresa, que também precisava inovar durante a pandemia. Isadora retornou e conseguiu se manter financeiramente. No entanto, a experiência deixou marcas: o medo de um novo revés a acompanha até hoje. “A pandemia me deu muitos sustos. Até hoje carrego esse medo, a sensação de que o negócio pode parar a qualquer momento”, revela.

Renascendo no Oscar Freire e a Consolidação da Marca Própria

A Experiência na Marca de Luxo

Convidada para trabalhar em uma marca recém-criada na Oscar Freire, Isadora viu uma oportunidade de se reconectar com o universo que sempre desejou. No entanto, percebeu que estava sendo usada por seus contatos. Em quatro meses, levantou o nome da empresa, vestindo celebridades do Big Brother Brasil com intermédio de stylists que conhecera em festas clandestinas durante a pandemia. Após ter cumprido esse papel, foi demitida com a justificativa de que contratariam alguém da Calvin Klein.

O Salto para a Autonomia

Com os R$ 30 mil que havia conseguido economizar, Isadora alugou uma sala de 40 m² no Bom Retiro, comprou três máquinas de costura e começou seu próprio ateliê. Os primeiros meses foram solitários e cheios de incertezas; costureiros se recusavam a trabalhar ao ver o espaço pequeno. A virada veio quando a atriz Débora Seco usou uma peça sua no Domingão do Huck e a marcou nas redes sociais. A visibilidade explodiu e, em dois anos, Isadora já vestia nomes como Claudia Leitte.

Networking e Construção de Relacionamentos

Grande parte do sucesso de Isadora se deve à rede de contatos construída com stylists, cabeleireiros e produtores. Seu amigo e stylist Eric Maia foi peça-chave para inserir suas roupas no universo sertanejo. “Eu fazia a roupa que ele sonhava e ele me trazia a pessoa que eu precisava”, resume. Essa parceria a levou a vestir Simone Mendes, Lauana Prado e Mayara & Maraísa, consolidando sua presença no segmento musical.

Dentro do Processo Criativo: Como Nascem os Looks das Celebridades

Briefings e Limitações Artísticas

A criação de uma peça para artistas começa muito antes do desenho. Para eventos televisionados, como o especial “Amigas” da Rede Globo, a produção envia um briefing completo com cores, temas e referências. Isadora e os stylists elaboram croquis que precisam da aprovação da direção do programa. “Tudo é pensado: a caixinha de microfone, a mobilidade do palco, se haverá coreografia. Às vezes não se pode colocar muito bordado porque a bailarina precisa fazer acrobacias”, explica.

Quando a Teoria Não Combina com a Prática

Nem sempre o resultado agrada ao público. No “Amigas”, um look de Mayara & Maraísa foi criticado por destoar das demais cantoras. A peça, porém, seguia fielmente o briefing: uma cor rose gold que, sob a luz do palco, ficou mais rosada. “Ela estava totalmente dentro do que foi pedido. Acontece que aprovaram os croquis separadamente e o conjunto final ficou desarmonizado”, defende. A pressão das redes sociais muitas vezes ignora os bastidores e as limitações impostas pelos contratantes.

Equilíbrio entre Criação e Gestão

Para dar conta da demanda, Isadora conta com uma equipe criativa reduzida, formada por estilistas assistentes que complementam suas ideias nos momentos de bloqueio. Contudo, a parte mais desgastante não é a criação, e sim a execução: coordenar pilotagem, corte, costura, bordados e, ainda, administrar a empresa. A contratação de uma gerente administrativa foi fundamental para que ela pudesse retomar o prazer de desenhar e se dedicar ao que ama.

Os Grandes Desafios do Mercado da Moda: Concorrência Chinesa, Mão de Obra Escassa e Sobrevivência

A Invasão dos Produtos Chineses

Isadora aponta a China como um dos maiores entraves para quem produz moda no Brasil. Com custos de produção muito inferiores, as peças importadas chegam ao mercado nacional por um terço do valor, muitas vezes sendo apenas etiquetadas por marcas locais. “Não é só o pequeno que sofre. Grandes grifes internacionais também terceirizam na China e colocam selo de ‘Made in Italy’ ou ‘Made in France’”, denuncia. Para o pequeno produtor, competir com essa estrutura é quase impossível.

Escassez de Profissionais Qualificados

Outro fator crítico é a falta de mão de obra especializada. Modelistas e costureiros experientes são raros e ditam os próprios salários. As novas gerações, segundo a estilista, parecem ter menos apego ao trabalho e menor comprometimento. Isadora observa que muitos empresários estão recorrendo a profissionais de mais idade, já aposentados, para suprir a carência. Em seu próprio ateliê, ela investiu na formação de costureiros, pagando para que aprendessem o ofício.

A Ilusão do Glamour e a Realidade Financeira

O glamour das celebridades contrasta com a dura realidade de quem está por trás das confecções. “Moda não é sinônimo de ficar rico, a menos que você seja dono de uma grande empresa”, afirma. A operação é cara e as margens são apertadas. Além disso, a roupa é considerada um bem supérfluo: em tempos de crise, o consumidor prioriza a alimentação. Por isso, entender o público-alvo e oferecer algo único é a chave para não sucumbir às oscilações do mercado.

Conselhos para Empreendedores: Resiliência, Foco e Humanidade

Acreditar e Persistir

A trajetória de Isadora é um testemunho de que a resiliência é indispensável. Ela incentiva os donos de marcas e lojas a não desistirem diante das dificuldades: “Se você acredita que vai dar certo, vai fazer acontecer. Mas tem que trabalhar muito, porque cair do céu não cai”. Ela própria perdeu noites de sono, deixou de viajar e recusou convites sociais para se dedicar integralmente ao trabalho.

Defina seu Público e Seja Fiel a Ele

Um dos erros mais comuns é querer vender de tudo para todos. Isadora alerta que lojas com moda masculina, feminina e infantil no mesmo espaço têm mais dificuldade de se destacar. O ideal é identificar quem é seu cliente e entender o que ele consome. Ela exemplifica com o caso de um short curtíssimo que produziu: muitos sugeriram aumentar quatro dedos para agradar mais pessoas, mas ela preferiu manter a peça original. “Se eu aumentar, vou competir com um monte de marcas iguais. Assim, vendo menos, mas só eu tenho coragem de fazer”.

Cultive Parcerias, Não Concorrentes

Isadora nunca enxergou outros estilistas como adversários. Ao contrário, faz questão de abrir as portas do ateliê, ensinar técnicas e ajudar colegas. “Se você fica olhando para o que o concorrente faz, ele já fez primeiro e vai vender primeiro. O segredo é fazer o seu, focar no seu diferencial”. A postura colaborativa, além de gerar bons relacionamentos, cria uma rede de apoio fundamental para os momentos de crise.

Humanize as Relações de Trabalho

Para a estilista, o sucesso de uma empresa depende diretamente do respeito entre patrão e funcionário. Ela critica a cultura de “arrancar o sangue dos empregados” e defende que a retribuição justa e o tratamento humano geram lealdade. Em seu ateliê, investiu na capacitação da equipe e construiu um ambiente onde os profissionais se sentem parte do projeto. “Eu não seria quem sou se não fossem eles. Sozinha, eu faria 10% do que faço hoje”, reconhece.