Do Sonho de Cantor à Consultoria de Imagem: A Jornada de Yago Vidal
A trajetória de Yago Vidal no universo da moda é um exemplo de como talento, intuição e um toque de ousadia podem transformar uma paixão em carreira. Antes de se tornar um nome conhecido no styling de artistas e na curadoria de moda de luxo, Yago sonhava em ser cantor. Crescido na igreja, com pais pastores, ele atuou como cantor gospel e, mais tarde, migrou para a música secular como compositor. Essa vivência musical, especialmente a exposição midiática, acabou sendo o prelúdio para sua entrada no mundo da moda.
O estalo para a moda, no entanto, veio de forma natural. Amigos sempre o procuravam para pedir conselhos sobre o que vestir, e Yago percebeu que tinha um olhar apurado para composição de looks. A virada de chave aconteceu quando ele decidiu monetizar esse dom, inicialmente sem saber como cobrar ou estruturar o serviço. Ele revela que, para entender o mercado, chegou a enviar e-mails para outros stylists se passando por cliente para descobrir os valores praticados. Essa perspicácia o ajudou a definir seu preço e a construir um negócio que, hoje, atende grandes artistas.
Yago atribui seu sucesso a uma combinação de fé e esforço. 'Tudo que é meu para na minha mão', afirma ele, que veio de Araruama, uma cidade no interior do Rio de Janeiro. Apesar de ter começado uma faculdade de moda, ele acredita que seu trabalho é mais sobre feeling do que sobre um diploma, e que a vida o treinou para enxergar moda como uma ferramenta de comunicação.
O Estilo como Ferramenta de Poder e Sucesso
Yago explica que, ao vestir artistas, seu objetivo vai além de montar um look bonito. Trata-se de construir uma imagem de poder e sucesso. Para ele, a chave está em entender que não existe uma receita pronta, pois cada corpo é único. Ele critica a abordagem de muitos stylists e vendedores que tentam encaixar o cliente em um padrão, criando uma 'ilusão' para fechar a venda.
A filosofia de Yago é a honestidade e o conforto. Ele parte do princípio de que uma pessoa confiante é aquela que está confortável com o que veste. Por isso, ele sempre pergunta ao cliente como ele se sente com a peça. Mesmo dependendo da venda, ele é o primeiro a dizer que uma roupa não funciona para o cliente. 'Se você construir uma relação na base da verdade, você não vai perder esse cliente nunca mais', afirma. Ele acredita que, no mundo da moda, a transparência é o que gera credibilidade e fidelização, construindo uma relação que vai além da compra de uma única peça.
Da Loja Física à Loja Digital: O Poder do Conteúdo e da Percepção de Valor
Yago, que também tem uma loja de luxo, reconhece a importância do digital para o varejo moderno. Ele conta que, inicialmente, era resistente a se expor, mas foi convencido por seu namorado, que trabalha com fotografia e filmagem. A experiência prática mostrou que, com a internet, o alcance é infinitamente maior do que o fluxo de pessoas que passam em frente a uma loja física. '5.000 pessoas podem passar na frente da loja, mas a audiência na internet é muito maior', compara Yago, destacando que no digital, o cliente entra na sua loja virtual e vê seu ambiente organizado, criando uma experiência lúdica que muitas vezes supera a visita física.
Yago enfatiza que tudo se resume a percepção de valor. Ele usa o exemplo de uma caneca: a mesma caneca, fotografada em um fundo deselegante com um celular, terá um valor de mercado completamente diferente de uma foto com iluminação profissional, em um cenário cuidado. Essa 'percepção de valor' pode ser construída. Ele cita o caso da Zara, que, segundo ele, é uma fast fashion como qualquer outra, mas conseguiu se posicionar como uma marca de luxo, mudando a percepção do consumidor. Para os lojistas, a dica é investir em conteúdo visual de qualidade e, se necessário, contratar profissionais para reformatar e editar seus looks, transformando o estoque parado em peças desejadas.
Inovação, Exclusividade e a Síndrome do Acomodado
Um dos pontos mais fortes da conversa foi a crítica de Yago ao 'acomodado'. Ele observa que muitos lojistas se estabilizam em um faturamento de 30, 40 ou 50 mil reais por mês e acham que isso é o teto. 'Eles se acomodam nesse número', diz ele. A mensagem é clara: se sua empresa não está crescendo, está morrendo. No Brasil, aparecerá alguém com mais vontade para fazer o que você faz, e ele provavelmente fará melhor, porque está disposto a inovar.
A exclusividade, segundo Yago, não deve ser forçada ou usada como argumento de venda sufocante ('é a última peça'), mas sim construída. Para ele, a agonia para vender afasta o cliente. A verdadeira exclusividade está na forma como a peça é apresentada, na narrativa criada e na curadoria. Ele sugere que os lojistas invistam em não sufocar o cliente, mostrando-se confiantes, como se o produto fosse realmente valioso e não precisasse ser empurrado.
A Jornada do Personal Stylist: Editando Looks e Facilitando a Vida do Cliente
Yago descreve o trabalho do stylist como o profissional que 'edita' as roupas. Enquanto o estilista cria a peça, o stylist a combina. É essa edição que gera o desejo. Ele compara o processo ao 'food porn', onde o visual do prato faz o cliente querer comer. Para a moda, o 'provador' cumpre esse papel: mostrar o look montado no corpo certo, em um contexto que faça o cliente se ver naquela roupa.
Ele relata um caso onde reformatou 20 looks de uma loja, levando modelo e fotógrafo, e conseguiu 'fazer a loja voltar a vender o que já tinha', ou seja, vender estoque parado. A dica é que as lojas parem de mostrar as peças isoladamente e comecem a montar kits ou provadores. Essa técnica é especialmente eficaz porque, muitas vezes, o cliente não sabe como usar uma peça. Ao ver o look montado, ele visualiza o uso e a necessidade, o que acelera a decisão de compra e aumenta o ticket médio.
Desafios e Adaptações no Mercado de Luxo Brasileiro
Yago admite que um dos maiores desafios do seu negócio, que envolve importar marcas como Louis Vuitton, Hermès e Givenchy, é a alta carga tributária do Brasil. Isso comprime as margens e dificulta a negociação. No entanto, ele também aponta que a maior dificuldade é se manter no topo. No mercado de luxo, a concorrência é acirrada e a exclusividade é efêmera; se você não se reinventa, alguém vai ocupar seu lugar.
Para se adaptar, Yago teve que aprender a lidar com públicos diversos. Seu atendimento era mais focado em um perfil mais clássico, mas ele percebeu um nicho lucrativo no público funkeiro, que tem dinheiro para consumir luxo, mas não quer ir até a loja. Ele se tornou um 'camaleão', aprendendo a linguagem e as referências desse público, o que lhe permitiu abrir novas frentes de negócio. Essa versatilidade, segundo ele, é crucial: entender quem é o seu público e adaptar sua comunicação e visual para atender a essa demanda sem perder sua autenticidade.
Segmentação de Público: A Força do Nicho no Varejo
Um ponto crucial abordado por Yago é a importância de nichar o público. Ele critica veementemente a ideia de vender para todo mundo. 'Na mesma loja que vende roupa moda cristã, vende roupa para alguém pra balada ou fitness, a conta não vai fechar', afirma. Essa falta de foco, segundo ele, afasta os clientes porque a comunicação e o estoque não são assertivos.
Para Yago, o investimento em marketing e conteúdo de valor, como provadores temáticos, é essencial. No entanto, ele alerta que, antes de investir, o lojista precisa saber quem é seu público. Ele compartilha sua própria experiência ao tentar vender perfumes com ticket médio menor, achando que estava atendendo a uma demanda. Deu super errado e gerou estoque parado. O aprendizado foi claro: ao tentar abraçar uma dor que não era a sua, você acaba com o problema de não conseguir resolver a sua própria. A segmentação é o caminho para a assertividade nas compras e na comunicação.
A Necessidade de Abrir Mão e Investir em Profissionais Qualificados
Yago encerra com um conselho duro, porém realista: os lojistas precisam abrir a mão do dinheiro para investir no negócio. Ele compara a contratação de um profissional qualificado com a de um pedreiro: o primo pode cobrar barato, mas o resultado nunca será o mesmo. 'O dinheiro tem que vir na sua mão e você tem que saber distribuir ele', afirma, ressaltando que o investimento não é um gasto que escoa, mas uma aposta no crescimento.
Ele menciona que, para a loja crescer, o dono precisa deixar de ser o centro de tudo. Isso significa contratar uma pessoa especializada para o marketing digital, para a criação de conteúdo ou para a formatação de looks, em vez de sobrecarregar a vendedora com funções para as quais ela não foi preparada. 'Você não pode depender da sorte', diz ele, se referindo à possibilidade rara de encontrar um funcionário que faça tudo sozinho. O caminho é o investimento consciente e a busca por parceiros que entendam do jogo para impulsionar o que já existe.